Política

O Ur-Fascismo dos primeiros dias de governo Bolsonaro

Umberto Ecco viveu o 'fascismo originário' de Mussolini, descreveu e teorizou o fascismo vivido, e, principalmente, mostrou por que o fascismo é 'eterno'

12/01/2019 16:15

(Ricardo Moraes/Pool/Reuters)

Créditos da foto: (Ricardo Moraes/Pool/Reuters)

 
Em tempos de fake news, em que a desinformação boateira elege chefes de Estado mundo afora e enfatiza inimigos a serem combatidos, seria um alento se pudéssemos dizer que bravatas de cunho fascista entoadas por líderes fossem mesmo apenas tiradas e não carregassem intenções genuínas, que fossem apenas fanfarronices para angariar votos e agradar auditórios. Mas, se este fosse o caso, o que diríamos dos “feitos” de nossos primeiros dias sob Bolsonaro? O que diríamos do período transcorrido sob Trump com suas políticas anti-imigração; dos milhares de refugiados e apátridas, como aqueles que Salvini mandou que se apinhassem em um navio a circular sem rumo, por quinze dias, no mar Jónico? E, sobretudo entre nós, dos índios e quilombolas que já começam a ser esmagados por madeireiros, dos “vermelhos marginais”, “petralhas” e assemelhados que já começam a ser demitidos de forma sumária em vista da tal “despetização”?

Não estivéssemos em tempos de “pós-verdade” e, talvez, alguns adjetivos clássicos diriam mais do que podem dizer hoje. É provável que não teríamos muitas dúvidas do que significaria chamar alguém de fascista se estivéssemos na Itália ou na Europa, ao final da Segunda Guerra Mundial. Mas hoje, no Brasil, se “fascista” é Bolsonaro na boca dos milhares que protestaram na marcha feminista do “Ele Não”, “fascista” é também - pasmemos! - a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) na boca do Ministro de Bolsonaro, o ultraliberal Paulo Guedes. E não faltam professores de Filosofia, advogados do pretenso rigor conceitual, a declarem não ser Bolsonaro um fascista, uma vez que o saudoso da ditadura militar obedeceu às regras eleitorais e, com isso, jogou o jogo democrático em voga. Afinal, como seria o Presidente um fascista - poderia indagar também parte da esquerda brasileira - se ele não é assim tão fascinante (embora seus séquitos jurem tratar-se de “mito”) e se não pretende partido único e muito menos Estado totalitário?

Significa, então, que adjetivos fortes foram simplesmente esvaziados, abusados, prostituídos? É certo que chamar alguém de “fascista” virou coisa banal no mundo de Trump, de Salvini, de Le Pen, do Brexit e de Bolsonaro. Mas quem negaria o flerte mundial de nossa época com o fascismo?

São nessas horas que certas perguntas básicas parecem se fazer indispensáveis. Por exemplo: o que é fascismo para quem, como Guedes, o demove tanto? Qual fascismo? Alguma ou algum intelectual engajada(o) responderia que, para a discussão, não seria suficiente darmos ouvidos a Hannah Arendt, a Theodor Adorno, a Norberto Bobbio, a George Orwell, a Giorgio Agamben, a Angela Davis etc. etc. etc. Colocaríamos todas elas e todos eles para disputarem argumentos e, mesmo assim, provavelmente veríamos debates amarrados a categorias mais ou menos estáticas e temporais de fascismo, com riscos sempre iminentes de mera formalidade. No Brasil de hoje em dia, debates sobre formas de fascismo que partam de disputas de narrativas e de adjetivos sobre o novo Presidente e seus apoiadores só teriam materialidade se considerassem o cartaz que o mandatário pendurou na porta de seu antigo gabinete, na Câmara dos Deputados, em que se via o desenho de um cachorro com ossos na boca e com a inscrição: “Desaparecidos do Araguaia, quem gosta de osso é cachorro”; se considerassem a homenagem altissonante por ele prestada ao coronel Ustra, torturador de Dilma Rousseff, em pleno Congresso Nacional, ao votar pelo impeachment da ex-presidente; se considerassem o seu tuíte sobre o “lixo marxista” a ser extirpado das Universidades públicas; os tiros que seus apoiadores dispararam contra ônibus de uma caravana que levava o ex-presidente Lula; os bonecos simbolizando dois de seus principais adversários, Dilma e Lula, enforcados e pendurados em um viaduto durante uma manifestação; os adesivos em que Dilma aparecia com as pernas abertas na tampa de combustível dos automóveis de seus apoiadores; a placa de Marielle que seus apadrinhados quebraram em palco de comício; os atentados contra sedes do Partido dos Trabalhadores, do Instituto Lula, do Partido Comunista do Brasil e da União Nacional dos Estudantes etc.

