Política

O caso dos navios iranianos

Uma grave crise nos espera num futuro, a cada hora, mais próximo

24/07/2019 13:59

O navio iraniano Bavand, carregado com 48 mil toneladas de milho, é visto ancorado no porto de Paranaguá (Heuler Andrey/AFP)

Créditos da foto: O navio iraniano Bavand, carregado com 48 mil toneladas de milho, é visto ancorado no porto de Paranaguá (Heuler Andrey/AFP)

 
Não fosse a gravidade de que o caso se reveste, não resistiria à tentação de cair no trocadilho e colocar como título deste texto HAVER NAVIOS NO PORTO, pois, se não for dada uma solução para o caso dos dois navios iranianos fundeados por falta de combustível no porto de Paranaguá, a ver navios em relação às exportações para o Irã ficaremos nós.

Os navios estão presos no porto paranaense desde junho. O alinhamento irracional, automático e subserviente do desgoverno Bolsonaro aos Estados Unidos fez com que, de forma não declarada, tenha aderido à política de boicote imposta pelos Estados Unidos aos iranianos. A Petrobras se recusa a abastecê-los por medo de sofrer sanções por parte dos norte-americanos.

Carregados de milho ali devem permanecer até o fim do recesso. do STF que deverá julgar recurso interposto pela Petrobras contra decisão do Tribunal de Justiça do Paraná. Esta decisão obrigou a petroleira a abastecer os navios, mas foi revogada pelo Ministro Dias Toffoli, em caráter liminar, jogando o julgamento para o colegiado que só retomará seus trabalhos em agosto. Para isto, contou com o apoio da Procuradora Geral Raquel Dodge a qual afirmou que os mesmos poderiam ser abastecidos com combustível vindo do Irã...

Segundo a empresa Eleva Química, responsável pelos navios, a espera pode provocar danos ambientais ao Porto de Paranaguá, já que a carga contém um alto índice de conservantes para resistir à viagem, sem contar que há 50 tripulantes a bordo. Estes homens se encontram confinados há mais de um mês sem poder desembarcar.

A empresa alerta ainda que a falta de combustível deixará os navios à deriva, “sujeitos à força de vento e mar, podendo causar danos à navegação, aos tripulantes, a outras embarcações (...)”.

Com uma área cultivável de cerca de somente 18% de seu território o Irã importou, de janeiro a junho deste ano, US$1.3 bilhões do Brasil contra importações nossas de apenas US$26 milhões. É o quinto maior importador de grãos do país e o terceiro de carne. Há várias negociações preliminares em andamento entre os dois governos envolvendo um incremento não só da venda de produtos agrícolas, como de serviços.

Diante da ameaça de provável retaliação por parte do Irã a Federação de Agricultura do Paraná emitiu nota na qual afirma que a medida traz sérias consequências para o setor agrícola. Salienta que o Irã é nosso maior importador de milho, bem como importante comprador de soja e carne bovina paranaenses. Alerta também que, caso a carga seja comprometida, poderá ser devolvida, o que causará grave e imediato prejuízo aos agricultores e exportadores.

A atitude é ainda mais descabida quando se lembra que a Eleva é uma empresa brasileira e o combustível seria fornecida a ela. Ou seja, uma venda de uma petroleira brasileira a uma empresa brasileira, não podendo a operação estar sujeita a nenhuma sanção estrangeira.

Sendo a carga constituída de alimentos estes também se acham salvaguardados, pelo Departamento de Tesouro americano, de qualquer tipo de sanção. Em documento oficial emitido pelo Departamento fica autorizada a venda de medicamentos e alimentos por não americanos para o Irã, desde que estas vendas não envolvam grupos terroristas. É a chamada exceção humanitária. Talvez aqui esteja o problema. O conceito de humanitário não parece fazer parte deste governo.

Mas o preço a pagar por esta subserviência, que faz com que o tenente/capitão/presidente beije a bandeira americana, pode ser muito caro. O embaixador iraniano já pediu explicações ao Itamaraty que, certamente, por impossíveis, não as poderá dar. Uma grave crise nos espera num futuro, a cada hora, mais próximo.



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