Política

No Brasil, a Hora da Paz ou da Guerra

A relação entre o massacre de Columbine e 20 anos depois a tragédia em Suzano, que provavelmente daqui a algum tempo será tema de outro documentário semelhante ao do célebre filme dirigido por Michael Moore

18/03/2019 17:07

Homenagem às vítimas do massacre em muro da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo)

Créditos da foto: Homenagem às vítimas do massacre em muro da Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (Suamy Beydoun/Agif/Estadão Conteúdo)

 
Precisamente há 16 anos Carta Maior comentava o filme Tiros em Columbine* que catapultou Michael Moore para a posição de um dos mais famosos documentaristas do mundo. Com este filme ele ganhou o Oscar de 2002. O massacre na escola secundarista da cidade de Columbine, no Colorado, incrustada no chamado cinturão da Bíblia americano (a mesma região arquirreacionária que vota maciçamente em Trump), ocorreu em 1999.

Os dois jovens atiradores, com armas de grosso calibre, mataram 12 alunos, um professor e feriram 22 pessoas. Os meninos se declararam inspirados por outra chacina anterior, a de Oklahoma City, três anos antes, praticada com bombas por ex-fuzileiros da Guerra do Golfo. Simpatizantes do movimento de milícias.

A jornalista Martha Medeiros, na resenha sobre o doc de Moore em Carta Maior comentou: "Mesmo ciente dos truques sensacionalistas dos quais o filme se utiliza para reforçar a ideia de que os americanos, sob a gerência de Bush, viraram definitivamente a escória do mundo, não há como negar sua eficiência e utilidade. Tiros em Columbine trata da cultura do medo e do quanto ela é capaz de fazer uma lavagem cerebral na sociedade".

Cultura do medo, da vingança e da maldade movimentando a cadeia de massacres cometidos por adoradores de armas – uma corrente que não estanca; ao contrário, ela se intensifica de tempos em tempos com o impulso e o criminoso estímulo proporcionados por governos de extrema direita como o atual no Brasil.

Guilherme Taucci faz pose igual à do personagem Tate, da série ‘American Horror Story’, que é uma referência aos atiradores de Columbine (Facebook/Reprodução/FX Networks/Divulgação)


Dias depois da carnificina em São Paulo, uma menina de dez anos, em São Caetano do Sul, se matou com o revólver do pai e noticia-se que dois garotos, no interior do Ceará, em Freicherinha, já identificados e detidos, planejavam, com detalhado preparo, um atentado semelhante ao de Suzano na principal escola da cidade.

E assim a corrente macabra vai ganhando impulso apesar da venda à população da enganosa necessidade de facilitar a compra e a posse de armas e criando inimigos permanentes a serem eliminados.

Manipula-se a sensação (em parte, realidade) de insegurança coletiva, cultiva-se o medo, em seguida o ódio e a vingança e celebra-se a guerra, a dor e o sofrimento com secas Notas Oficiais.

O massacre desta semana na Escola Estadual Professor Raul Brasil deve ser debitado na conta do atual governo se consideramos processos de causa e efeito.

Jair Bolsonaro mostra a caneta em cerimônia de assinatura da flexibilização do posse de armas em 15/01/2018 (Ueslei Marcelino/Reuters)

No dia seguinte à tragédia em Suzano, o atual ocupante da presidência da República enfatizava a necessidade de "flexibilizar" o Estatuto do Desarmamento; compra e porte de armas.

Tuítes eram temperados com "boçalidades inacreditáveis", como assinalou o colunista Joaquim Xavier, no site Conversa Afiada.

O vice-presidente-general chegou a lançar a hipótese de recolher do mercado videogames que seriam perniciosos para as crianças de hoje e o que propiciaria a volta aos tempos da bolinha de gude.

Em apenas dois dias após Suzano, quando o país se recolhia em luto perplexo, o filho de 20 anos do Presidente da República, o caçula que vive em Brasília, distribuía pela internet, com desenvoltura, imagens de suas aulas de tiro na Academia Nacional de Polícia, na capital da República, de uso privativo da Polícia Federal! Reconhecendo o erro, elas foram retiradas horas depois por um general de plantão que assessora o Planalto em assuntos de Comunicação.

