Política

O Evangelho segundo Bolsonaro

Em entrevista, o cientista político, teólogo e pastor batista Valdemar Figueredo fala sobre a história da ascensão ao poder do neopentecostalismo brasileiro, culminando na eleição do atual presidente, aponta a incompatibilidade entre a defesa da violência e a fé cristã e convoca à disputa dos evangélicos pelo campo progressista

03/04/2019 10:35

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Cinco meses após o segundo turno das eleições presidenciais que garantiram a vitória de Jair Bolsonaro, boa parte do país e muitos observadores estrangeiros permanecem em estado de espanto diante da escolha de 57,7 milhões de brasileiros.

Entre os muitos fatores que explicam a eleição de Bolsonaro, talvez um dos menos explorados ainda seja o papel do eleitor evangélico que, segundo o diretor do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, acabou decidindo as eleições – especialmente as mulheres evangélicas.

Como foi possível para boa parte desta fatia do povo brasileiro que professa a fé em Jesus Cristo, perseguido e torturado por suas posições políticas e religiosas segundo os Evangelhos, apoiar o ex-capitão entusiasta da ditadura militar (que, na semana passada, tornou-se o primeiro presidente eleito a determinar que o aniversário do golpe militar fosse comemorado oficialmente)?

Esta é uma das questões centrais da conversa de Carta Maior com Valdemar Figueredo,doutor em Ciência Política pelo Iuperj, teólogo e pastor Batista. Figueredo estuda desde anos 1990 os imbricamentos entre as Igrejas neopentecostais, os meios de comunicação de massa e o poder, temas de seus livros Entre o palanque e o púlpito: mídia, religião e política (Editora AnnaBlume, 2005) e Coronelismo eletrônico evangélico (Editora Publit, 2010). A adesão de parte das igrejas neopentecostais brasileiras com pautas conservadoras e até neofascistas é o tema de seu novo livro, ainda inédito.



Quando começou a pesquisar a presença dos grupos neopentecostais nos espaços de poder?

Foi na graduação de ciências sociais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, nos anos 1990, no laboratório de política e comunicação com a professora Ingrid Sarti. Eu já era teólogo, e ela me estimulou a desenvolver uma pesquisa sobre o programa de rádio de Anthony Garotinho. Este se tornou meu projeto de pesquisa do mestrado em Ciência Política.

A pesquisa partiu da campanha do ex-governador Anthony Garotinho (que governou o estado do Rio de Janeiro entre janeiro de 1999 e abril de 2002). Na campanha, o componente religioso já era muito forte, através de redes de rádios evangélicas, que lhe davam grande suporte. Garotinho não tem origem evangélica. Ele é um radialista com grande carisma e faz sucesso com programas populares, com apelo emocional, atendendo pedidos dos ouvintes por coisas como cadeiras de rodas e outras necessidades. Na tradição brasileira, muitos desses radialistas que tratam de problemas locais têm facilidade de acesso à política. (Após ser eleito prefeito de sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, Norte Fluminense, em 1988, pelo PDT) Leonel Brizola o projetou no estado. Foi secretário de agricultura e de interior de Brizola entre 1992 e 1993, e é eleito governador em 1998. Eles rompem, e Garotinho vai para o PSB em 2001.

Acredito que garotinho tenha inaugurado isso no executivo: um candidato que não era evangélico e começa a fazer um discurso evangélico com objetivos eleitorais e políticos.

Em 2002, Garotinho se candidata à presidência pela primeira vez. Havia esse suporte evangélico em nível nacional?

Sim, ele consegue ampliar sua influência através da instrumentalização das redes de rádio pentecostais, veículo com o qual tinha muita proximidade e familiaridade, sobretudo através do radialista Francisco Silva, proprietário da Rádio Melodia, voltada para o público evangélico, ainda hoje uma das líderes de audiência no RJ (Silva foi deputado federal por três mandatos e faleceu em 2017). O braço direito de Francisco Silva era Eduardo Cunha (o ex-presidente da Câmara tornou-se evangélico por influência de Silva, que também o indicou à presidência da Companhia estadual de Habitação (Cehab), em 1999, no governo Garotinho).