Se episódios como estes, quase todos transcorridos antes das eleições de outubro de 2018, revigorariam as teses dos(as) mencionados(as) pensadores(ras), se ensejariam novas noções de fascismo, ou se permitiram as duas coisas, chega a ser uma questão menor. O certo é que com eles, além de materialidade abundante, verificaríamos o sentido acrônico de Bertold Brecht quando diz que “a cadela do fascismo está sempre no cio”. O processo e todos os diversos fatores que permitiram o capitão de reserva subir a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2019 são tão complexos que para a sua compreensão - em termos de fascismo ou não, e para sabermos em que termos Brecht teria razão no caso do Brasil bolsonarista - exigiriam (e exigirão) observadores implacáveis por anos ou décadas.

Como nem de longe eu ousaria mirar horizonte tão amplo, satisfaço-me em resgatar uma das definições menos estáticas e mais dinâmicas de fascismo para, ao lado de algumas de suas características, indicar feitos dos primeiros dias de governo Bolsonaro como possíveis exemplos de sua atualidade tropical. A definição é de Umberto Ecco, voz a ser ouvida no caso de não querermos abrir mão de materialidades em assuntos de fascismo. O escritor e semiólogo italiano viveu o “fascismo originário” de Mussolini, descreveu e teorizou o fascismo vivido, e, principalmente, mostrou por que o fascismo é “eterno”. Coincidência com o “sempre” da formulação de Brecht? Trata-se da noção de Ur-Fascismo. Ecco a definiu em uma conferência proferida na Columbia University, em 1995, posteriormente publicada na Itália como capítulo do seu livro Cinco escritos morais. Uma nova edição da versão original da conferência acaba der publicada no Brasil pela Editora Record - edição que utilizarei para as citações abaixo.

Umberto Ecco (Getty Images)

A ideia central do “fascismo eterno” ou Ur-Fascismo é a de que, se regimes políticos podem ser derrotados, se ideologias podem ser criticadas e destituídas de sua legitimidade, “por trás de um regime e de sua ideologia há sempre um modo de pensar e de sentir, uma série de hábitos culturais, uma nebulosa de instintos obscuros e de pulsões insondáveis” (Ecco, 2018, p. 23). Jamais seria algo apenas de um momento histórico e circunscrito na Itália ou na Europa do século XX. É de fácil adaptação, pois pode continuar sendo reconhecido como tal, mesmo eliminando-se de um regime fascista um, dois ou mais aspectos. Ameaça constante de toda e qualquer sociedade, seu fantasma pode nos rondar em quaisquer épocas, um mal nunca superado em definitivo, que “ainda está ao nosso redor, às vezes em trajes civis”. E mais: Ecco nos garante que o fascismo (histórico) não possuía nenhuma quintessência e nem mesmo uma só essência. Se tivesse – caso de totalitarismos ulteriores –, quiçá pudesse ser extirpado de vez. Não. Longe de ostentar ideologia monolítica, consistia em amontoado ou colagem de ideias políticas ou filosóficas variadas, “um alveário de contradições”. O fascismo – arremata o escritor – “era um totalitarismo fuzzy” (idem, p. 32), esfumado, impreciso, confuso.



