Política

O falo, a fala e a Frente

 

31/05/2021 23:30

Fiocruz (Acervo/Casa de Oswaldo Cruz)

Créditos da foto: Fiocruz (Acervo/Casa de Oswaldo Cruz)

 
Além das diferentes visões do significado do que é o “humano” – nas suas imperfeições misérias e grandezas – e de como a visão destas condições do ser humano influencia os diferentes projetos políticos modernos, há uma questão de fundo (estrutural) que faz a base mais sólida e diferencia o que podemos designar no contexto nacional como os “fascistas” e os “não fascistas”. Trata-se do apreço ou o desprezo pela ciência.

A questão da ciência, na sua universalidade concreta, é o que – como “progresso” do gênero humano – tanto possibilita a ampliação da barbárie através do seu uso na guerra, – por exemplo – como pode projetar o adiamento da finitude do ser humano (o “adiamento” da morte”) e também propiciar condições para uma harmonia social fundada no fim da carência dos meios básicos de sobrevivência (para todos), dentro de um regime político democrático de igualdade e de liberdade.

A Fundação Oswaldo Cruz e o Instituto Butantan simbolizam a importância estrutural da ciência para o Brasil moderno. Quando se observa ou se sente na vida diária do país, o que eles pesquisam, fazem, realizam – em qualquer momento da sua história e sob qualquer Governo dirigido por pessoas “normais” – sabe-se que eles laboram com critérios baseados no conhecimento.

A observação, a experimentação, os testes laboratoriais e de campo – com precedentes e exemplos buscados no mundo – são conexões fundamentais do conhecimento científico que maximizam, tanto as suas finalidades humanísticas como uso de normativas científicas para propagar o mal, a opressão, a morte e a degradação do gênero humano no seu caminho milenar para compor religiões, filosofias, protocolos de convívio e de dissenso.

As conquistas teóricas e técnicas da ciência são capazes de responder demandas universais de interesse de toda a sociedade, independentemente da classe social ou da ideologia dos seus “clientes”. O fato de que as formas de produção científica são universais não elide, todavia, o fato de que os objetivos das pesquisas (e a distribuição dos seus resultados na sociedade) estão na órbita da política e da ética: um projeto baseado no conhecimento científico tanto pode ser usado para aumentar o tempo de vida das pessoas como suprimir vidas, para facilitar certos tipos de dominação e controle pela violência.

Quando a Capitã Cloroquina fala, sustenta, que o logotipo dos 130 anos da Fundação Oswaldo Cruz é a imitação (mimese) de um pênis – que passa a estruturar todo o seu posicionamento sobre a ciência e seus produtores – ela revela não só a perversão ideológica fascista que deforma o real-artístico, mas também mostra como o fascismo está ancorado em determinados mitos que descartam a experiência da vida comum, que produzem a ciência, a política e a arte. Dizer que a terra é plana, para obter determinada consequência política, passa a ser tão natural como identificar um pênis como amigo da cloroquina para atacar os produtores da vacina.

A compreensão da mímese na concepção frentista da política tem uma importância excepcional nos dias que correm, não somente na apreciação da perversão fascista.

A Declaração de formação da Frente Ampla uruguaia (Fev.72) na sua “Plenária Constitutiva” assentou que “a unidade política das correntes progressistas que culminou com a formação da Frente Ampla, fechando um ciclo da História do país e abrindo outro (foi) gestada na luta do povo contra a política fascistizante da força”. A Frente Popular dos anos 30 com leitura latino-americana.

O Golpe de Estado de 1973 vinha sendo gestado lentamente, acumulando forças “por dentro” do Governo eleito de Juan Maria Bordaberry, apoiado numa sequência de atos ilegais- respaldados por grupos irregulares de extrema direita – voltados para eliminar, por qualquer meio, a guerrilha do MLN-Tupamaros, que já ganhava forte respaldo popular. Nos seus termos clássicos, o Uruguai aparentava estar à beira de uma revolução nacional-popular de caráter anti-imperialista e anti-oligárquico. A Frente Ampla do Uruguai surgida em 73, portanto, emergiu em um momento particular de ascenso revolucionário armado e visava unificar as forças progressistas que, prevendo o reforço das políticas “fascistizantes” da direita no país, deveriam preparar-se para responder, o que se demonstrou impossível, mas não eliminou o propósito frentista recuperado duas décadas depois: em 1973 estas forças foram jogadas na clandestinidade, pelo mesmo golpe “fascistizante” que denunciavam.

A “Frente Ampla” adquire sua marca, portanto, com a premonição do ascenso fascista, identificado diretamente com a instauração de um “estado de fato”, comandado pelos militares de extrema direita, com forte apoio de parte dos políticos tradicionais, tanto “blancos” como “colorados”, impressionados pela insurgência Tupamara. O compromisso Frentista de resistir na legalidade foi frustrado pelo golpe que já estava em adiantado estado de preparação. A diferença da ideia de “Frente Ampla” com a outra Frente que surgiu no solo uruguaio em 1966, quando o ex-Presidente João Goulart recebeu seu arqui-inimigo Carlos Lacerda – defenestrado pelos militares brasileiros depois do Golpe de 64 – é enorme. Em 66, o líder da direita golpista brasileira visita o Presidente exilado e enfraquecido, para lhe propor uma articulação “redemocratizante”, para que o líder civil do golpe pudesse buscar a Presidência pela via eleitoral, que ele militou para suprimir dois anos antes.