É com este grupo que Garotinho chega ao governo, sabendo usar politicamente as redes de rádios neopentecostais. Deste grupo faz parte também o pastor Everaldo [presidente do Partido Social Cristão (PSC), pelo qual foi candidato à Presidência da República em 2014. Jair Bolsonaro foi filiado ao PSC entre 2016 e 2018, e o atual governador do RJ, Wilson Witzel, foi eleito por esta legenda].

Como este grupo consegue projeção nacional a partir de rádios evangélicas locais?

Eles conseguem garantir a reprodução pelo país de conteúdos destas estações de rádio, que passam a funcionar como emissoras. Na mesma época em que a ambição de Garotinho era concorrer à presidência, algumas dessas rádios começam a funcionar em sistema de rede. Surgem rádios evangélicas integradas no país inteiro e alguns programas tinham ainda retransmissão em outras estações. É importante enfatizar que estes três, Francisco Silva, Garotinho e Eduardo Cunha, se tornam evangélicos ao mesmo tempo em que surge e se fortalece esta mídia voltada exclusivamente para este público, nichos que eles descobrem e ajudam a desenvolver.

Desde a Assembleia Constituinte, grupos evangélicos formais passam a lutar por concessões públicas de estações de rádio e canais de TV e criar grupos de comunicação. Assembleia de Deus, Rede Renascer e outros, cada uma busca concessões de rádio e TV através de representes no Congresso e desenvolve sua estratégia de comunicação. Silas Malafaia, por exemplo, vem da Assembleia de Deus e depois funda sua empresa de comunicação. Francisco Silva fez o oposto: vem da comunicação e vai para a igreja.

Já existia uma bancada evangélica na Assembleia Nacional Constituinte, em 1987?

Sim. Na época, já existia uma bancada evangélica com 33 deputados. As concessões de rádio e TV se tornam moeda de troca política.

A estratégia era a ocupação de vários partidos para garantir vagas em várias comissões no Congresso, para barrar agendas na Comissão de Seguridade Social e Família e, na Comissão de Comunicação, garantir as concessões públicas de meios de comunicação.

Garantindo, assim, um crescimento contínuo...

Sim. A representação política desse tipo de grupo evangélico, neopentecostal, sobretudo, garantia as concessões públicas aos grupos que já haviam montado estruturas de comunicação, empresas de comunicação que não são de fundo de quintal.

Essa força econômica, política e midiática, essa capacidade de espalhar essa mensagem, se mostra eficaz para expandir o número de fieis, e é um sistema que se retroalimenta.

Ser evangélico passa a ser um valor eleitoral cada vez mais forte. Iris Rezende, ex-governador de Goiás e ex-ministro, por exemplo, era um político que era evangélico. Não era o centro da vida política dele, mas se transformou.

Em termos de troca política, seja a Assembleia de Deus, a Igreja Quadrangular e a Universal do Reino de Deus funcionam de forma orgânica: formam uma bancada de cada Igreja.

Desde o princípio, estava claro para você este projeto de poder?

Eu pensava que, a qualquer momento, essa aliança religião e poder chegaria num teto. Depois de 33 deputados, foram 42 e 48 nas legislaturas seguintes. Pensei que pararia por aí. Nunca imaginei que um político, no Rio de Janeiro, buscasse fazer essa associação, reivindicar uma representação religiosa, porque isso, pensava, não formaria maioria. Para o legislativo sim, porque precisavam se fortalecer para garantir sua agenda, mas para o executivo, imaginava que trazer a questão evangélica seria um tiro no pé. Deixou de ser. (Hoje a bancada evangélica conta com cerca de 90 congressistas entre deputados e senadores, mas costuma reunir muito mais apoio para sua cruzada contra os direitos das mulheres, LGBTs e outras ditas “minorias”).

No último censo do IBGE, em 2010, 22% dos brasileiros se declaravam evangélicos, e dados do Latinobarômetro de 2017 indicam que este número já estava em 27%. Mas em muitas cidades do Brasil, a impressão é que este número já é bem maior. Como explica este fenômeno da transição religiosa no Brasil?