Mesmo com esta marca da confusão, o autor considera possível indicar uma lista de características típicas do Ur-Fascismo. Reparemos em algumas delas e procuremos materializá-las com “frutos da casa”:

- O culto à tradição e a acusação da cultura moderna de abandono de valores tradicionais: “Da declaração atribuída a Goebbels - ‘quando ouço falar em cultura, pego logo a pistola’ - ao uso frequente de expressões como ‘porcos intelectuais’, ‘cabeças ocas’, ‘as universidades são um ninho de comunistas’, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo” (idem, p. 49). Alguma atualidade tupiniquim? Em sua primeira semana como Presidente, Bolsonaro extinguiu o Ministério da Cultura, falou em combater “ideologias nocivas e inversão de valores”, estimulou a ideia, há muito conhecida como sua e dos seus, de vigilância a professores e de expurgar Paulo Freire das escolas e Universidades; e uma nota de jornal de grande circulação (será apenas boateira?) deu conta de que o Ministério da Educação intenciona começar a aplicar “critérios ideológicos” para concessão e renovação de bolsas de estudos na pós-graduação.

- A utilização e a exacerbação do natural medo da diferença: Contra os intrusos, o Ur-Fascismo é racista por definição. Em sua primeira semana, Bolsonaro extinguiu o Ministério da Integração Racial, as secretarias da Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação, e disse esperar que os governadores do Nordeste não peçam nada a ele. O mandatário de um país cuja população que se identifica como preta ou parda passa dos 50% já foi condenado por comentários racistas contra quilombolas e pretos, assim como já se referiu a imigrantes haitianos, senegaleses e outros como “escórias do mundo”. Ainda em campanha eleitoral, o seu vice havia criticado as parcerias econômicas Brasil-África, referindo-se aos africanos como “mulambada”, além de dizer que o brasileiro herda a indolência dos indígenas e a malandragem dos africanos.

- O “nacionalismo”: “na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obsessão da conspiração, possivelmente internacional. Os seguidores têm que se sentir sitiados. O modo mais fácil de fazer emergir uma conspiração é fazer apelo à xenofobia” (idem, p. 51), mesmo que a conspiração tenha de vir também do interior. Apesar de extremamente contraditório e nada convincente quanto a qualquer nacionalismo que se preze - a julgar pela anunciadas concessões e subserviências aos Estados Unidos -, em seus primeiros dias de governo, o Bolsonaro do “Brasil acima de tudo” voltou a eleger o socialismo e o comunismo como inimigos (imaginários, interno e externo) a serem combatidos; “desconvidou” Venezuela e Cuba para a posse; e confirmou saída do pacto de migrações da ONU.

- O machismo, o desdém pelas mulheres e a condenação intolerante de hábitos sexuais não conformistas, da castidade à homossexualidade: uma vez que a guerra permanente e o heroísmo “são jogos difíceis de jogar, o Ur-Fascista transfere sua vontade de poder para questões sexuais” (idem, p. 54). Em sua primeira semana, o conhecido Bolsonaro do “mulher tem que ganhar menos”, do “prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”, do “se um casal homossexual vier morar do meu lado, isso vai desvalorizar a minha casa”, enfim, o ávido combatente da “ideologia de gênero”, parece ter confirmado sua fama de desprezo e preconceito em relação às populações LGBTIs: excluiu estas populações da lista de políticas e diretrizes destinadas à promoção de direitos humanos.

O Ur-Fascismo, conclui Ecco, pode retornar sob as vestes mais inocentes e é suficiente que uma de suas características se apresente para que uma nebulosa fascista se forme. Nossa tarefa, diz ele, é desmascará-lo e apontar o dedo para cada uma de suas novas formas, a cada dia, em qualquer canto do mundo.

Fiquemos com alguns casos dos primeiros dias, atentos para os que virão nos próximos.

Vilmar Debona é professor Adjunto de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria e editor da Voluntas: Revista Internacional de Filosofia



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