Política

O Brasil em temporada de incertezas

As eleições de outubro são, sem dúvida, as de mais difícil previsão desde 1989, quando os brasileiros voltaram às urnas para eleger um presidente depois de 28 anos

14/02/2018 10:27

 

 

Por Eric Nepomuceno

As eleições de outubro são, sem dúvida, as de mais difícil previsão desde 1989, quando os brasileiros voltaram às urnas para eleger um presidente depois de 28 anos.

Alguns mecanismos, é verdade, se repetem.

Por exemplo: naquela vez, o poderoso grupo de comunicação chamado Organizações Globo, com o canal de televisão que leva o nome do conglomerado e atua, em termos concretos, como um grande monopólio, liderou a tarefa de impedir que Leonel Brizola fosse ao segundo turno.

Por uma diferença de pouco mais de 450 mil votos, quem conseguiu a vaga no desempate, contra o candidato dos meios de comunicação, do mercado financeiro e do grande empresariado – um neófito chamado Fernando Collor de Melo – foi o então radical líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva.

Dando uma claríssima mostra de sua ausência total de escrúpulos, a Globo manipulou os noticiários de maior audiência do país ao editar as imagens do último debate entre os adversários daquele segundo turno, destacando os melhores momentos de Collor de Melo e os piores de Lula da Silva.

Resultado: Collor venceu, mas foi defenestrado pelo Congresso após pouco mais de dois anos e meio de mandato, afogado em toneladas de acusações bem comprovadas de corrupção endémica.

Agora, a Globo e todos os demais meios massivos de comunicação, junto com o mesmo mercado e grande empresariado, estão unidos também com um forte Poder Judiciário, incluindo o STF (Supremo Tribunal Federal), com a mesma tarefa: defenestrar a figura de Lula da Silva.

É verdade que a campanha sofrida naquele então, por mais consistente – e, portanto, perigosa – que fosse para Brizola, se parece a uma carícia maternal se comparada ao que se armou este ano contra Lula.

Isso se deve por razões consistentes. Para começar, pelo que ele fez em seus dois mandatos presidenciais.

Mas o importante é que, a esta altura do jogo, as possibilidades de que Lula da Silva possa se apresentar como candidato em outubro são quase nulas, embora ele lidere as pesquisas com ampla margem.

Uma situação que também é compreensível: ao final, o golpe institucional que destituiu a presidenta Dilma Rousseff em 2016 – nunca está demais repetir – tinha como objetivo final liquidar Lula.

Um processo cheio de irregularidades, a começar pela ausência confessa de provas (o ex-presidente foi condenado com base nas convicções dos promotores e nas palavras de um delato), com uma sentença que foi ratificada pelo tribunal de segunda instância, o que tornou sua candidatura menos possível: a legislação eleitoral brasileira impede que alguém com uma condenação confirmada seja candidato.

Há, desde logo, brechas nessa lei.

Pero sobram indícios de que, em seu caso particular, nenhum espaço será aberto. Antes mesmo de receber – e analisar– um pedido de registro da candidatura de Lula, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o folclórico Luiz Fux, já antecipou, em neologismo infame, que o nome do ex-mandatário é “irregistrável”.

Ademais, existe outro risco rondando a figura do mais popular presidente da história brasileira: o tribunal que o sentenciou determinou também que Lula comece a cumprir a pena assim que sejam esgotados os recursos na corte.

Não são poucas as possibilidades de que ele seja levado à prisão até meados de março. São altíssimas as possibilidades de que instâncias superiores lhe concedam um habeas corpus posterior. Mas o desastre já estaria consumado.

O problema é que, sem Lula, o que sairá das urnas?

A perspectiva de uma abstenção de proporções olímpicas assusta os analistas e traça um cenário inquietante para quem quiser ser o vencedor.

Para tornar ainda mais enigmático o panorama, nem o grupo instalado no poder, nem o sacrossanto mercado financeiro, nem o conglomerado oligopólico de comunicação, e menos ainda o grande empresariado, têm um candidato viável para manter as coisas tal como estão.

Faltando seis meses para o fim do registro oficial de candidatos, e oito para que os eleitores compareçam às urnas, o que se vê no horizonte é uma interrogação da dimensão de um porta-aviões na piscina de algum clube de subúrbio.

Todos os nomes lançados até agora como balões de ensaio não conseguiram ganhar altura. O PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e idealizador do golpe institucional, se encontra num beco sem saída: seu presidenciável natural – o atual governador de São Paulo, Geraldo Alckmin – tem o carisma de uma folha de alface.

Tanto é assim que o próprio Cardoso já deu todas as pistas de que pretende abandonar ao candidato oficial do partido e estimula a proposta do apresentador de televisão Luciano Huck, funcionário da TV Globo. Bastante popular, principalmente nas classes menos favorecidas – graças a um show popularesco, que distribui benefícios aos pobres – Huck tem a coerência política e ideológica de uma galinha e a consistência de uma gelatina.

A cumplicidade da Justiça consolidou o golpe. Mas agora ninguém, nem os golpistas, sabe o que fazer para impedir um eclipse de consequências absolutamente imprevisíveis.

A verdade é que outubro, mais que um enigma, se parece cada dia mais a uma ameaça. Terrível ameaça.



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