Política

Nepotismo é negócio de família

 

12/08/2019 13:54

 

 
Enganaram-se os eleitores que pensaram que a defesa obstinada que Bolsonaro fazia da família tradicional durante a campanha era contra ameaças imaginárias (kits gays, mamadeiras de piroca) ou contra vínculos amorosos não ortodoxos (famílias monoparentais, homoafetivas, etc.). A família que estava sendo obstinadamente defendida era a dele. Conforme investigação divulgada pelo jornal O Globo em 04/08/2019, o presidente e seus três filhos empregaram mais de cemfuncionários com parentesco ou relação familiar entre si, vários deles com indícios de que não trabalharam de fato nos cargos.

Bolsonaro fez da ocupação de ocupação de cargos um negócio, talento empreendedor transmitido aos filhos que, agora políticos, reproduzem a prática familiar como bem aprenderam. Nepotismo para eles é, literalmente, um negócio de família. Como uma mercearia de bairro, uma lavoura de agricultura familiar ou uma rede de supermercados. Empregando, contratando e demitindo. E lucrando, com aqueles que nunca desempenharam efetivamente o cargo (pois cuidavam do pomar de laranjas), em troca de “rachadinhas”. Fizeram praticamente uma empresa familiar operar dentro das burocracias de Estado. Essa nem Dallagnol supera.

No negócio que montaram, empregam a parentela em rede. Parentes de parentes. O cunhado do primo do tio da madrasta. Parentes das ex-mulheres, parentes de assessores... uma teia de relações familiares. No mundo dos negócios, familiares ou não, chama-se “networking”. Na esfera pública, chama-se nepotismo, mesmo.

O mundo dos negócios exige flexibilidade. Em negócios familiares não é diferente: a reportagem apurou que muitos contratados nem ocupavam os postos para os quais foram designados. Aliás, alguns funcionários eram tão flexíveis que estavam em vários lugares ao mesmo tempo. Funcionários polivalentes extrapolam até leis da Física. E além do mais, fantasmas não existem.

E mais: num empreendimento, mesmo familiar, deve-se primar pela transferência: os parentes contratados eram tão transparentes no desempenho do serviço que sequer eram vistos no ambiente de trabalho. Isso, sim, é transparência.

A reportagem informa também que outros funcionários, mesmo formalmente contratados, jamais compareceram ao trabalho. Mas também não recebiam salário (justo, não?). Nestes casos, a ausência ao trabalho se justifica: estavam todos envolvidos no cultivo da monocultura laranjeira.

Mas, como todo negócio, este também tem riscos e reveses. Como aconteceu com o Flávio que, conforme identificou o COAF, foi vítima de 48 depósitos fracionados, totalizando 96 mil reais.

Mas nenhum negócio deve prosperar nas margens da lei. Neste caso, é preciso fazer com que estas margens sejam ampliadas para os negócios prosperarem legalmente. No mês passado, o presidente do STF Dias Toffoli concedeu liminar, em resposta a um pedido de Flávio, suspendendo investigações baseadas em compartilhamento de dados do COAF sem autorização judicial prévia.

O nepotismo é a forma mais descarada, mesquinha e antiga de patrimonialismo, isto é, de apropriação indébita dos recursos do Estado, seja por políticos ou funcionários públicos. Uma corrupção de mais baixo custo. O modo mais rasteiro de seqüestro do público pelo privado.

Bolsonaro nunca separou o público do privado. Nem na campanha, nem agora. E assim ele se defende, acusando seus antecessores e outros políticos de fazerem o mesmo. Como se isso o inocentasse. Segue firme em seu negócio de família.

Bolsonaro não inventou o nepotismo, obviamente. Assim como outros, ele é o resultado de uma república que nunca se estabeleceu de fato, apesar de sua proclamação. De uma modernização conservadora, fundada em bases produtivas e políticas coloniais. Da nossa resistência em separar o público do privado, fazendo do segundo um espólio a ser apropriado pelo primeiro, consonante com nossa tradição coronelista e autoritária. Essa família que faz do Estado um negócio de família é só a manifestação do que há de mais arcaico em nossa organização política. Dominação tradicional em bases legais modernas. Patriarcalismo urbano. A casa-grande a dominar prefeituras, gabinetes e postos de trabalho. Sobrenomes na folha de pagamento (e nem sempre na de ponto). Nenhuma novidade.

Mas há novidades. A“inovação” bolsonarista na prática do nepotismo está não apenas na desfaçatez com que o presidente comete justamente a “mamata” que prometera combater, mas também na sua defesa pública, alegando ser justo um pai querer dar filés mignon a seus filhos. Ou altos uma embaixada, à revelia das qualificações e requisitos inerentes aos seus desempenhos. E o mais curioso: sob aplausos de seu eleitorado mais fiel. Acreditam realmente que ele é da antipolítica. Nada mais político que declarar-se antipolítico. Nepotismo de sempre. Porém, agora, legitimando-se.

A indicação do 03 para a embaixada americana segue para o senado, ao qual caberá uma resposta. Inclusive sobre seu papel enquanto casa revisora de constitucionalidades. Compactuará com a legitimação do patrimonialismo?

Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo e professor da Universidade Federal de Alfenas-MG



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