Política

O Mensageiro: Marcelo Crivella, o bispo homofóbico eleito prefeito do Rio

O Rio de Janeiro, a cidade mais amigável à comunidade gay elegeu um populista teocrático de direita como prefeito: Marcelo Crivella

23/12/2016 14:59

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Créditos da foto: Facebook

 “Porque… Eu não tenho nada contra, mas...” De pé nos portões de ouro da Igreja Universal do Reino de Deus em Santa Cruz, no Rio de Janeiro, Andressa Silvestre olhou para sua mão direita, girando seu dedão contra suas unhas roxas; o serviço de domingo – o 'culto sagrado', como é conhecido pelos devotos – acabara de terminar. Levantando seus olhos novamente, ela continuou: “Aceitamos gays aqui na igreja, mas eu leio online que o outro cara propôs estuprar crianças aos seis anos para saber se elas querem ser normais ou homossexuais”.


Uma semana antes, no domingo, 31 de outubro, o Rio de Janeiro, a cidade mais amigável à comunidade gay e o centro dos protestos progressistas contra o governo ilegítimo de Michel Temer, elegeu um populista teocrático de direita como prefeito: Marcelo Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB). Para Silvestre, votar no “outro cara”, Marcelo Freixo, o candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), era simplesmente “impossível” - uma convicção claramente influenciada por paranóia e propaganda da internet.


Crivella ganhou no segundo turno com quase 60% dos votos. Ele alcançou sua margem mais alta de vitória no extremo oeste da cidade, na zona eleitoral que inclui Santa Cruz. Uma hora e meia de trem da vida praiana da zona sul, Santa Cruz é uma barulheira só: motoristas de micro-ônibus gritando e chamando passageiros, cada um com seu jeito peculiar; vendedores de rua recitando o inventário dos doces que vendem; moto-táxis no meio das pessoas, que não se assustam; moradores de rua resmungando, e cachorros de rua fazendo o mesmo; e lojas tocando as músicas da moda.


O IDH de Santa Cruz é um dos mais baixos da cidade. E nas áreas mais pobres, a religião paira por todos os cantos. Mesmo com a redução da extrema pobreza no Rio na última década e meia, a negligência por parte de administrações municipais sucessivas e o subemprego crônico alienaram as pessoas moradoras da periferia. Elas se tornam cada vez mais evangélicas protestantes.


Ao redor das cidades metropolitanas do Brasil, as igrejas evangélicas se engajaram em um alcance enérgico nas comunidades pobres, competindo umas com as outras por devotos. O censo de 2010 mostrou que, em uma década, o número de seguidores aumentou 61.45% para 42.3 milhões de seguidores – 22.2% da população. Houve um crescimento particular no neopentecostalismo, um movimento pós-guerra dentro da Igreja Evangélica que, junto com com a busca por revelação divina, mistura um conservadorismo social e uma busca libertária por liberdade individual em uma “teologia da prosperidade”, a qual tem a riqueza como resultado da vontade de Deus. Com mais de 7 mil igrejas e quase dois milhões de membros ao redor do país, e mais de 2.5 mil igrejas fora do país, a Igreja Universal – IURD – é a maior e mais influente igreja neopentecostal. Foi fundada em 1977 por Edir Macedo, um dos homens mais ricos do país, e dono do Grupo Record, o segundo maior conglomerado de mídia do país. O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella, é bispo da IURD e sobrinho de Macedo.


Crivella começou a trabalhar com seu tio logo após a inauguração da Igreja. Ele se formou como engenheiro civil nos anos 80, mas se dedicou cada vez mais à igreja, se tornando um pastor, depois um bispo. Ele começou a gravar música gospel, lançando seu primeiro álbum, Aos que Sofrem, em 1992. Em 1994, ele viajou para a África do Sul e instalou uma igreja (a primeira IURD no país) em uma pequena loja, junto com vendedores de temperos e alfaiates. Em um vídeo promocional sobre seu trabalho missionário na África , ele se lembra como, desde sua localidade humilde, costumava olhar para a grande mesquita no hemisfério sul, se questionando porque a IURD não tinha um local maior de adoração, dado que 'Jesus é o filho de Deus, e não Mohammed'.