No caso da Frente Ampla de Jango e Lacerda, portanto, o golpe já estava consolidado sobre os escombros das bases organizadas da esquerda, que, no momento não desenvolviam qualquer iniciativa destinada a liderar uma Frente. A Frente Ampla uruguaia surgiria depois, num empate estratégico entre conservação e revolução, ao contrário da ideia da tentativa de Frente Ampla brasileira, em 66, que vinha “de dentro” do próprio golpe que derrotou a democracia, a partir de uma clara ação imperial dos EEUU.

São duas experiências que embora encetadas em tempos próximos, adquirem só nomes idênticos, mas projetaram conceitos diferentes sobre o “que fazer”, quem derrotar e para quê compor uma Frente. Desde essas duas experiências até estes dias, o mundo mudou. E muito. Lembremos a análise de Göran Therbon” (FSP, Ilustríssima, abril 2012), que prevê que na Europa ocidental “não há movimentos fascistas com algum significado e (que) eles não ameaçam a democracia, (pois) a ameaça à democracia vem da tecnocracia”, visão que se mostrou-se profundamente equivocada.

Celso Rocha Barros, mais tarde, em abril de 2015 (na mesma FSP, Ilustríssima), faz o prognóstico de um possível fracasso socialdemocrata, entre outras causas porque “a tarefa da socialdemocracia é mover o imposto para cima e o gasto governamental para baixo”, porque “uma socialdemocracia com um Estado em crise é como um liberalismo alavancado no “sub prime”. Na análise de Therbon estava implícita a visão que a socialdemocracia, mesmo com as suas vacilações e vicissitudes conhecidas, resistiria. Na análise de Celso pairava uma suave e correta desconfiança que a esquerda poderia não estar à altura de dar as respostas mais razoáveis para combinar cuidado com os gastos públicos e taxação de fortunas e ganhos improdutivos.

O termo filosófico-crítico mimese, que pode ser usado no sentido comum de “imitação”, é adequado para propor algumas considerações sobre o frentismo político nas sociedades democráticas que abrigam-nas repúblicas atuais em crise – organizações políticas de diferentes matizes ideológicas. Os programas prometidos, as visões de mundo destas “partes” políticas, embora conflitantes diluem-se – num certo período – de forma consciente, para possibilitar uma defesa contra o que entendem como um “mal maior”: é a política “frentista” que também adapta – nas conjunturas de disputa pelo poder – inclusive as “promessas” que são realizáveis num futuro Governo, numa conjuntura de ascenso do fascismo ou simplesmente não revolucionárias. Na mimese da natureza, a “semelhança” adquirida pelas formas orgânicas vivas ocorre através de mudanças milenares, por dentro de uma cadeia de mutações químicas, físicas e biológicas, que não gera o “momento” em que algum “elemento” desta cadeia possa dizer o que ocorreu, como – por exemplo – verbalizar: “mudei”. Não há “consciência” na mimese da naturalidade.

Ao contrário do que ocorre na mimese das relações sociais, que são produzidas pela consciência e querem chegar a uma finalidade conscientemente orientada, os processos de mimese da naturalidade são cadeias de repetição sem consciência. No caso da Frente Política, que deve buscar referências em outras Frentes – já experimentadas em outros momentos históricos, – as transformações dos últimos 50 anos de política com tempos curtos e relações globais comutativas, a “interpretação” do passado tem dificuldades para considerar as experiências anteriores, pois a velocidade da história tende a dar a impressão que “tudo é sempre o presente”. A Frente Ampla brasileira de 1966 tem pouca semelhança com a Frente Ampla uruguaia, eis que ela foi composta pela vontade política de poucos dirigentes, sem base real de massas e foi extinta – embora não tivesse personalidade jurídica – por uma simples Portaria Ministerial do Ministro da Justiça Gama e Silva!

Quais as diferenças entre estas duas Frentes e uma Frente a ser formada, aqui no Brasil, com partidos e líderes com programas diversos e visões de mundo conflitantes, mas que se unem para enfrentar ou derrogar um “mal” maior? Ouso dizer que são três e profundas: primeiro, a universalidade da crise sanitária e os seus efeitos sobre o modo de fazer política e as novas tecnologias usadas pelos grupos fascistas para influenciar a população; segundo, que estamos enfrentando um fascismo novo tipo, que tem apoio em recursos tecnológicos usados globalmente, para a desmoralização da política nos regimes de democracia política; e terceiro, o fascismo novo tipo, aqui, emerge em conluio com o capital financeiro hegemônico em escala global e promove reformas que criam uma nova (e sua) base social, fora dos padrões tradicionais de dominação capitalista. A visão de um Pênis Estrutural inventado pelas mentes perversas do fascismo demanda um certo tipo de Frente, que unifica pela ciência que vacina, pela democracia que civiliza e pelo pão na mesa que derrota a fome, que não habita suas obsessões políticas nem suas preferências estéticas.

Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.

*Publicado originalmente em 'Sul/21'

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