Política

O cofre de Serra: chaves para ajudar a mídia e Moro

De onde Paulo Preto tirou os R$ 4 milhões que o afastariam da campanha de José Serra? Moro e Janot têm planos para ouvi-lo?

08/08/2016 13:37

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Créditos da foto: reprodução

Uma chave de aproximação: Paulo Preto


1.Diretor do Dersa desde 2005, Paulo Preto começou na estratégica área de Relações Institucionais leia-se, contatos com empreiteiras e fornecedores. Em 2007 foi incumbido de colocar a mão diretamente na massa, leia-se, no orçamento: Serra nomeou-o Diretor de Engenharia da empresa, responsável por um orçamento de R$ 6,5 bilhões.


2. Paulo Preto tornou-se então o caixa e a fita métrica de Serra, responsável pela medição e pagamento de obras a empreiteiras encarregadas do trecho sul do Rodoanel (R$ 5 bilhões) e da expansão da avenida Jacu-Pêssego, mais a reforma na Marginal do Tietê (R$ 1,5 bilhão)
 

3. Parêntesis sobre as origens de Paulo Preto no PSDB: antes de comandar a vitrine de Serra em SP, Paulo Preto trabalhou no Palácio do Planalto durante os quatro anos, no segundo mandato de FHC. Foi assessor especial da Presidência no programa Brasil Empreendedor... O que fez Paulo Preto nessa trincheira? Eis aí uma pauta incompreensivelmente esquecida pela Folha, Estadão, Veja e Globo nesses dias de patriótico mutirão para ajudar o juiz Moro a passar o Brasil a limpo.



4. Quem o levou ao Planalto talvez possa ajudar: o tucano Aloysio Nunes Ferreira –escolhido agora líder do golpe no Senado, de quem Paulo Preto se diz amigo há mais de 20 anos. A tal ponto que emprestou R$ 300 mil para o senador quitar um apartamento em Higienópolis. Como é esse apartamento? Quanto vale? Outro esquecimento inexplicável da mídia sempre tão ciosa nos cuidados com a vida pregressa de outros coadjuvantes de enredos como o estrelado por Serra, nesse momento.


5. Fecha o colchete. Em 2007, mal assumiu o controle do caixa do Dersa, Paulo Preto mostrou a que veio: promoveu uma alteração contratual autorizando empreiteiras do Rodoanel a modificarem o projeto da obra a seu critério  ---sem consultar o governo.


6.Antes disso, as construtoras estavam submetidas às regras clássicas para obras públicas: liberação de pagamentos mediante medição e avaliação de qualidade de obra feita.


7. Com Paulo Preto no comando, elas passaram a desfrutar o melhor dos mundos. O tucano de confiança de Serra adotou uma versão do famoso turn key (algo como, 'chaves na mão') que está na origem do desastre da cratera do Metrô", em SP,em 2007, quando vigas de sustentação cederam abrindo uma enorme buraco nas obras da estação Pinheiros, deixando sete mortos. O turn key é filho dileto do neoliberalismo na medida em que acanha o papel do Estado no planejamento, gestão e fiscalização das obras públicas. Cabe à livre iniciativa o comando de todo o processo. Foi isso que fez Paulo Preto ao conceder às construtoras do Rodoanel o privilégio do ‘preço fechado’: a partir de então, elas passam a receber sem comprovação de metragem e, sobretudo sem verificação da qualidade do material utilizado e dos serviços prestados.


8. Como um governador tão eficiente, segundo a mídia demotucana, concordou com essa temerária reviravolta? Uma pista: ela viabiliza o clássico  ‘uma mão lava a outra’. As empreiteiras passam a controlar o fluxo de pagamentos sem interferências nem fiscalização; em troca, garantiram a Serra, ou melhor, a Paulo Preto, a entrega do ‘trecho sul do Rodoanel’ até abril de 2010, tempo hábil para o tucano faturar a inauguração, antes de assumir a campanha presidencial.


9. Paulo Preto entregou o prometido. Numa quarta-feira, 30 de março, 24 horas antes de encerrar o prazo da desincompatibilização, Serra inaugurou o trecho Sul do Rodoanel com direito a foto sorridente ao lado dos operários.