Apoiado pelos recursos extensivos da IURD, Crivella viajou para outros países ao sul e ao centro da África, tentando disseminar a mensagem sobre a possibilidade de transformação individual pelo amor de Deus. Ele abriu uma igreja em Zâmbia em 1995, mas três anos depois os pastores da IURD foram expulsos do país, acusados de promover “práticas não cristãs”. Mesmo o banimento tendo sido revogado depois de a IURD apelar à Suprema Corte do país, foi reposto em 2005. Em momentos diferentes, a IURD também foi banida de Madagascar e Angola.


Durante grande parte de uma década na África, Crivella desenvolveu seu estilo oratório de contação metódica de histórias, com comentários sociais e referências bíblicas e sua mensagem de transformação individual através do amor de Deus. Mas ele também desprezou outras religiões e a homossexualidade. Ele promoveu a ideia de que os demônios invadiram os corpos de pecadores afim de travar uma batalha espiritual contra os seguidores de Deus. Em 1999, ele publicou um livro, em inglês, chamado Mutis, Sangomas e Nyangas: Tradition or Witchcraft?, no qual ele se refere às pessoas supersticiosas da África. Ele também se refere às 'doutrinas demoníacas' da Igreja Católica, e da 'conduta maligna' e 'condição lamentável' dos homossexuais. Quando questionado sobre essa visões durante sua campanha recente, ele respondeu que eram frutos 'de um zelo imaturo da fé' de um 'missionário jovem'. A edição brasileira do livro, Evangelizando África, foi publicada em 2002; Crivella tinha 44 anos e se tornaria um Senador ainda naquele ano. Mais recentemente, em 2012, ele sugeriu durante um sermão que a homossexualidade pode resultar de abortos falhos.


Enquanto Crivella era eleito prefeito da segunda maior cidade do país, seu PRB, fundado em 2005, ganhou votos em 105 municipalidades (casa de 9.7 milhões), um aumento de 25 sobre a eleição de 2012. O PRB tem cada vez mais se tornado uma plataforma política para as atividades da IURD. 11 dos seus representantes federais e estatais são pastores ou bispos da IURD, e seis já trabalharam como diretores ou apresentadores da TV Record. Enquanto isso, deputados evangélicos estão ganhando influência no Congresso e, de acordo com algumas pesquisas, o Partido Social Cristão (PSC) de Jair Bolsonaro, ex-paraquedista do exército com tendências fascistas e laços com o lobby evangélico, está entre os concorrentes à presidência em 2018. Crivella já disse que os brasileiros eventualmente elegerão um evangélico como presidente, que “trabalhará para nós e nossas igrejas”.


As portas da IURD em Santa Cruz foram deixadas abertas depois do serviço de domingo. Dentro, congressistas eram agregados em três, quatro horas, falando casualmente. Alguns me miravam com um sorriso, olhos inquisidores, mas quando expliquei meu interesse em discutir a eleição, os olhares se tornaram suspeitos. Passei por um voluntário da secretaria da igreja, por um pastor jovem, que consultou o pastor chefe, e me disse, eventualmente, que , infelizmente, de acordo com as direções da liderança da IURD, não é permitido aos representantes da igreja discutir eleições, já que, e eu já sabia, eles não podem fazer propaganda política dentro de locais de culto. (A IURD foi acusada de levar a campanha de Crivella para dentro das igrejas; um vídeo circulou pelas redes sociais no qual um pastor da IURD alerta que votar em candidatos que não fossem o Crivella seria equivalente à traição de Judas). Ele disse que eu podia esperar do lado de fora e falar com os membros enquanto saíssem.



As portas de vidro esfumaçadas se fechavam atrás de mim enquanto eu saía e logo ficou claro que as pessoas estavam utilizando outra saída. Andei em direção a um casal de idosos, vestidos com sua melhor roupa de domingo. Barreto de Oliveira estava relutante em falar, mas sua esposa, Rosangela, estava mais disposta: “Se alguém tem fé em Deus, é conduzido por Deus, será capaz de superar a imoralidade da política”, ela disse, antes de discursar sobre homessexualidade e a “lei de Deus”.


