Política

Noam Chomsky: 'A sobrevivência da vida humana está em risco devido às alterações climáticas e armas nucleares'

Nesta entrevista dada à Democracy Now, Noam Chomsky reflete sobre as políticas de Trump

08/08/2018 08:15

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Créditos da foto: Reprodução

Pelo menos oito pessoas morreram na Califórnia devido a incêndios florestais causados por mudanças climáticas, o que provocou incidentes em todo o estado norte-americano. No total, os bombeiros combateram 17 grandes fogos que invadiram a Califórnia, destruindo mais de 80.000 hectares de florestas, forçando evacuações massivas, incluindo em Yosemite National Park. Os fogos surgem por meio de alterações climáticas extremas, em todo o mundo, incluindo na Índia, onde mais de 500 pessoas morreram resultado de inundações e chuvas fortes nas últimas semanas. Os cientistas relacionaram o aumento das inundações e das chuvas às mudanças climáticas. Mas nós falámos com o mundialmente renomeado dissidente político, autor e linguista Noam Chomsky. Ele é um Professor Laureado no Department of Linguistics at the University of Arizona e Professor Emérito no Massachusetts Institute of Technology, onde ensina há mais de 50 anos.

Amy Goodman: Isto é democracia agora!

O relatório da guerra e paz. Eu sou Amy Goodman, mas vamos retomar à nossa conversa com o mundialmente renomeado dissidente político, professor, linguista, Noam Chomsky.

Noam Chomsky: Nós não podemos deixar de sobrevalorizar o facto de estarmos num momento único da história da humanidade. De facto, desde 1945, a história humana mudou dramaticamente. Em agosto de 1945, os humanos demonstraram que a inteligência superior deles criara um meio de destruir a vida na Terra. Não derrubou nada, mas tornou-se óbvio que iria estender-se e expandir-se, como na realidade sucedeu.

Alguns anos mais tarde, 1947, o Bulletin of the Atomic Scientists estabeleceu o seu famoso Doomsday Clock. O desastre final estava próximo da meia-noite! Foi definido para 7 minutos para a meia-noite. A 2 minutos para essa hora, em 1953, os EUA e a União Soviética testaram armas termo-nucleares, que tinham capacidade de destruir muitas vidas. Tudo oscilou de várias formas. Agora a ameaça ainda é de cerca de dois minutos para a meia-noite - com um acréscimo.

Não foi conhecido em 1945, que nós não estávamos só a entrar numa época nuclear, mas também numa época geológica, que os geólogos chamam de Antropoceno, uma época na qual a atividade humana está a passar um severo e terrível efeito no meio ambiente no qual os humanos e outros seres vivos poderiam sobreviver, mas noutras condições. Nós também estamos a entrar na agora chamada 6.ª extinção, uma rápida extinção de espécies, que é comparável à 5.ª extinção, 65 milhões de anos atrás, quando um asteroide, um grande asteroide, colidiu na terra, como sabemos.

A World Geological Society, finalmente decidiu, no fim da II Grande Guerra Mundial, no início da época de Antropoceno que existia uma severa escalada de destruição do meio ambiente, relativa ao aquecimento global, dióxido-carbono, outros gases de efeito de estufa, e até como outros elementos tais como relativos a plásticos no oceano, que se prevê que seja maior que a quantidade de peixes nos oceanos num futuro próximo.

Portanto, nós estamos a destruir o ambiente sabendo o que fazemos, para nosso mal. Estamos procurando um desastre terrível com confrontos nucleares usuais. Todos os que olharem para os registos, o quais são chocantes, concluem que é um milagre que tenhamos sobrevivido até aqui. Seres humanos, agora mesmo, esta geração, pela primeira vez na história, deve perguntar: “Será que sobreviveremos?” E num futuro não distante, como ficarão as sociedades organizadas? Essas são as questões com as quais nos devemos preocupar. Tudo o resto não tem importância comparado com isso.

