Política

O capitalismo não está ''quebrado''. Está funcionando muito bem - e somos piores por isso

A exploração é uma característica do capitalismo, não um erro. Nosso sistema econômico está longe de ser salvo

21/06/2019 13:32

''Quando o sistema incentiva lucros trimestrais, em vez de equilíbrio a longo prazo e segurança para todos, isso põe em risco nossa própria sobrevivência'' (Ilustração de Lucy Jones/The Guardian)

Créditos da foto: ''Quando o sistema incentiva lucros trimestrais, em vez de equilíbrio a longo prazo e segurança para todos, isso põe em risco nossa própria sobrevivência'' (Ilustração de Lucy Jones/The Guardian)

 

O capitalismo não está quebrado. Está funcionando muito bem, concentrando dinheiro nas mãos de poucos e explorando o trabalho de muitos.

Mudança climática em andamento, guerra, migração em massa, pobreza generalizada e o crescimento do autoritarismo são os resultados inevitáveis de um sistema econômico que premia os agentes corporativos por seu compromisso absoluto de lucrar, independentemente das consequências maiores.

Richard Reeves, editor convidado desta série, sugere que podemos simplesmente "lutar para arrebentar as portas para que assim mulheres e negros", possam se beneficiar do capitalismo de mercado ao lado dos homens brancos. Mas isso passa do ponto. Um trabalho com "um salário decente ... alguma satisfação e segurança" está rapidamente se tornando uma coisa do passado, inclusive para nós de países mais ricos.

Não é só que “as corporações acumulam poder e extraem valor dos trabalhadores, sem permitir que esses trabalhadores compartilhem da enorme riqueza que ajudam a criar”, como argumenta Cory Booker; é que essas dinâmicas no nível individual, sentidas por cada um de nós, também estão em jogo globalmente, sentidas por países e regiões inteiras. A exploração não é um defeito do capitalismo, é uma característica. Aquele som gigante de sucção que todos podemos ouvir é o capital que se beneficia de décadas de guerra política, econômica e ideológica contra o resto de nós.

Precisamos investir em infraestrutura de saúde pública e educação no próprio país e no exterior para aumentar a resiliência da comunidade em um mundo fragmentado pelo clima e construir uma economia global baseada no controle democrático da produção. Quando o sistema incentiva lucros trimestrais, em vez de equilíbrio a longo prazo e segurança para todos, isso põe em risco nossa própria sobrevivência. Também precisamos democratizar a produção de energia e desmantelar a suja indústria de combustíveis fósseis que está nos levando a um abismo climático.

Alguns bilionários estão finalmente expressando preocupação com o status quo. Mas mesmo eles não conseguem escapar de um sistema onde a facilidade de externalizar custos e de explorar a mão de obra torna impossível ser tanto competidor quanto sustentável.

 “A exploração não é um defeito do capitalismo, é uma característica.”

Houve apenas um período em que os frutos do trabalho foram partilhados de forma relativamente igual: o compromisso capital-trabalho após a segunda guerra mundial. Fortes movimentos de trabalhadores lutaram por sólidos estados de bem-estar sob circunstâncias econômicas e políticas únicas. Mas esse acordo não conseguiu aguentar. Em resposta à iniciativa de François Mitterrand de expandir maciçamente os direitos trabalhistas e nacionalizar um quarto da indústria francesa, os interesses empresariais lançaram uma greve de capital que estimulou a recessão e se tornou um presságio do que estava por vir. A ameaça do poder real da classe trabalhadora era muito grande, e o sistema se autocorrigiu.

Hoje, temos por volta 12 anos para transformar nosso sistema econômico e reverter a crise climática. E mesmo assim, no mês passado, Donald Trump assinou duas ordens executivas para tornar mais fácil para as corporações de combustíveis fósseis construírem oleodutos e gasodutos e limitar a nossa capacidade de bloqueá-los. Esta tem sido uma traição bipartidária, no entanto: em 2015, o presidente Obama concedeu à Shell Oil uma permissão para perfurar o Ártico quatro dias depois de declarar que os EUA seriam um líder contra a crise climática.

Tempos excepcionais exigem medidas radicais. Isso começa com um sistema que seria construído para redistribuir a riqueza e o poder de muitos para poucos. Os trabalhadores e nossas famílias não apenas sobreviverão, mas prosperarão, a partir dos empregos criados pelo investimento público em massa na reestruturação de nossa rede energética e na transformação de nosso mundo. E nós sabemos que os únicos dispostos a fazer essa demanda são aqueles de nós que atualmente estão sendo pressionados por interesses privados por cada gota de lucro. Os jovens sabem disso, especialmente, no entanto isso depende de todos nós. Em vez de tentar consertar o capitalismo, deveríamos procurar substituí-lo.

Maria Svart é a diretora nacional do partido Socialistas Democráticos da América (DSA)

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Cristiane Manzato

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