Política

Muita coragem e a cabeça cheia de sonhos

Tudo era mágico. Os olhos cheios de estrelas, a cabeça cheia de sonhos e muita coragem. Tínhamos certeza que conquistaríamos um mundo melhor, mais libertário

08/05/2018 12:03

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Créditos da foto: Reprodução/Youtube

 
O ano de 1968 se inicia com um grande acúmulo e melhor organização do movimento estudantil, onde eu praticava minha militância política.

Fui trabalhar cedo porque precisava ajudar na casa de minha mãe, pagar meus estudos e também queria muito construir minha independência.  Nossa geração tinha isso.  Aliás, éramos incentivados a crescer independentes. Eu estudava na Faculdade de Direito Cândido Mendes, num imenso e histórico casarão, em frente ao Paço Imperial, Praça XV de Novembro. 

Trabalhava no jornal Correio da Manhã, a principio como secretária do Dr. Arnoldo Wald,  diretor do jornal; depois que ele saiu fui trabalhar como uma das secretárias de D. Niomar Bittencourt, diretora-presidente do jornal.  Estudava pela manhã e trabalhava à tarde.

Festivais da canção, teatro novo, cinema com debates infindáveis no Cine Paissandu, discussão política fervilhando no local de trabalho, na faculdade, nas atividades, no movimento estudantil.

Tudo era mágico. Os olhos cheios de estrelas, a cabeça cheia de sonhos e muita coragem. Tínhamos certeza que conquistaríamos um mundo melhor, mais libertário. 

Findando o primeiro trimestre, precisamente a 28 de março, um estudante secundarista é morto no restaurante do Calabouço: Edson Luiz de Lima Souto.  Um pobre menino que veio do nordeste tentar uma vida melhor. Estudava artigo 68, trabalhava e morava no Calabouço.  Não teve chance, nem sorte.  Nem parente para seu pranto. 

Mas a sua morte provocou a primeira grande (imensa) manifestação espontânea contra a ditadura.  Uma comoção! O grito entalado na garganta saiu.  Foram milhares de pessoa que velaram seu corpo e fizeram um cortejo emocionado e massivo.   Era o choro pela vida. 

A partir de então houve uma explosão de manifestações.  Aqui no Rio, como eu era estudante de Direito e já tinha minha carteira de solicitadora (estagiária) da OAB-RJ, ajudava como voluntária dos poucos advogados que defendiam os estudantes, a tentar localizar os presos e ver as condições em que estavam. Peregrinava pelas delegacias à procura de detidos, após as manifestações. A violência aumentava e a resposta dos estudantes à violência também era vigorosa.

O ano voou.  Alimentava-me a certeza de que era necessário mudar. Era necessário ganhar aquela guerra e construir uma sociedade melhor. Cada vez mais, me convencia que advogar era minha profissão. Lutar por direitos era minha opção definitiva.

A prisão de 700 estudantes no Congresso da UNE, no interior de São Paulo, dentre eles inúmeras lideranças, cai como uma espada na nossa cabeça.  Não bastasse esse episódio, a edição do AI-5 em dezembro de 1968 nos dava o retrato de que agora a repressão iria recrudescer.   Aconteceu.

Foi difícil. Amigos presos, torturados, sumidos assim: “para nunca mais”...

Buscar presos, feridos, era a nossa missão.  Força para seguirmos adiante, é o que nos movia. Tiramos forças de onde não tínhamos. Trabalhamos com muita garra, com foco e determinação. Trabalhamos sem parar e sem perder o fôlego. 

Brigando na entidade de classe – OAB – para conquistarmos nosso espaço.  Integramos-nos ao Conselho participando de eleições e ganhando nosso lugar.  Fundamos novas comissões.  Apontamos novos caminhos. Falamos de Direitos Humanos, numa casa (a OAB) onde não éramos bem vindos. 

Ajudamos a primeira entidade verdadeiramente feminina, criada no bojo da luta por direitos humanos e formada essencialmente por mães de estudantes no Rio de Janeiro: a União de Mães Brasileiras.  Senhoras de classe média que se uniram para defender seus filhos.  Com elas aprendemos o amor absoluto, o destemor e a disciplina necessários na luta pelos Direitos Humanos.  Aprendemos a dialogar.  A brigar quando necessário, evitando a fragmentação.

Com o passar do tempo e em virtude da imensa necessidade de defender não mais somente os presos, mas também os milhares de exilados, expulsos, centenas de banidos, vasculhar e tentar localizar mortos e companheiros definitivamente desaparecidos, fundamos o Comitê Brasileiro pela Anistia. 

Depois de vários anos, voltamos a nos manifestar nas ruas e, com o crescimento do movimento, conseguimos uma vitória parcial, mas de extrema importância para a construção  de um novo modelo de sociedade.

As conquistas se somaram; as perdas também.

E assim vamos, embalados pela nossa teimosa esperança e com a força do nosso afeto, aprendendo e ensinando uma nova lição.

*Ana Maria Müller é advogada e manteve seu escritório em funcionamento até 2015. Foi advogada de diversos sindicatos e associações pré-sindicais. Conselheira da OAB/RJ eleita pelo voto direto por diversas vezes. Participou da Comissão de Direitos Humanos/OAB/RJ e da Comissão de Mulheres da OAB/RJ. Advogada de familiares de desaparecidos políticos e de diversos ex-presos, exilados e banidos



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