Sim, nas ruas, a sensação é que este número é maior. A transição no perfil religioso pode ser atribuída a uma série de fatores. Há a questão de que já tratamos, da visibilidade midiática, de presença em estações de rádio e TV. E o distanciamento da Igreja católica das bases – um afastamento que a própria Igreja reconhece. A estratégia das igrejas evangélicas é chegar ao centro depois de se implantar na periferia, resultando numa multiplicação de igrejas evangélicas nos setores populares das cidades. Esta ocupação tem sucesso também por uma estratégia de linguagem e, de novo, de comunicação. Quando vemos o cabo Daciolo, por exemplo, aquela figura se comunica e usa uma linguagem próxima de muita gente no Brasil profundo.

A Igreja católica perdeu a ligação com as camadas mais populares, a capacidade de se comunicar com o povo. As igrejas evangélicas históricas idem, mantêm liturgias europeias que não se traduzem em linguagem do dia a dia, como as pentecostais e neopentecostais, que se aproximam do sofrimento e do anseio cotidiano do povo. Aquele brasileiro que mora na periferia, trabalha como porteiro ou garçom e sonha em ser chefe dele mesmo. Ele vai na igreja, e na corrente de oração o pastor diz que ele vai conseguir. O crescimento dos grupos evangélicos se dá muito fortemente pela consagração de uma lógica capitalista. É o contrário da Igreja católica popular dos anos 1970, da Teologia da Libertação, que falava de desapego, com uma crítica feroz ao capitalismo. Era uma religião libertária, contestadora da lógica capitalista. Alguns podem achar que é ideologia política, mas para outros é a vivência do Evangelho, o próprio cristianismo.

Mas o que acontece com a grande parte da população brasileira que adere ao neopentecostalismo? Há vontade de prosperar. E aí a teologia da prosperidade encontra eco.

Não por acaso essa explosão evangélica coincide com o período petista, que fez uma inclusão também pelo consumo, o que gerou, aliás, muitas críticas á esquerda. Mas é curioso que essa expansão evangélica se dê durante os governos de um partido muito ligado justamente aos setores progressistas da Igreja católica, não?

Lula disse várias vezes que não era o presidente dos petistas, mas de todos os brasileiros. Isso é ótimo, pois ele é um estadista. É preciso dialogar com o capitalismo e a burguesia nacional. Infelizmente houve um afastamento dos movimentos sociais e de sua base, dos sindicatos. E a aproximação de alguns grupos evangélicos, que foram chancelados e legitimados. Como é que Dilma vai na inauguração do templo de Salomão, em São Paulo, ao lado de Edir Macedo?

Esses grupos deixaram de ser vidraça e passaram a ser pedra e estilingue neste período. Cresceram, melhoraram sua condição e prosperaram em governos ditos de esquerda.

Não podemos deixar de reconhecer méritos de comunicação. Nem a questão comunitária: em várias regiões do país, há igrejas evangélicas fazendo trabalho social, oferecendo creche comunitária, até organizando trabalhadores. As igrejas não são só reacionárias. Elas cumprem um papel social que o estado não está cumprindo. Não é mais um trabalho de longo prazo de conscientização e formação como na Teologia da Libertação, mas é inegável uma participação na vida cotidiana da comunidade, com variados graus de protagonismo.

Olhando em retrospecto, seria possível dizer que a hierarquia da Igreja Católica, com João Paulo II e Ratzinger, ao perseguir a Teologia da Libertação e abrir este espaço para as igrejas neopentecostais, acabou ajudando a eleger Bolsonaro?

Há uma série de fatores: políticos, econômicos, de comunicação e, também, religiosos. O discurso da teologia da prosperidade passa a ser especialmente atraente num momento de crise econômica. Há também a concentração populacional nos centros urbanos, onde pessoas buscam um sentido de comunidade. As igrejas estão lotadas de gente assim, em busca não só do transcendente, mas também do imanente, do lanche depois do culto, de um momento de conversa, de interação. Esse conjunto complexo explica que, a cada censo, se confirme o crescimento da religião evangélica no Brasil.

Você fala da eficácia da comunicação das igrejas neopentecostais. Como se dá essa profissionalização da comunicação evangélica, em que o púlpito se torna um misto de palco e estúdio de TV?

O protestantismo, desde Martinho Lutero, dá enorme valor ao texto. O sermão é central, mas também o texto impresso, possibilitado pelo advento da imprensa algumas décadas antes. O pastor tinha uma comunicação metódica, uma exposição no culto, e contava muito com a escrita, mas não só na igreja protestante – os bons teólogos, e padres e demais líderes religiosos, já tinham essa competência da escrita.

