Política

O lawfare psicopatológico

O autor deste artigo propõe pensar em um novo tipo de lawfare: o uso preconceituoso por parte dos meios de comunicação de termos provenientes dos saberes da psicologia, com o objetivo de instalar determinados clichês sociais

28/06/2019 10:38

Margaret Thatcher: para o neoliberalismo,

Créditos da foto: Margaret Thatcher: para o neoliberalismo, "a economia é o metodo, o objetivo e a alma"

 
A vida cotidiana contém palavras e frases organizadas por termos de ordem psicopatológico. É assim que a linguagem reúne o dentro e o fora, através de uma contraposição. Nos meios de comunicação, circulam termos como “psicopatologia”, “psicótico”, “histérico”, “perverso”, “neurótico”, “déficit de atenção”, “TDHA”; “débil mental”, “esquizofrênico”, “a jovem homossexual”, “surto psicótico”, “paranoico”, “narcisista”. Algumas destas palavras de emprego coloquial surgiram da psiquiatria, da psicologia ou da psicanálise, e alimentam os preconceitos sobre as nossas vidas e as vidas dos outros. Freud não deixou essa questão passar desapercebida. No livro “A psicopatologia da vida cotidiana” (1901) ele não desqualificava quem era afetado por um lapso, uma piada ou pela substituição de uma palavra por outra. Em concreto: essa psicopatologia da vida cotidiana não era nada mais que uma forma de revelar sua normalidade. Essa normalidade cotidiana, ao ser absorvida pela “psicopatologia midiática”, se transforma numa ferramenta de lawfare (guerra suja jurídica), cujo objetivo é impactar a alma de cada cidadão para construir sua singular subjetividade, consciente e inconsciente. Quando essas palavras ingressam nos meios de comunicação e nas redes sociais mudam seu sentido, e se produz uma operação encoberta de instalação de um clichê.

Um clichê é uma ideia, frase ou expressão que, por sua reiteração, se torna comum, e passa a ocupar um lugar em nossa subjetividade de forma consciente ou inconsciente: as borboletas no estômago para falar de um enamoramento profundo, o clichê da leve risadinha para mostrar que está bolando um truque, ou diante do nervosismo de não saber o que fazer ou dizer diante de uma experiência nova. Um clichê cinematográfico comum é o da bomba desativada um segundo antes de sua possível explosão.

Os pintores, segundo o filósofo Gilles Deleuze, costumam se valer de estilo de clichê: a tela não está em branco antes de ser pintada, pelo contrário, contrario, está cheia de clichês não-visível: o modelo que impõe a forma de um cachimbo, de uma rosa, de um rosto, de um ponto e uma linha, só pode ser pintado seguindo o clichê não visível. Todas as abominações ou desqualificações, o que é ruim, anormal ou normal, já que estão na tela em branco, ou na mente em branco, prontos para pintar, escrever, atuar... O clichê da normalidade operará em nossas vidas subjetivas.

Estanislao Fernández Luchetti, artista conhecido como Dyhzy, apresenta sua performance como drag queen. Em uma entrevista ao Página/12, define sua atividade como “interpretação de personagens através de disfarces”. Assim, responde ao clichê psicopatológico com o qual o qualificaram pejorativamente nas redes sociais: o candidato presidencial kirchnerista Alberto Fernández é pai de um drag queen! Estanislao se encarrega de separar a figura de Dyhzy da do filho do candidato à Presidência da República.

O historiador Ernst Hartwig Kantorowicz, no livro “O corpo do Rei”, dizia que a figura do rei não é o rei em suas funções, enquanto outro historiador mais contemporâneo, Agostino Paravicini Bagliani, fez sua contribuição ao tema em seu próprio livro, “O corpo do Papa”. Segundo este último, Jorge Mario Bergoglio não é o Papa Francisco. A delicada fronteira entre o corpo do candidato a presidente e o corpo de um padre não deixa de existir, apesar de sua delicada precisão. O lawfare psicopatológico aproveita essa frágil fronteira, essa estreita margem, para instalar sua guerra suja em nome da psicopatologia, atribuída a um desses corpos, para atacar o outro. O fazem para permitir uma articulação difamatória dos meios de comunicação.

O que é o lawfare? “Em maio de 2018, durante uma missa na capela de Santa Marta, o Papa Francisco disse que “na vida civil, os meios começam a falar das pessoas, dos dirigentes políticos, e podem sujá-los usando a calúnia e a difamação” (frase de Cristina Fernández de Kirchner, em seu livro “Sinceramente”).

