Política

O manual de comunicação dos ativistas de ultradireita da Espanha

Como o partido de extrema direita Vox coloca em prática o aprendido pelo seu líder, Santiago Abascal, em sua etapa como referente político neoconservador.

23/07/2019 12:11

JRMora

Créditos da foto: JRMora

 
O Vox não dá trégua a sua verborragia, nem mesmo durante o verão europeu. A esta altura, sabemos que o partido da ultradireita Made in Spain não joga para conquistar o grosso dos eleitores, e que, em sua estratégia, mostrar o poder de sacudir o campo de batalha já é suficiente; e para isso utiliza o ativismo político/comunicativo que permite questionar consensos, polarizar a sociedade, articular preocupações sociais difusas e criar novas. Um ativismo que poderíamos associar com o movimento esquerdista, mas que, desde o final dos Anos 70 do século passado, é utilizado com grande maestria pela direita radicalizada e seus movimentos sociais. Exatamente esse tipo de ativismo de agitação é o que o Vox tem feito, laçando a campanha #YoSoyBorja (“eu sou Borja”). Como diz a magistrada Natalia Velilla, uma tentativa de “manipular todo o país através da conexão com as emoções e com os sentimentos mais atávicos”.

Borja é o nome de um jovem de 26 anos condenado por homicídio por imprudência grave, cuja sentença foi recentemente ratificada pela Audiência Provincial de Málaga –consiste em uma pena de dois anos de prisão e uma multa por 180 mil euros. Borja propinou dois socos em um assaltante que fugiu após roubar uma bolsa e agredir sua proprietária, segundo a sentença. Seria um novo herói nacional, salvador dos desprotegidos, e acossado por um sistema legal sustentado por progressistas que protegem os delinquentes? Este é o relato que o Voz tenta impor, com toda uma campanha de agitação que inclui a arrecadação de fundos, petição de indulto e concentrações nas ruas.

A atividade hiper comunicativa deste partido é um traço que compartilha com o resto da extrema direita do continente, como diz o sociólogo Guillermo Fernández. A provocação ajuda a ter presença constante nos meios, marcar agenda e superar a esquerda na batalha cultural. O Vox se encaixa perfeitamente neste molde, um partido que aprendeu as táticas dos manuais comunicativos neoconservadores, sobre o meio termo entre a comunicação política e o ativismo social. Essas táticas se colocaram em prática originalmente nos Estados Unidos, a partir da “nova direita” – vinculada à ala conservadora da revolução neoliberal que surgiu precisamente como uma reação ao sucesso dos postulados culturais de Maio de 68 – e posteriormente, foram aprofundadas sob a denominação de “neocon”: um movimento que teve um momento de apogeu no governo de Bush filho, e que na Espanha se reproduziu através de figuras como José María de Aznar e Esperanza Aguirre.

Na Espanha, o Vox representa uma intensificação e aprofundamento destas ideias neoconservadoras. No caso de Borja, por exemplo, é claro que o partido segue ao pé da letra o manual de campanhas comunicativas neoconservador, aprendido por Santiago Abascal quando esteve no comando da Fundação para a Defensa da Nação Espanhola (DENAES). Antes disso, havia a Liberdade Digital TV, que fala sobre um “ativismo de minorias ativas (...) e da política como disputa pelos valores”. Abaixo, uma lista com algumas de suas diretrizes:

1. Busque um caso que seja sucesso midiático, ou que possa se tornar um, e tente aproveitá-lo através da vitimização.

Qualquer situação serve se alguém pode aparecer como vítima ou herói de ambos. Sobretudo se uma pessoa “normal” pode acabar representando a Espanha ou os valores heroicos da nação (no caso de Borja, o Vox não só pediu seu indulto, como também que ele ganhe uma medalha do Mérito Civil). “A perseguição dos heróis é a morte do Estado”, afirmou Rocío de Meer, uma deputada do partido, em sua conta de Twitter.

Se além disso é possível usar a figura de vítima de um sistema injusto que se está combatendo, então melhor ainda. No fim das contas, a política vitimista é um dos eixos centrais de sua comunicação política. O vitimismo permite levantar a bandeira do agravio, não se trata de discutir em termos racionais, e sim de desenhar um campo novo onde eles representam o povo humilhado. Como explicam os autores Carmona, Sánchez e García, em seu livro Spanish Neocon (o melhor que já se escreveu para compreender o fenômeno): “com este método, eles obtêm bons resultados na agitação das ‘vítimas’, sejam elas afetadas pelo terrorismo, pelo aborto, pela caridade do Estado, pela ideologia de gênero, pelos movimentos ecologistas, pelo progressismo ou pelos ‘direitos para todos’. A política neocon se baseia, portanto, no território da sensibilidade e das paixões. O emocional se transforma em uma arma de intervenção, que funciona de forma eficaz diante da ideia de que a política é algo parecido a uma ciência baseada no ceticismo e na tecnocracia, e que a participação democrática é mera retórica, como muitas vezes parece se deduzir quando se fala em uma política profissionalizada”.

