Política

O discreto charme da decadência da classe dirigente brasileira

 

29/03/2021 10:47

'O discreto charme da burguesia', de Luis Buñuel, 1972 (Reprodução)

Créditos da foto: 'O discreto charme da burguesia', de Luis Buñuel, 1972 (Reprodução)

 
O Brasil está diante da mais grave crise do capitalismo e de um dos maiores assaltos ao Estado, conduzido por uma irresponsável aventura econômica que aprofunda a exploração da classe trabalhadora. Próximo de completar oito anos de decrescimento, a atividade econômica do país hoje é menor do que era em 2014. Houve quebradeira empresarial, fuga de capitais estrangeiros e de empresas multinacionais, o que deixou uma gigantesca massa populacional sobrante, sem rumo, e cada vez mais exposta ao novo sistema jagunço constituído pelo banditismo e fanatismo religioso.

Diante do fim das ilusões neoliberais em procurar gerir a decadência nacional, representantes da classe dirigente vieram a público através de “carta aberta à sociedade referente a medidas de combate à pandemia”. Da leitura das 2,7 mil palavras, percebe-se a afirmação encabulada do neoliberalismo, sem menção à mudança de rumo das políticas econômica e social, defesa do Estado e suas políticas públicas, como o Sistema Único de Saúde.

Com relação à educação, por exemplo, apela para que as escolas sejam as últimas a fechar e as primeiras a reabrir, no esquema de distanciamento social. Para mitigar o sofrimento dos pobres e miseráveis, sugerem a filantropia e deixam transparecer que os resultados do capitalismo são mesmo para poucos, que para os demais se aplica a combinação das políticas de responsabilidade social limitada pela lei de responsabilidade fiscal aprovada durante a primeira onda neoliberal conduzida pelos governos dos Fernandos (Collor, 1990-92 e Cardoso 1995-2002).

Entre as ausências sentidas na carta aberta está a falta de coragem para defender explicitamente o receituário neoliberal. Também se omitem sobre temas como a democracia, os pobres que dependem do próprio labor para sobreviver; não falam da retirada de direitos sociais e trabalhistas, do desmonte da estrutura sindical e da Justiça do Trabalho.

A carta mostra as deficiências da classe dirigente atual, que ficam muito evidentes se este documento for comparado com o “documento dos oito empresários” (Antônio Ermírio de Moraes, Cláudio Bardella, Jorge Gerdau, José Mindlin, Laerte Setúbal Filho, Paulo Vellinho, Paulo Villares e Severo Gomes), lançado no ano de 1978, em plena ditadura civil-militar (1964-1985). Naquela oportunidade, os representantes da classe dirigente mostraram coragem e defenderam o retorno do regime democrático, uma reforma financeira, e a implantação de políticas de estímulo ao desenvolvimento tecnológico e industrial, como por exemplo, regras para defesa do conteúdo nacional nas compras públicas, apoio às micro e pequenas empresas e integração da agropecuária aos interesses do mercado interno.

Além disso, entenderam ser importante o retorno da liberdade sindical e da negociação coletiva, simultaneamente com o fortalecimento da política social, como instrumento para atenuar as carências gritantes em matéria de saúde, saneamento básico, educação, transporte coletivo e sustentabilidade ambiental. Era o espírito da elite da época em contribuir democraticamente no debate conjunto com a sociedade brasileira, especialmente dos empresários e gestores públicos.

Em síntese, o Brasil detinha, quatro décadas atrás, uma classe dirigente que buscava “mudar o país”, ao contrário da classe dirigente atual que procura “mudar de país”.

Até a década de 1970, o Brasil e a Coreia do Sul eram os dois únicos países capitalistas de passado colonial que tinham conseguido se industrializar em pleno processo de monopolização do capital. Os países desenvolvidos da época (Inglaterra, EUA, Alemanha, França, Japão) já tinham sido industrializados antes do início do século 20.

Quarenta anos depois, o Brasil convive com profunda desindustrialização conduzida pela aplicação do receituário neoliberal dominante desde o ingresso na globalização em 1990, de forma passiva e subordinada. De lá para cá, os privilegiados vivem como rentistas do jogo financeiro e dos assaltos ao Estado, enquanto direitos sociais e trabalhistas vão sendo destruídos e há um avanço criminoso do neoextrativismo em detrimento da preservação da natureza.

A classe dirigente de hoje se apequena e não clama por uma outra agenda nacional que possa efetivamente caminhar para solução dos grandes problemas da nação.

Será que existe uma contraelite que se opõe a esta decadente classe dirigente do Brasil de hoje?

Marcio Pochmann é economista, professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais da UNICAMP, ex-presidente do IPEA, autor de vários livros e artigos publicados sobre a economia social, trabalho e emprego.

*Publicado originalmente em 'Terapia Política'



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