 

Agachado, a sua frente, um esfuziante Paulo Preto.

10. A alegria era tanta que a mídia deu pouco destaque ao que havia ocorrido em 3 de novembro de 2009, quando três vigas de 85 toneladas e 40 metros cada uma despencaram de uma altura de 20 metros no viaduto do Rodoanel sobre a rodovia Régis Bittencourt. Três veículos foram atingidos. Três pessoas se feriram.. Especialistas ouvidos na época afirmaram que a pressa eleitoral estava por trás dos acidentes.


11. Mas Serra era franco favorito então, sobretudo, franco favorito da mídia. Tudo era festa. Dois dias antes da inauguração, o Datafolha –sempre isento-- providenciaria uma pesquisa à la carte para desfazer temores de aparente ascensão de Dilma Rousseff –um pouco como fez agora ao ocultar que 62% dos brasileiros querem eleger um novo presidente. O instituto da família Frias brindava a arrastada desincompatibilização do tucano dando-lhe uma vantagem de nove pontos sobre Dilma (36% a 27%). Às favas com as vigas & paulos pretos.


II) As intercorrências do poder de Paulo Preto sobre o cofre de Serra


1. O pacto entre Serra, Paulo Preto e as empreiteiras deixaria cicatrizes à mostra.


2. Uma auditoria feita pelo Ministério Público Federal nas obras do Rodoanel (financiadas também pela União) mostrou que as novas relações do tipo turn key tornaram impossível identificar se os pagamentos feitos correspondiam ou não ao efetivamente executado em quantidade e qualidade. Em bom português: é tudo o que deseja um gestor de caixa 2.


3. O TCU, de qualquer forma, farejou "alterações significativas", entre elas a adoção alternativas de menor custo em relação ao originalmente licitado". Um exemplo: a troca de concreto moldado no local da obra por pré-moldado, "muito mais barato".


4. Pouco mais de um mês antes do desabamento, em setembro de 2009, as empreiteiras haviam obtido do Dersa, leia-se, do generoso Paulo Preto-- um pagamento extra de R$ 264 milhões ,incompatível com o próprio benefício do preço fechado, pactuado originalmente.


III) Dos bastidores do cofre de Serra para as manchetes


1. Dias depois de Serra assumir a candidatura presidencial, em 2 de abril, Paulo Preto foi misteriosamente demitido do Dersa. Emergiria em seguida dos bastidores para o noticiário como autor de um desvio de R$ 4 milhões do caixa dois da campanha de Serra.


2. Questionado, o candidato tucano declararia em 11-10 ao portal Terra:


Eu não sei quem é o Paulo Preto. Nunca ouvi falar. Ele foi um factoide criado para que vocês fiquem perguntando


3. No dia seguinte, Paulo Preto retrucou colocando as garras de fora:


"Ele (Serra) me conhece muito bem... Todas as minhas atitudes foram informadas a Serra....Não se larga um líder ferido na estrada...Não cometam esse erro" (Paulo Preto, em entrevista à Folha; 12-10)


4. No mesmo dia, à tarde, Serra recuperou a memória e declarou em Aparecida do Norte:


"Ele não fez nada disso (NÃO SUMIU COM R$ 4 MILHÕES DO CAIXA 2 DA CAMPANHA)...Ele é totalmente inocente. Eu não pude responder no dia (do debate na Bandeirantes), porque ela (Dilma) aproveitou o final de uma fala; depois entrou outro assunto..." (Serra; Globo, 12-10)


5. O vai e vem das relações entre Serra e Paulo Preto autoriza inúmeras indagações.
 
 
Mas causa especial perplexidade que uma pergunta de óbvia pertinência jornalística não tenha sido cogitada ainda pela pressurosa mídia investigativa. A saber: Paulo Preto participou a coleta dos R$ 23 milhões que a Odebrecht pagou ao caixa 2 de Serra em 2010?  Se não participou, de onde ele tirou os R$ 4 milhões que o afastariam da campanha do amigo, de forma algo escandalosa e definitiva? Por fim: o juiz Moro e o não menos arguto Procurador Geral, Rodrigo Janot, tem planos para ouvir Paulo ‘Afro’, como preferia o amigo Serra?
 



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