Paralelamente, as investigações revelavam que os assassinos, admiradores do atual Presidente da República, miraram os terríveis episódios de Columbine. O massacre de lá serviu de inspiração aqui.

Oriundos das comunidades do ódio organizado na internet profunda, o tenebroso mundo dos chans, os atiradores eram apoiadores declarados do Presidente daqui. Foi encontrado em meio aos pertences pessoais de um deles, um exemplar de um dos livros escritos por Carlos Brilhante Ustra, o assassino e torturador emblemático da ditadura de 1964.

A mesma leitura do primeiro mandatário declarada por ele próprio.

E há as motivações políticas.

O australiano supremacista branco, filhote de Trump e de Bolsonaro, que fuzilou também nesta semana 49 muçulmanos que rezavam, e deixou outras 80 feridas nas duas mesquitas da cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, mencionou sem cerimônia que uma das suas motivações era "criar conflito" entre "partidários e detratores da política de posse de armas nos EUA com o fim de promover a divisão social, cultural, política e racial dentro do país".

Imediatamente, a primeira–ministra neozelandesa Jacinda Ardern reagiu à carnificina declarando que as leis de compra, registro e posse de armas no seu país iam mudar. E ofereceu uma informação relevante: três tentativas recentes fracassaram para alterar e dificultar o acesso às armas na Nova Zelândia. "Mas agora é hora para as mudanças", ela diz.

Mudanças provavelmente obstruídas pelos lobbies da poderosa e milionária indústria de armas capitaneada pela Associação Nacional de Rifles da América, a famigerada NRA.

Vale lembrar, em pequena digressão, que os Estados Unidos, ao contrário do Brasil, é um país construído à sombra da ação das armas, do consequente crime organizado e das guerras permanentes. Grandes fortunas foram construídas sob o império da bala quando a crise de 29 forçou a migração em massa para o oeste.

Lembrar também que o território americano cresceu com a anexação de parte significativa do território mexicano. Episódio histórico de apropriação com bala e violência.

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, quer mudar a lei que trata de armas  (Arquivo/TVNZ/via REUTERS/direitos reservados)


Lá, o debate sobre a liberação de armas nunca foi encerrado, embora alguns estados americanos já possuam legislação muito restritiva à compra de armas. O Estado de Nova Iorque é o modelo.

"Uma arma carregada em casa é uma facilidade, uma tentação, uma solução rápida para pessoas que estão no limite da dor. Aqui no Brasil não temos o livre acesso a pistolas e rifles como há nos Estados Unidos, mas a cultura do medo é infinitamente maior: sabe-se lá como seriam nossas vidas se pudéssemos comprar munição como quem compra balas de goma?". A pergunta está na resenha de Martha Medeiros, em Carta Maior de quase duas décadas atrás.

Dezesseis anos depois de Tiros em Columbine, verifica-se que a cultura do medo, no Brasil, aumentou exponencialmente, em parte pelo fracasso das políticas de segurança pública, uma "questão de Estado e não do cidadão", como declarou pomposamente, logo após a tragédia em Suzano, uma liderança política das direitas criticando a infeliz sandice de um dos membros da família que está privatizando o poder presidencial: os professores devem ser armados!

Após o massacre na escola em Suzano, o senador do PSL pelo estado de São Paulo, Major Olímpio, ecoou: "Se tivesse um cidadão com arma regular dentro da escola, professor, servente, um policial aposentado, ele poderia ter minimizado o tamanho da tragédia".

Chegamos agora ao limiar de uma nova legislação para aumentar as facilidades para aquisição e porte de armas e da licença para implantar a produção de armas no país.

Estamos transitando na contramão de todos os países civilizados. Aqueles que se encontram preocupados com um mundo cada vez mais violento.

Quem é a favor?

"Quem é a favor do desarmamento da população vai se sentir justificado. Já quem acredita que o cidadão não deve confiar na polícia e tem o dever de ter uma arma em casa para defender sua família, vai pensar um pouco mais a respeito", escreveu Medeiros na época do lançamento do filme sobre Columbine.

