Política

O Brasil me sangra

Metodicamente, as marionetes americanas e os piores corruptos do Brasil armaram suas arapucas para derrubar o poder exercido e adquirido democraticamente por Lula e depois por Dilma Rousseff

11/10/2018 17:34

 

 
É preciso que eu escreva essas linhas. Elas me queimam sob a pele. O Brasil me sangra e preciso compartilhar minha enorme raiva. Ah, eu sei: o Brasil é longe! Quase tanto quanto a Venezuela ou o Equador. Mas lá nasceu a primeira onda de revolução democrática após a queda do Muro de Berlim. Lula e o Partido dos Trabalhadores reavivaram a grande chama. Em seguida, como por efeito dominó, vieram dez governos do mesmo tipo, mas bem distintos, no continente. Essa onda, com seus altos e baixos, tem sido fonte permanente de inspiração para nós. Para mim. Para todos aqueles que sabem que a história não poderia ter atingido seu limite enquanto este regime louco for hegemônico.

Para os EUA, a queda de braço estava ali e a nova década era o segundo round. Sobretudo porque o Brasil é um dos países dos BRICS, que ameaçam a supremacia do dólar norte-americano no mundo. O Brasil representa, portanto, uma questão multifacetada para o Império americano. Metodicamente, as marionetes americanas e os piores corruptos do Brasil armaram suas arapucas para derrubar o poder exercido e adquirido democraticamente por Lula e depois por Dilma Rousseff. Primeiramente, foi necessário dar um golpe de estado jurídico para levar a direita brasileira de volta ao poder com a derrubada de Dilma Rousseff. Apesar de uma campanha de difamação global, Lula e seu partido recuperaram sua posição na opinião pública. Tudo parecia caminhar para sua morte política. Mas Lula liderava a corrida presidencial em todas as pesquisas. Sua vitória era certa.

O Império, seus fantoches locais e sua imprensa mundial dispararam contra Lula acusações, fofocas e insinuações. Juízes vendidos o condenaram e prenderam, depois de uma perseguição metódica de meses. Também o enganaram, fazendo-o acreditar que, se aceitasse a prisão seria logo libertado. Em todos os países do mundo, a imprensa sob a influência dos EUA e os jornais do circuito da embaixada fizeram matérias nauseantes, repletas de insinuações, sem qualquer distanciamento crítico sobre a prisão. Sem o menor distanciamento sobre aqueles "juízes" brasileiros que davam conferências bem pagas nos EUA para comentar suas façanhas judiciais contra Lula e Dilma Rousseff. Sem chamar atenção para o fato de que aqueles que haviam conseguido destituir Dilma Rousseff e depois prender Lula eram eles mesmos acusados de corrupção. Deixo que meus leitores mais vigilantes usem seu mecanismo de busca favorito para encontrar esses clichês nos jornais franceses. Eles mesmos poderão encontrar os culpados. E conhecerão os principais pólos de difusão de mentiras em nosso país.

Aqui está a armadilha. Naturalmente, quem conhecia os dados do problema sabia que se tratava de uma preparação da opinião pública. E fazia parte da grande campanha que em curso em várias partes do mundo: "progressistas" (modernos, liberais, abertos) contra "populistas" (a lista de insultos é bem conhecida). No Brasil, os maliciosos que conspiraram contra Lula e o viram sofrer um ataque de calúnias esperavam um efeito bem conhecido na França com o lepenismo midiático. Um segundo turno bem podre para empurrar goela abaixo o fantoche da direita tradicional. Essas pessoas são criminosas sem vergonha. Para sentir nojo deste jogo sujo bastava ouvir a "correspondente" de política do canal de TV France 2 pontificando no telejornal noturno a propaganda dos bem-pensantes para entender o grau de irresponsabilidade que a mídia pode atingir. Para ela, o "cansaço do povo após 14 anos da esquerda no poder" era a chave para explicar o sucesso da extrema direita. Isso apesar de a direita estar no poder há mais de dois anos no Brasil. Pensei imediatamente no longo e belo programa da rádio "France culture" que explicava como a imprensa estrangeira na Alemanha, com a consciência mais tranquila, apoiava o regime nazista.

Claro que a comparação não é perfeita. Claro que os nossos no Brasil têm sua parcela de responsabilidade nesse desastre. Podemos nos perder em conjecturas para tentar entender como o Partido dos Trabalhadores de Lula pôde apresentar em seu lugar um liberal diante da enorme onda do “fora todos”! Mas essa responsabilidade é secundária. Eles não souberam desarmar a armadilha. A partir daí, o quadro muda de figura. Todos devem se lembrar dos falsos ingênuos que opunham o "bom" Lula ao "vilão" Chávez, e assim por diante. O Brasil nos dá mais uma lição. Arranjos, acordos e compromisso com o sistema e ingenuidade em relação aos Estados Unidos e ao partido da mídia são o caminho mais curto para o cemitério. Saint-Just escreveu: "quem faz uma revolução pela metade cava a própria cova”. Tenho dito.

*Jean-Luc Mélenchon é deputado na Assembleia Legislativa Francesa e presidente do movimento La France Insoumise, a principal força de oposição ao governo Macron

**Publicado originalmente no blog do autor | Tradução de Clarisse Meireles


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