O mapa dos eleitores do segundo turno é categórico: Crivella ganhou em todos os lugares da zona oeste expandida e na maior parte da zona norte, enquanto Freixo, o candidato da esquerda, ganhou somente na rica zona sul e ao redor do centro da cidade. Mas enquanto as Associações Religiosas desempenharam um papel importante, muitos eleitores, particularmente trabalhadores com renda baixa e aqueles vivendo na periferia da cidade, parecem ter sido guiados pela preocupação com a moralidade em relação à identidade, classe e política, não somente religião. Em uma cantina em Santa Cruz, Josi Ferreira, uma garçonete de 38 anos, me disse: “Não sou religiosa, mas senti que Freixo estava atacando nosso povo quando falou mal da igreja do Crivella”. Durante a campanha, Freixo atacou as ambições políticas da IURD, e criticou Crivella por ter empregado bispos como conselheiros depois de ter se tornado o ministro da Pesca do país, em 2012. A campanha de Crivella respondeu acusando Freixo de não ter pulso firme.


A conspiração, corrupção e o descompromisso da classe política brasileira forjaram um sentimento anti-político forte, particularmente entre aqueles mais atingidos pela recente recessão econômica. Isso tornou a moralidade uma questão chave nas eleições municipais. Kelly Cristina da Costa tem uma vendinha do lado de fora da estação de trem de Santa Cruz há oito anos. “Eu não votei”, ela afirmou, com um toque de satisfação “Tudo o que eu queria é uma licença para a minha vendinha. Os políticos só enchem seus bolsos e ajudam seus amigos ricos. Os pobres permanecem pobres. Não há porque votar”.


Freixo apelou para o sentimento anti-político com uma oferta de democracia direta, mobilizando estudantes, socialistas de classe-média, sindicalistas, anarquistas, e ativistas – os indignados do Rio, unidos em oposição ao governo Temer. Enquanto isso, Crivella apelou com pitadas de moralismo e a promessa de cuidado pastoral para os esquecidos pelos políticos. Ele também foi auxiliado por mentiras fantásticas sobre Freixo – como a sobre estupro infantil – que sobrevoaram pelas redes sociais. Ele criticou o governo municipal atual por sua obsessão por trabalhos públicos ostentosos. O estado estava quebrado, ele disse, as pessoas sofrendo e sua prioridade seria “cuidar das pessoas”.


Nisso, Crivella dirigiu o debate em direção à sua maior zona de conforto. Em 1993, um anos depois de lançar Aos que Sofrem, ele lançou seu segundo disco, Stop Suffering. Seu primeiro álbum de estúdio, Perfume Universal, lançado em 1997, incluía uma música chamada Cansado de Sofrer. E, no álbum África que ele lançou no ano seguinte, ele pergunta: “Porque sofrer? Porque chorar?” Agora, sem fazer proselitismo nas músicas, mas fazendo sermão para um eleitorado despolitizado, ele estava mais uma vez falando de sofrimento, e, com a promessa de cuidado, ele reassumiu o velho ponto de identificação que deu nome ao seu álbum de maior sucesso: o Mensageiro da Solidariedade. Isso não era somente o Senador Crivella remontando ao bispo Crivella. Era Crivella estabelecendo os termos da campanha de modo que não fosse necessário distinguir entre suas personas política e religiosa.



Crivella levou sua mensagem às zonas oeste e norte. “Freixo não olhou além dos túneis [que separam a zona sul do resto da cidade], mas Crivella realmente deu atenção à zona oeste”, marcou Josi, a garçonete de Santa Cruz. “Crivella disse que vai melhorar as escolas e os centros de saúde aqui”. Mas entregar essa promessa será um pedido grande para o prefeito, que também se comprometeu a cortas os gastos do governo municipal. Sua administração será condicionada pela desordem crescente e a austeridade profunda que estão visitando o país: ao longo do estado do Rio, centenas de milhares de trabalhadores do setor público, incluindo médicos e professores, estão sem pagamento há mais de um mês, e os estudantes estão ocupando as escolas e universidades.


Enquanto o trem para o centro do Rio viajava pelos trilhos até a estação Central, um homem de meia idade com uma feição empoeirada, estava parado, tremendo de nervoso. Ele se desculpou pela intromissão com uma voz cansada. Ele explicou que havia perdido seu emprego recentemente e sua casa, e implorou por qualquer comida. “Que Deus nos abençoe”, ele disse, enquanto sentava. E depois começou a chorar.



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