No seu blog, o jornalista Jamil Chade informa que, segundo a Fundação Everytown Research, nos EUA a maioria dos atiradores obtém as armas com a família, parentes ou amigos em vez de comprá-las legal ou ilegalmente. É o que ocorre em 78% dos casos de atentados quando o executor tem menos de 18 anos.

Foi quase unanimidade, entre as dezenas de intelectuais e políticos que participaram da pesquisa da Everytown procurando encontrar resposta para situações de massacres em escolas como o da Escola Estadual Raul Brasil, a constatação cada vez mais óbvia: a insistência do uso do discurso do ódio como instrumento de poder pode, de forma indireta, levar certos integrantes de um grupo na sociedade a passar à ação – é o alerta que Chade transcreve.

Como se desdobrará então este debate, no Brasil, após Suzano?

Quando encerrávamos este texto, uma suíte informava a descoberta estranhamente súbita do grande arsenal de 117 fuzis desmontados (tática do contrabando de armas para despistar a entrada de peças no país) que o amigo-do-amigo-vizinho-do Presidente da República detinha em sua casa, no Rio de Janeiro, no bairro do Méier.

Supõe-se que as atividades de um brasileiro preso e cumprindo pena nos Estados Unidos, conhecido pela alcunha de Senhor das Armas e do amigo-do-amigo-do-vizinho-do-Presidente estejam relacionadas.

O riquíssimo Senhor das Armas, Alex Mota, era o responsável pelo contrabando, havia dois anos, de 60 fuzis apreendidos no Galeão, vindos da Flórida.

Os 117 fuzis incompletos encontrados pela polícia na casa de Alexandre Motta (Alexandre Cassiano/Agência O Globo)


O amigo-do-amigo será um distribuidor de armas para as milícias, para o crime organizado e para o tráfico? Faz a sua distribuição envolvendo fuzis M16 de uso exclusivo das Forças Armadas?

Aguardamos como vão evoluir os acontecimentos e as manifestações a respeito da descoberta do arsenal do Méier dos experimentados e cosmopolitas generais do Grupo do Haiti hoje no governo.

E por fim, retornando a Columbine e à tragédia da Escola Estadual Raul Brasil, vamos às coincidências.

O autoproclamado Presidente do Brasil Zé de Abreu, por decreto, criou o Dia das Coincidências que, neste caso do massacre, se revelam de forma dramática. São elas:

Os meninos assassinos se diziam seguidores de Bolsonaro. Bolsonaro, em sua campanha eleitoral bradava: "bandido bom é bandido morto" e prometia liberar as armas "para que os cidadãos possam se defender". Ele e seus filhotes são vinculados a marginais pertencentes às milícias cariocas, mantendo com alguns deles estreita relação de amizade, companheirismo e admiração, chegando ao ponto de homenageá-los e outorgar honrarias na Alesp, pasmem, em nome do povo do Rio de Janeiro. Um dos suspeitos do assassinato de Marielle e de Anderson Gomes é vizinho do atual ocupante do Planalto e esse amigo tem um amigo traficante de armas. O primeiro mandatário é garoto-propaganda da Taurus. Etc. etc.

Jair Bolsonaro, ainda candidato à presidência, visita stand  da fabricante de armas Taurus (Reprodução/Youtube)


É muita coincidência.

Concluindo: o modelo americano de armamento da sociedade perseguido pela família Bolsonaro computou 405 episódios de tiroteio em escolas no espaço de tempo de seis anos. (Pesquisa da Everytown Research.)

Aqui, a tragédia de Suzano pode ser o ponto de partida para um ambiente de guerra mais tenso ainda do que já se apresenta hoje. Ou então de paz.

Deixar o país em paz, voltarem para casa recolhendo seus fetiches letais é o que podemos e devemos exigir dos pistoleiros de ocasião.

Leia mais: Resenha de filme Tiros em Columbine, por Martha Medeiros.

*Assista: Tiros em Columbine, dublado, no Youtube:





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