E retomando à questão da NATO, o que estão eles a fazer? Expandiu-se para a fronteira russa. A política de Trump, de uma forma geoestratégica, é totalmente incoerente. Prefiro dizer, por um lado, que está a satisfazer a política de Vladimir Putin. Por outro, está a facilitar as ameaças contra a Rússia e, portanto, contra nós também. Fornece armas à Ucrânia, grave ameaça para a Rússia, aumentando as forças militares na fronteira russa. Os russos estão a ameaçar o outro lado da fronteira com manobras militares. O novo programa nuclear que ele instituiu é uma severa ameaça para a Rússia, e até mesmo para o mundo, como é evidente.

Acerca de Obama, os programas de modernização haviam atingido o nível em que representavam uma ameaça de ataque inicial à Rússia. Um importante trabalho sobre isso apareceu no jornal científico Bulletin of the Atomic Scientists. Trump está a aumentar, ainda mais, a modernização de forças terrivelmente perigosas, e também a reduzir significativamente a aproximação de uma guerra nuclear. Novas armas, que são armas nucleares supostamente táticas, que, como qualquer estrategista nuclear pode afirmar, são incentivos para uma escalada de um possível desastre final. Estas são enormes ameaças contra a Rússia, para nós também, e deve dialogar-se mais com Putin. Mas, geoestrategicamente, isso não faz sentido. Tudo faz todo o sentido numa abordagem mediática diferente.

AMY GOODMAN: Trump quis confrontar os aliados da NATO da Grã-Bretanha para a Alemanha e, antes disso, Macron na França, assim como Justin Trudeau no Canadá. Mas ele, enquanto questiona a NATO, também - porque simplesmente querem que gastem mais dinheiro - nomeia os fabricantes de armas nos Estados Unidos, que também querem usufruir de proveitos, dizendo que deveriam gastar 4% dos seus orçamentos em armas. Poderia comentar este facto?

NOAM CHOMSKY: Por outras palavras, se se está à procura de uma estratégia séria para isso, está a procurar-se no lugar errado. Não é isso que está mal. Nada disso faz sentido do ponto de vista estratégico. Nenhum. É tudo contraditório, incoerente e assim por diante. Devemos procurar noutro lugar. E tudo faz todo o sentido, supondo que ele é movido por uma preocupação esmagadora: ele mesmo - Trump. Tudo faz sentido para um megalomaníaco que quer certificar-se de que tem poder, de que tem riqueza. Tem de apelar a um número de círculos eleitorais para certificar-se de que é apoiado.

O eleitorado é um forte apoio - expandir a NATO, construir o sistema militar, modernizar as armas nucleares e assim por diante. Ok, ele é quem manda. O eleitorado é crucial e atualmente, o setor corporativo e os todo-poderosos. Ele está a fazer-lhes a vontade. Enquanto está a sorrir para os média, estes ajudam-no, concentrando-se nele, e os seus subordinados no Congresso estão a levar a cabo um autêntico roubo. É inacreditável. Se formos meticulosos, encontraremos muitos mais exemplos, apenas referi alguns.

Ele tem de manter uma base de votação; caso contrário, sai do poder. Ele ameaça: “Eu vou confrontar a NATO, fazê-los pagar mais, e pararão de nos roubar dinheiro.” Ótimo. “Vou enfrentar a China. Parem de roubar a nossa propriedade intelectual.” Ótimo. “Vou colocar tarifas em todo o mundo, e assim estou a defender os trabalhadores. “Ponto por ponto, tudo se encaixa. E eu acho que é basicamente o que está a acontecer. Uma busca por alguma geoestratégia coerente por trás disso é quase impossível. É possível, claro, o esforço para construir uma aliança com os estados mais reacionários do Médio Oriente como o Irão - Arábia Saudita, Israel, Emirados Árabes Unidos, Egito sob ditadura - é uma estratégia louca, mas coerente.

Eu devo dizer que um corolário da doutrina do “eu primeiro”, que tem sido observado repetidas vezes, é que, se Obama fez algo, eu tenho de fazer o oposto, não importa o que seja. Não importa quais são as consequências. Caso contrário, não é, como sabemos, um presidente transformador, um presidente significativo.

Originalmente publicado em democracynow.org

Artigo traduzido por João Paulo Pereira para Esquerda.net
 



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