Vamos dar um pulo para o tempo do rádio. A competência básica é a fala, que exige um tom e um jeito específico de se comunicar. Muito do pentecostalismo nascente no início do século passado no Brasil recorreu ao rádio como meio de comunicação de massa e as igrejas cresceram também em função dessa estratégia. Em seguida, ocuparam as TVs. Seguem o modelo americano, cujo grande ícone é o pastor televangelista Billy Graham, próximo de vários presidentes americanos desde o pós-guerra, tendo sido conselheiro espiritual de alguns deles.

Hoje, o culto que se vê nas igrejas é cada vez mais próximo dos modelos de pregação que se vê nas TVs, no YouTube. Ainda que o pastor não tenha um programa de rádio, não tenha espaço em nenhum canal, a pregação é muito midiática, performática, dinâmica, com muita música, palavras e frases de impacto.

O conteúdo importa menos do que a forma, que deve ser “atraente”, segundo parâmetros midiáticos. Os fieis, nessa perspectiva, devem saiam do culto leves. É quase um show de variedades. O fenômeno faz pensar no que diz Marilena Chauí no livro Simulacro e poder. Estes espaços se tornam representações que podem ser enquadradas por um determinado close televisivo – ainda que não haja câmera.

Já o texto bíblico é lido nestas igrejas neopentecostais ora como alegoria ora como verdade absoluta, de acordo com o interesse de quem está pregando. Sobre a mulher, por exemplo, tudo o que está ali é literal. O contexto é totalmente apagado.

O texto bíblico se torna mero instrumento para validar as posições mais conservadoras?

Sim, é muito fácil, você pega trechos da Bíblia e trazer para os dias de hoje, com o peso de verdade absoluta. Há um analfabetismo bíblico enorme nesse campo evangélico neopentecostal. Estas igrejas não dão o suporte para que o fiel ganhe autonomia, como Lutero queria, para uma leitura direta do Evangelho, sem a necessidade de mediação.

Estive em cultos neopentecostais em que o Evangelho era totalmente esvaziado de sentido, tornando-se um instrumento de alienação. Como é a formação destes pastores?

Muitos não fazem seminário, mas já foi pior. Hoje, avalio que mais da metade dos pastores passe por algum seminário, mas não são seminários voltados à formação do pensamento crítico. É uma formação direcionada, de novo, mais para uma forma de ler a Bíblia do que para o seu conteúdo.

Tanto que muitos não entram em conflito em desmerecer e desrespeitar as variadas orientações sexuais, por exemplo. Se conhecessem o Evangelho, a figura de Jesus, eles ficariam constrangidos. E não ficam. É contraditório. Como alguém se refere de forma pejorativa ou desrespeita uma pessoa em nome de Deus? É totalmente incompatível.

Constatei também, nos cultos em que estive, que os neopentecostais leem mais o Velho Testamento do que o Novo. Por que isso?

Porque o Novo Testamento mostra que Jesus rompe justamente com uma leitura equivocada do texto bíblico. Ele vai à sinagoga lutar contra aquilo e dizer: “Vocês não entenderam nada”. Por outro lado, Jesus sempre andou com as figuras excêntricas e marginais do seu tempo. Era a gente dele. Os que estavam à margem da sociedade patriarcal, das classes dominantes. Qualquer leitura simples dos evangelhos já é incompatível com o preconceito e a exclusão.

E esta leitura conservadora vem “funcionando”: o fato de existir um Jean Wyllys lutando por direitos humanos e pelos direitos LGBT garante a eleição de uns quatro deputados com discurso de combate a ele – é claro que não estou dizendo que Jean Wyllys deveria mudar sua militância. Quando estes grupos ditos minorias se potencializam politicamente, trazem esta reação conservadora.

O Senador Arolde de Oliveira, por exemplo, costuma repetir que “a minoria deve se submeter à maioria, assim é a democracia – e o Brasil é conservador”, ele diz, e já vi outros parlamentares da bancada evangélica dizerem o mesmo (Arolde foi eleito senador pelo RJ em 2018, pelo PSD, é dono do grupo de comunicação MK Music, de concessões de rádio e membro da Igreja Batista).