Margaret Thatcher formulou que para o neoliberalismo “a economia é o método, o objetivo é a alma” (psique). A subjetividade era e é uma base forte do neoliberalismo. O ato de caluniar e a difamação empregam termos que têm aparência de objetividade, e que são usados com certa retórica científica. A psicopatologia midiática instala em nós esses clichês, visíveis ou invisíveis: a ideia é psicopatologizar os outros e a si mesmo, incluindo a maioria dos preconceitos e das calúnias que habitam silenciosamente em nosso subjetivo, a um botão de se manifestar em um “like” no Facebook.

O neoliberalismo dá existência subjetiva às instituições (“o mercado reagiu”); a instituição tem sensibilidade social (“os mercados estão afetados”, “os mercados estão histéricos”, “os mercados enlouqueceram pelo Efeito Tequila”). Geram um fantasma de lençol branco, intocável e inacessível. O sociólogo Lewis Cosser estudou o efeito material dos sistemas de poder para instalar em cada um de nós esse fantasma de forma eficiente, e nesse exercício ele destacou o surgimento das instituições vorazes de um desenho quase perfeito para produzir uma determinada subjetividade consciente e inconsciente. A linguagem coloquial é uma instituição com suas línguas e seus usos e costumes presentes no consciente e no inconsciente., que inclui leva modelos como os clichês psicopatológicos. Os poetas usam essas armas ao inventar um poema. Borges escreveu “nas letras de ‘rosa’ está a rosa e todo o Nilo na palavra `Nilo´”.

Em que horizonte genealógico surge o lawfare psicopatológico? Escrevo “genealógico”, seguindo a ideia do historiador Ignacio Leukowicz (“pensar sem o Estado”).

Nos princípios do Século XX se encontra a fonte do lawfare psíquico, que surgiu das inquietudes da ideia de pureza da raça humana, perguntas a respeito de como garantir a normalidade (pureza de saúde e de saúde mental) se apresentaram tanto do lado da esquerda (proteger o proletariado das impurezas burguesas, alcoolismo, vício às drogas) como da direita (proteger a pureza da raça, eliminar corpos impuro como os ciganos, homossexuais, crianças com síndrome de down, esquizofrênicos, etc).

Alfred Hoche, psiquiatra e um dos mentores conceituais das Leis de Nuremberg (1935), qualificou como a psicanálise como “epidemia psíquica”. Ao pé da letra: uma epidemia solicita ser eliminada. Se sabe que Hoche realizou estudos de eutanásia e eugenia.

Sigmund Freud dizia ironicamente que “um foco infeccioso nesse lugar não poderia conseguir outra coisa senão alcançar particular importância para a propagação dessa epidemia psíquica, como a chamava Hoche.

Que relação existe entre esse doutor com o lawfare psicopatológico? Alfred Hoche e seu colega Karl Binding escreveram “Liberdade para a aniquilação de uma vida indigna de ser vivida” (1920). O livro lançou o termo “indigno de ser vivido”, usado por muitos para categorizar a vida dos chamados “doentes mentais”, os mais “fracos de espírito”, as “crianças retardadas” ou “malformadas”. Os autores deram à sua teoria um carácter médico-científico-jurídico e propuseram sua finalidade terapêutica: a destruição da vida “indigna de ser vivida” era possível a partir de “um simples tratamento” de uma “empresa de terapia”. Segundo eles, o Estado não deveria gastar dinheiro em atenção a esses “doentes”. Essa proposta foi uma das bases para as “Leis de Nuremberg e da proteção do sangue”, sancionadas pelo regime nacional-socialista em 1935. Esse regime foi o primeiro em empregar meios massivos não impressos: instalação de sons nas praças públicas da Alemanha, para difundir durante o dia as mensagens de Hitler e outros funcionários. Além disso, promoveram a ampliação da cobertura das rádios, barateando os preços e facilitando a aquisição de tais aparelhos.

O lawfare psicopatológico, como cada adjetivação desse tipo se sustenta a partir de um clichê presente em nossa subjetividade. Como se desfazer desse clichê? Estanislao Fernández Luchetti chegou a ter mais de 15 mil seguidores no Instagram, mas como drag queen precisa enfrentar muitas vezes a discriminação e a violência. Situação que responde como artista, se fazendo de Dyhzy.

Alberto Sladogna é psicanalista argentino

*Publicado originalmente em pagina12.com.ar | Tradução de Victor Farinelli



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