Política

No final da campanha, Serra adota discurso de extrema-direita

José Serra adotou o discurso da extrema-direita norte-americana em seu programa eleitoral. Ele defende a família, prega ''choque de valores morais'' e tenta associar Lula ao que seria o ''eixo do mal'' na América Latina, argumento usado por jornal do Reverendo Moon nos EUA

21/10/2002 00:00

(Ueslei Marcelino/Reuters)

Créditos da foto: (Ueslei Marcelino/Reuters)

 

Na reta final da campanha presidencial, o candidato José Serra (PSDB) adotou em seu programa eleitoral um discurso ultra-conservador para tentar conquistar os votos dos evangélicos, católicos, e da população do interior e das pequenas cidades brasileiras. Em seu programa de sábado (dia 19), Serra mostrou o depoimento de padres e pastores que falaram sobre a importância da família e dos valores morais para combater o problema das drogas e de falta de perspectiva para os adolescentes. "É preciso dar um verdadeiro choque de valores morais na nossa sociedade", disse o candidato governista. Serra defendeu também que o governo deve dar o apoio para que valores como família e casamento voltem a ser respeitados, "como acontece hoje nas cidades do interior". E acrescentou: "cada pessoa tem que ser apoiada pela sua família e cada família tem que ser apoiada pelo seu governo".

Além de defender a necessidade de uma “cruzada moral”, Serra vem tentando associar a candidatura do Lula ao “eixo do mal” na América Latina, argumento formulado pela extrema-direita norte-americana e expresso em recente artigo publicado no Washington Times, jornal pertencente à seita do Reverendo Moon. O “eixo do mal” no continente seria formado por Fidel, em Cuba, Chavez, na Venezuela, as Farc, na Colômbia, e Lula, no Brasil. Nos últimos dias, o programa eleitoral de Serra vem batendo nesta tecla insistentemente. Acusou o governo do PT no Rio Grande do Sul de ter ligações com o grupo guerrilheiro colombiano e com o narcotráfico e afirmou que um eventual governo Lula jogaria o país no caos, assim como Hugo Chávez estaria fazendo na Venezuela.

Protesto do embaixador e críticas de FHC

Após vários dias de veiculação na TV, nesta sexta-feira, o ministro Gerardo Grossi, do Tribunal Superior Eleitoral, mandou suspender a propaganda de Serra que associava o PT às Farc. Em sua decisão, tomada em caráter liminar, Grossi atendeu a um pedido da Frente Popular (PT-PC do B- PCB-PMN) do RS, dos candidatos a presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a governador do RS, Tarso Genro, e lhes concedeu direito de resposta contra o PSDB.

As referências de Serra a Venezuela provocaram um protesto formal do embaixador venezuelano no Brasil, Vladimir Villegas. Segundo Villegas, as declarações do candidato tucano representam “um atentado contra a democracia” do seu país. O embaixador acusou Serra de estar patrocinando uma campanha sistemática contra o seu país. As posições do candidato do PSDB foram criticadas pelo próprio presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que afirmou que as comparações feitas por Serra envolvendo Brasil, Argentina e Venezuela são “superficiais”. O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse, por sua vez, que as declarações de Serra podem atrapalhar as relações comerciais entre os três países. Imune às reprimendas, Serra reclamou neste sábado (dia 19) do “patrulhamento” feito pelo embaixador venezuelano.

Pratini de Moraes: “É preciso erradicar o PT do Rio Grande”

Durante roteiro na região Sul do país, nesta sexta-feira, Serra voltou a carga, com auxílio de sua vice, Rita Camata. Em Maringá, Serra disse que uma administração petista no Brasil seria como a de conturbada gestão de Hugo Chávez na Venezuela. A deputada Rita Camata (PMDB), por sua vez, acusou Lula de "não trabalhar" e "não administrar nem sua casa". Falando a uma platéia de empresários, Serra afirmou: "quando sou perguntado sobre como seria uma administração petista, digo que seria como a Venezuela, um governo do PT seria como o de Chávez".

Em Porto Alegre, Serra teve o apoio de aliados ainda mais decididos a combater o “eixo do mal”. Ao lado do candidato a governador Germano Rigotto (PMDB), Serra ouviu atentamente o ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, defender a necessidade de “erradicar o PT do Rio Grande”. Assessores de Serra disseram a jornalistas que o pronunciamento do candidato, anunciado para a noite de deste domingo, faria um “alerta à Nação” sobre as relações do PT com as Farc, Chavez e outros elementos associados ao referido eixo.

Contaminados pela guinada direitista do candidato, alguns de seus aliados enriqueceram ainda mais a lista dos perigos e ameaças de um eventual governo Lula. Neste sábado, dois deputados federais eleitos pelo PSDB em São Paulo acusaram o PT de querer libertar seqüestradores e de não acreditar em Deus nem na família. Carlos Sampaio disse que o PT é um partido que “quer libertar seqüestradores e que hoje pede a Rota nas ruas”. Salvador Zimbaldi foi mais longe e disse que José Genoino, candidato do PT ao governo de São Paulo, não acredita em Deus, na família e ainda lutou para incluir o aborto na Constituição.

“Endireitou de vez”

O site Primeira Leitura (www.primeiraleitura.com.br), dirigido por Luiz Carlos Mendonça de Barros, em uma nota intitulada “Endireitou de vez”, lamentou a nova postura adotada pelo candidato tucano. Segundo a nota, “mal sucedido na estratégia de arrastar Lula para mais debates, além do que está marcado para a próxima sexta, na TV Globo, que nem debate é, a campanha tucana endireitou de vez”. Para o Primeira Leitura, o depoimento de Regina Duarte no programa de Serra foi “apenas o sintoma mais evidente do que ainda estava por vir”.

A segunda intervenção artística no programa de Serra, patrocinada por Beatriz Segall, foi recebida com sarcasmo pelo Primeira Leitura. “A intenção política pode ter algum valor, mas o redator do texto lido pela atriz tomou sozinho a garrafa de Romanée-Conti que o marqueteiro Duda Mendonça dera a Lula”. O texto do site lamenta que “no lugar da economia política entrou na sala dos eleitores o bode da moral familiar, tudo travestido de campanha republicana importada dos EUA”. E conclui: “a família e os valores cristãos, reforçados por um calendário programado de adesões diárias de igrejas evangélicas, levou a campanha de Serra para o reino do discurso da direita política. Lamentavelmente!”.

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