Esse conservadorismo está nas classes populares e na classe média dos grandes centros urbanos do país, que é muito conservadora. A aceitação ao Bolsonaro veio também desse conservadorismo, que se evidenciou.

A eleição de Bolsonaro – e o seu governo – tirou muitas máscaras, não?

Bolsonaro escancara a violência da sociedade brasileira. Já no discurso de posse, quando prometeu acabar com o “politicamente correto”, naturaliza a grosseria e o discurso da violência. E encontra repercussão nessa sociedade conservadora, como o sociólogo Jessé de Souza vem apontando em seu trabalho sobre a elite e a classe média.

O fenômeno Bolsonaro tem a ver com religião, sim, mas também com os reacionários do ponto de vista econômico e moral – muitos dos quais nem são religiosos – que não querem seus filhos estudando com “essa gentalha”. Num período em que fui pastor, havia pais que levavam seus filhos à Igreja e não entravam. Não era uma questão espiritual, queriam um “ambiente saudável”, com uma formação moral – naquela perspectiva antiquada de que evangélicos não bebem, não fumam – com reforço dos valores da família, virgindade – sobretudo para as meninas. Isso é almejado por camadas da sociedade brasileira, seja no Rio ou em Goiás. E este reacionarismo não é um fenômeno só brasileiro, nem sua expressão virulenta, como podemos ver nas afirmações estapafúrdias, preconceituosas de Donald Trump. O retrocesso em relação às pautas progressistas e ambientais é um fenômeno em curso hoje, em várias partes do mundo.

A ministra Damares Alves, também pastora da Igreja batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, compartilha desta leitura bíblica que defende posições como a submissão feminina ao homem e a evangelização dos povos indígenas. Como avalia a atuação da ministra?

Damares vem desse mundo neopentecostal com longo histórico de atuação missionária, com campanhas vultosas, com muito dinheiro, para conquistar os povos indígenas.

Trata-se de questão antiga, que junta grupos internacionais e brasileiros de missionários, que chamam os indígenas de “povos não alcançados”, aqueles que ainda não ouviram o evangelho. Esta fixação vem de uma interpretação literal do livro do Apocalipse, onde uma profecia diz que, para a volta de Jesus, todos os povos devem conhecer Jesus e ser evangelizados – não necessariamente fariam a adesão, mas deverão conhecer o evangelho. Para abreviar a volta de Jesus, é preciso evangelizar o mundo. Qual é o povo ainda menos alcançado? De novo, é feita uma leitura literal, sem contextualização, sem crítica, sem crise. Há décadas há denúncias deste sistema de abuso e autoritarismo cultural, do qual parece que a ministra faz parte (a Funai está sob sua pasta).

Mas não temos que atacar, muito menos apontar o que há de folclórico, exótico na pessoa física Damares Alves, ou em suas pregações como pastora, sua subida na goiabeira. Isso não era para ser pauta. Precisamos criticar as políticas propostas, senão estaremos dando elementos para a legitimação dela junto ao seu público. Passa a soar como perseguição religiosa, que é o discurso que se faz do lado de lá a quem os critica.

Vamos monitorar as ações do Ministério para Direitos Humanos com ou sem Damares. Mas devemos criticá-la quando se diz “terrivelmente evangélica”. Terror e Evangelho são incompatíveis. 

Como vê o projeto de Lei Anticrime do Ministério da Justiça?

Não há nada ali de concreto e realmente transformador, é tudo perfumaria e concretamente liberar a polícia para matar sem precisar se preocupar com a justiça, dizem os especialistas em segurança. É preciso tempo e paciência de destrinchar as propostas e confrontar, sem ceder à catarse, sem reagir como um Carlos Bolsonaro, ainda que muitas vezes seja compreensível reagir de forma intempestiva a este tipo de proposta. Não vamos fazer como o lado de lá fez com Dilma.

Eles ainda fazem isso, aliás – e me pergunto se um dia deixarão a linguagem de campanha e começar a governar, porque sem a polêmica, Bolsonaro não é nada. Por isso, ele precisa reacender a história da facada o tempo todo, por exemplo, e suas acusações ao PSOL, que logo são replicadas por seus seguidores e robôs.

De que trata seu novo livro?

