Política

O fim do neoliberalismo e o renascimento da história

Por 40 anos, as elites de países ricos e pobres parecidos prometeram que as políticas neoliberais levariam à um crescimento econômico mais rápido, e que os benefícios se manteriam no topo, de modo que todos, incluindo os pobres, melhorariam de vida. Agora que as evidências estão explícitas, é de se surpreender que a confiança nas elites e na democracia despencaram?

13/11/2019 11:33

(DNY59/Getty Images)

Créditos da foto: (DNY59/Getty Images)

 
NOVA IORQUE – No final da Guerra Fria, o cientista político Francis Fukuyama escreveu um celebrado ensaio chamado “O fim da história?”. Ele argumentou que o colapso do comunismo eliminaria o último obstáculo separando o mundo todo de seu destino de uma democracia liberal e economias de mercado. Muitos concordaram.

Hoje, enquanto encaramos um recuo da ordem global liberal baseada em regras, com líderes autocratas e demagogos conduzindo países que contém bem mais da metade da população mundial, as ideias de Fukuyama parecem ingênuas e pitorescas. Mas elas reforçaram a doutrina econômica liberal que prevaleceu pelos últimos 40 anos.

A credibilidade da fé do neoliberalismo em mercados sem restrições como a rota mais segura para uma prosperidade partilhada está em maus apuros hoje em dia. E deveria estar mesmo. O declínio simultâneo da confiança no neoliberalismo e na democracia não é coincidência ou mera correlação. O neoliberalismo abala a democracia há 40 anos.

A forma de globalização prescrita pelo neoliberalismo deixou os indivíduos e sociedades inteiras incapazes de controlar uma parte importante de seu destino, como explicou Dani Rodrik da Universidade de Harvard, e como eu argumento nos meus livros recentes “Globalização e Seus Descontentamentos Revisitados” e “Povo, Poder e Lucros”. Os efeitos da liberalização do mercado de capitais foram particularmente odiosos: se um candidato presidencial à frente nas pesquisas em um mercado emergente perdesse apoio de Wall Street, os bancos retirariam seu dinheiro do país. Os eleitores, então, encarariam uma escolha difícil: ceder à Wall Street ou encarar uma crise financeira severa. Era como se Wall Street tivesse mais poder político do que os cidadãos dos países.

Até mesmo em países ricos, era dito aos cidadãos comuns, “você não pode perseguir as políticas que você quer” – seja proteção social adequada, salários decentes, taxação progressiva, ou um sistema financeiro bem regulado – “porque o país vai perder competitividade, os empregos irão desaparecer e você irá sofrer”.

Em países ricos e pobres parecidos, as elites prometeram que as políticas neoliberais levariam à um crescimento econômico mais rápido, e que os benefícios se manteriam no topo, de modo que todos, incluindo os mais pobres, melhorariam de vida. Para chegar lá, no entanto, os trabalhadores teriam que aceitar salários menores, e todos os cidadãos teriam que aceitar cortes em importantes programas governamentais.

As elites alegaram que suas promessas eram baseadas em modelos econômicos científicos e “pesquisa baseada em evidência”. Bom, depois de 40 anos, os números estão aqui: o crescimento desacelerou, e os frutos desse crescimento foram, de maneira impressionante, para os poucos do topo. Enquanto os salários estagnaram e o mercado de ações disparou, a renda e a riqueza ficaram concentradas.

Como que a restrição salarial – para manter competitividade – e programas governamentais reduzidos podem ajudar a construir melhores padrões de vida? Cidadãos comuns se sentiram como se tivessem comprado mercadoria falsa. E estavam certos em se sentirem enganados.

Agora, estamos experienciando as consequências políticas dessa grande mentira: desconfiança nas elites, nessa ciência econômica na qual o neoliberalismo se baseou, e no sistema político monetário corrupto que fez tudo isso ser possível.

A realidade é que, apesar do nome, a era do neoliberalismo estava longe de ser liberal. Impôs uma ortodoxia intelectual cujos guardiões eram totalmente intolerantes. Economistas com visões heterodoxas eram tratados como hereges para serem banidos, ou numa melhor, eram despachados para algumas instituições isoladas. O neoliberalismo tinha pouca semelhança com a “sociedade aberta” que Karl Popper defendia. Como enfatizou George Soros, Popper reconheceu que nossa sociedade é um sistema complexo que se encontra em constante evolução, e que quanto mais aprendemos, mais o nosso conhecimento muda o comportamento do sistema.

Em nenhum lugar essa intolerância foi maior do que na macroeconomia, onde os modelos predominantes descartaram a possibilidade de uma crise como a de 2008. Quando o impossível aconteceu, foi tratado como se fosse uma enchente de 500 anos – uma ocorrência bizarra que nenhum modelo poderia ter previsto. Até hoje, defensores dessas teorias se recusam a aceitar que sua crença em mercados autoregulados e sua dispensa de externalidades como não importantes ou não existentes, levaram à desregulação que foi peça chave para estimular a crise. A teoria continua sobrevivendo, com algumas tentativas de fazê-la se encaixar nos fatos, o que mostra que más ideias, uma vez estabelecidas, frequentemente têm uma morte lenta.

Se a crise financeira de 2008 falhou em nos mostrar que os mercados sem restrições não funcionam, a crise climática certamente deveria: o neoliberalismo irá, literalmente, eliminar nossa civilização. Mas, também, é claro que os demagogos que nos fazem nos voltarmos contra a ciência e a tolerância só vão piorar as coisas.

O único caminho a seguir, o único caminho para salvar nosso planeta e nossa civilização, é um renascimento da história. Devemos revitalizar a iluminação, o esclarecimento, e nos comprometer em honrar os valores de liberdade, respeito pelo conhecimento e da democracia.

*Publicado originalmente em Project Syndicate | Tradução de Isabela Palhares



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