Política

Naomi Klein sobre 'Capitalismo de Desastres'

 

28/06/2020 14:22

Naomi Klein, jornalista, escritora e ativista canadense (Anya Chibis)

Créditos da foto: Naomi Klein, jornalista, escritora e ativista canadense (Anya Chibis)

 
Em A Doutrina do Choque - A Ascensão do Capitalismo do Desastre, Naomi Klein, mais conhecida por seu livro, de 2000, Sem Logo - A Tirania Das Marcas Em Um Planeta Vendido, explora como o capitalismo passou a dominar o mundo, do Chile à Rússia, China ao Iraque, África do Sul ao Canadá, com a ajuda de violentas táticas de choque em tempos de desastre natural ou tragédia.

Lançado nos EUA em 18 de setembro e em toda a Europa e Canadá na semana anterior, o livro contrapõe a teoria de que o capitalismo irrestrito e a democracia de sucesso andam de mãos dadas. A TIME conversou com Klein para discutir suas conclusões, o processo de pesquisa e que tipo de impacto ela espera que seu novo livro tenha.

TIME: Como você criou essa teoria e o que a transformou em um livro?

Naomi Klein: Fui ao Iraque quando a ocupação já tinha um ano e estava pesquisando a interseção entre o choque e o espanto da invasão e como isso teria, supostamente, criado as bases psicológicas para a extrema reforma do país executada por Paul Bremer [enviado de Bush] naquele primeiro verão.

E o que eu estava pesquisando, no final da estadia de Bremer, era como a terapia de choque saiu pela culatra no Iraque - e por terapia de choque, eu estou me referindo às políticas econômicas que muitos iraquianos encaravam, na verdade, como uma continuação da guerra, como as enormes demissões no setor público, o desmantelamento do exército, a abertura do país ao livre comércio irrestrito. Para os iraquianos, foi uma maneira extraordinariamente injusta de abrir seu mercado. A abertura foi percebida, realmente, como uma espécie de pilhagem.

Então, fiquei interessada nessa ideia do que acontece com nossa mente, quando entramos em estado de choque e por que essa é uma metáfora tão poderosa para os arquitetos militares e econômicos da guerra. Mas ainda não tinha certeza de que isso fosse algo além do Iraque. Quando usei a frase "capitalismo de desastre" pela primeira vez, foi porque descobri que algo muito semelhante estava acontecendo no Sri Lanka após o tsunami na Ásia, onde, poucos dias após o tsunami, o governo começou a pressionar por uma agenda muito impopular de privatização da água e privatização da eletricidade, que na verdade fora rejeitada pelos eleitores nas eleições oito meses antes do tsunami.

Em sua pesquisa, você descobriu que é a primeira pessoa a apresentar essa teoria?

As pessoas espontaneamente começaram a usar o "capitalismo de desastre" para descrever o que estava acontecendo com o que estavam vendo ao seu redor, porque era tão claro que esse desastre estava sendo usado para promover uma visão radical de mercados totalmente irrestritos. E Bush não tentou fazer muito segredo quando anunciou que sua ideia de reconstrução da Costa do Golfo era transformá-la em uma zona franca, livre de impostos e de livre comércio.

O que o livro está fazendo de novo é conectar esses capitalismos contemporâneos, que eu acho que a maioria de nós pode ver facilmente no Iraque e em Nova Orleans, e dizer que na verdade isso não é apenas uma invenção distorcida da Casa Branca de Bush. Que na verdade existe uma história. Toda vez que houve um grande salto adiante para esta versão fundamentalista do capitalismo que realmente não vê um papel para o Estado, o terreno foi preparado por algum tipo de choque.

No livro, você frequentemente leva a ideia de "capitalismo de desastre" de volta a Milton Friedman. Então isso é culpa dele?

Milton Friedman é considerado o verdadeiro guru do mercado global moderno. Mas minha opinião sobre Friedman é que não acho que seja culpa dele no sentido de que o papel que ele desempenhou foi mais determinado pela história e forças muito mais poderosas, do que por ele. Eu acho que ele era um popularizador talentoso e um comunicador talentoso, e essa é uma das razões pelas quais a Universidade de Chicago foi tão generosamente apoiada por Wall Street e por que seus próprios projetos foram muito apoiados por [corporações].

Mas o outro lado - e acho que isso é muito mais importante - é a maneira como a Universidade de Chicago foi usada como uma ferramenta da política externa dos EUA. É por isso que me concentro tanto em Friedman e na Universidade de Chicago, porque nos anos 50 e 60 havia uma estratégia no Departamento de Estado dos EUA para tentar desafiar a ascensão do nacionalismo econômico no mundo em desenvolvimento, principalmente na América Latina.

Uma mudança para a esquerda na América Latina ameaçava os interesses das multinacionais estrangeiras dos EUA em países como a Argentina e foi lançada, então, uma espécie de contraofensiva que envolveu trazer centenas de estudantes latino-americanos para estudar na Universidade de Chicago sob Friedman e seus colegas.

Quando a pacífica batalha de ideias não derrotou a esquerda na América Latina, você teve uma onda de golpes militares, muitas vezes apoiados pela CIA, e muitos desses ‘meninos de Chicago’ treinados nos EUA, como são chamados na América Latina, ascenderam a níveis proeminentes de governos - chefes do Banco Central ou ministros das finanças - onde terapeutas de choque econômico estavam trabalhando de mãos dadas com terapeutas de choque muito reais que estavam no controle desses países por meios repressivos, incluindo a tortura.

Você menciona vários casos diferentes em que o "capitalismo de desastre" está em jogo, mas qual exemplo transmite melhor o que você está tentando dizer aos seus leitores?

Acabei de voltar de Nova Orleans e fiquei tão impressionada ao ver esses imensos empreendimentos imobiliários que deixam muito claro que essa coisa que está sendo chamada de reconstrução não é nada disso. A tragédia, em parte, foi criada por 25 anos de negligência da esfera pública, pela cultura da negligência, que permitiu que os diques rompessem, que permitiu que o sistema de transporte se erodisse a ponto de não conseguir lidar com uma evacuação, isso permitiu à FEMA [Federal Emergency Management Agency – Agência Federal de Gestão de Emergências] ser essa concha oca administrada por empreiteiros, que pareciam não encontrar o Superdome por dias. [O Superdome foi o ginásio de esportes usado para abrigar pessoas depois da devastação do furação Katrina em Nova Orleans]

Aqui você tem um desastre que foi em parte um desastre criado por essa mesma ideologia. E então você tem bilhões de dólares liberados em nome das vítimas dessa tragédia e, de repente, há uma possibilidade para pais e professores - para algumas das pessoas mais pobres dos Estados Unidos que foram tão traídas pelo governo - para construir o sistema que elas sempre desejaram, construir os projetos habitacionais que sempre desejaram e curar-se desse choque participando da reconstrução. Em vez disso, o trauma foi explorado ativamente e o fato de as pessoas terem se espalhado por todo o país e se separado de suas famílias, raízes e comunidades, foi aproveitado, a fim de transformar Nova Orleans nessa placa de Petri para ideias que moram em think tanks.

*Publicado originalmente em 'Time' | Tradução de César Locatelli



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