O livro nasceu desse cenário brasileiro desde o ano passado. Deve se chamar A fraquejada, e trata da posição dessa parte da Igreja evangélica que apoia Bolsonaro. Há um livro bíblico chamado Lamentações, de Jeremias. É um livro de cinco capítulos, dos quais quatro têm 22 versos e o 3º apenas tem 66. É um texto ritmado, em versos curtos, onde o profeta lamenta o caos político, social e espiritual de Israel. As lamentações tratam dessa derrocada, uma “fraquejada”. Este profeta se dirige ao povo com poesia, uma poesia de cunho social, mostrando as contradições da época. É muito forte, no texto, o papel da política externa, as relações internacionais de Israel, fala dos conchavos, da usura, do poder.

Este profeta se rebela contra tudo e todos – em outro livro, quando se refere a Jeremias, um rei diz: “lá vem o tal do agitador”. Ele escreve em linguagem poética, profética, um texto muito forte, muito contundente. Fala que “as nossas crianças estão exaustas, as mulheres estão da cor do sol”, denunciando o trabalho escravo. Queixa-se que as riquezas estão sendo mandadas para fora de Israel. Diz coisas como “os nossos jovens já não dançam, os nossos velhos já não se sentam nas praças”. É muito bonito. Mostra um cenário de caos social, de um povo sofrido, distante de Deus.

Inspirado em Jeremias, escrevi um livro sobre o Brasil de hoje com esta mesma estrutura, falando daqui. Não é uma exegese do texto bíblico, é um eco, são as minhas lamentações. É um pequeno livro de 50 páginas, um manifesto. Para ser lido rápido.

Termino cada capítulo com um teórico da atualidade, mas não estou escrevendo para a academia. Tem do Slavoj Zizek (filósofo esloveno) ao (economista americano de origem alemã) Albert Hirschman, cujo livro, brilhante, A retórica da intransigência, trata dos movimentos reacionários diante das revoluções, e de como o discurso contra o estado de bem estar social se instala na Inglaterra e nos EUA nos anos 1980 e 1990. É o discurso que está aqui e agora.

Quero fazer uma outra leitura, um contraponto à alegoria neopentecostal. Deixo claro, no início do texto, que o que escrevo não é categórico, não é mandado divino, não é leitura bíblica interpretativa, é simplesmente a minha voz. Sem nenhum peso divino – ainda que eu eventualmente me refira a um texto bíblico.

Interessante que isso precise ser explicitado, já que muitos pastores neopentecostais leem a Bíblia – ou a interpretam – atribuindo aquelas palavras diretamente a Deus.

É a chamada teoria do ditado: Deus teria ditado aquelas palavras exatas aos homens que escreveram os livros bíblicos. Quem faz a leitura literal da Bíblia acredita nisso. A Bíblia seria quase o resultado de uma psicografia. Assim disse o Senhor. Mas se Deus disse tudo aquilo, ele é um crápula. Para mim, o texto bíblico é divino justamente no sentido de que é humano.

Acredita que seja possível fazer essa disputa da narrativa da Bíblia?

Estou escrevendo para muita gente que frequenta igrejas evangélicas e que está desalentada e cansada – e até envergonhada – de tudo o que está acontecendo.

Um dos capítulos é sobre a violência e o discurso da violência. Termino com uma história real, sobre o medo. Um amigo estava num ônibus que foi assaltado no Rio de Janeiro. Ele conseguiu jogar seu dinheiro e celular rapidamente embaixo do banco. Ao lado dele, uma senhorinha. Tranquilaça. Ela olhou para ele e perguntou: você está com medo,viadinho? Foi tão inesperado que ele caiu na gargalhada. Ela junto. Os dois ficaram rindo muito, e tanto que os ladrões sequer os abordaram. Passaram direto. Termino com essa história como uma alegoria do Brasil – esses caras não suportam o riso.

Eles estão prontos para a violência – para receber e para dar porrada. Não sabem lidar com o humor, com a arte, com o afeto. O livro quer ser um convite a fazer arte, um enfrentamento a tudo aquilo que quer interromper a vida. Quero fazer este enfrentamento e a disputa nas bases. Não temos concessão de rádio, mas temos que disputar a base, parar de pregar para convertidos na academia e falar a língua do povo.

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