2. Não basta comunicar, é preciso agitar.

As coletivas e declarações para imprensa são importantes, mas não suficientes. É preciso mobilizar ativamente os afins, e também os que não são, mas que poderiam ser, caso se sintam parte de algo que os interpele. Apesar da fria comunicação política, se trata de envolver os cidadãos, torná-los ativistas – recordemos, por exemplo, a plataforma ultra chamada Hazte Oír (“faça-se ouvir”), que atua realizando abaixo assinados e organizando caravanas ideológicas. Assim, além de pedir o indulto de Borja, o Vox lançou uma campanha de arrecadação de fundos destinada a pagar a indenização imposta a Borja: “a Espanha tem um coração imenso”, dizem. A nação se expressa coletivamente para acompanhar os seus heróis maltratados. Para mais “ativismo ativo” (como diz o seu líder, Santiago Abascal), o Vox realizou um ato em Fuengirola, local onde aconteceu o caso.

3. A verdade não importa, comunicar é criar mundos.

No método neocon/ultra, a contrainformação e a propaganda têm um papel crucial. Claro que a verdades não importa, uma mentira repetida mil vezes na confusão midiática e no blábláblá das redes, acaba por deixar vestígios em muitas cabeças predispostas. O importante é ter convicção e não ter vergonha. Não é preciso provas ou argumentos racionais, basta simplesmente afirmar algo sem complexos e não ter medo de ser desmentido. Neste caso de Borja, a versão que ficou é a de que o condenado agrediu o ladrão quando este estava golpeando uma mulher, inclusive “chutando a sua cabeça”, como disseram alguns meios. No entanto, a verdade é que Borja não agrediu o ladrão para evitar que ele batesse na mulher, e sim para recuperar a bolsa, quando ele já estava fugindo. O que os juízes entenderam é que existe uma desproporcionalidade evidente: golpes que produzem a morte – ao causar a queda, direta ou indiretamente – propinados para recuperar uma bolsa e não para salvar a mulher de uma agressão. Aliás, a condenação nem foi dura, pois se fosse aplicada a pena de homicídio doloso, poderia ter chegado aos dez anos de prisão.

Essas mentiras servem para despertar a indignação e incitar a ação. As redes multiplicam as mensagens e os meios afins, como os sites Libertad Digital, Ok Diario e outros, que repetem suas ideias e respaldam essa visão, enquanto promovem um clima de ameaça e perigo para as maiorias sociais, o que rende muitos cliques. Mas apesar das versões e desmentidos, no final o dano se estabelece: uma vez situada a dúvida no meio de uma discussão, qualquer outro meio – sobretudo os mais escorados no mundinho do mainstream e chamados a supostamente “representar” determinadas posiciones – repetirá até o cansaço os argumentos defendidos pelo Vox, ajudando a perfurar algumas cabeças.

4. Aproveita qualquer ocasião para golpear o resto de imprensa não alinhada, e a esquerda em geral, chamado todos de “esquerdistas”.

A partir desta “verdade” construída, é preciso lançar logo uma ofensiva contra aqueles que foram definidos como os inimigos. E aí vale tudo: criar confusão, e se possível, voltar a se situar como vítimas dos que desmentem nossos embustes. “Dá pena ver os meios esquerdistas criticando a campanha #AjudemosBorja com toda uma onda de desinformação e mentiras, com o único objetivo de atacar o Vox”, disse o partido, através de sua conta oficial no Twitter.

5. Defender uma lei, mesmo que seja inútil, para impulsar a sua agenda.

Na retórica neocon/ultra, todo problema que se construiu socialmente precisa ter um foco muito claro: seja para solucionar um problema propondo uma nova norma, ou outra intervenção, apontando a um determinado responsável político. De novo, a verdade não importa, o que importa é a agitação social. Neste caso, o Vox diz que quer modificar o Código Penal para reconhecer o direito à legítima defesa, quando se trata de socorrer a terceiros. Uma reforma desnecessária, pois a norma vigente já reconhece esta possibilidade, e que além disso seria inútil no caso citado, já que o próprio Borja não alegou no processo que atuou em defesa de uma terceira pessoa, mas sim dele mesmo. Outros exemplos deste ponto: quando o Vox utilizou o assassinato de Laura Luelmo (jovem espanhola assassinada em dezembro de 2018) para pedir prisão perpétua tanto para crimes de assassinato quanto para os de estupro. É o suficiente para que o partido pose como um setor que defende as mulheres – apesar de seu discurso antifeminista.

Mais e mais medo, mais armas, mais polícia, e menos laço social

Deste caso particular – e lembrando que sempre podem existir resoluções judiciais criticáveis – procura-se impulsar a ideia de que existe uma impunidade generalizada dos delinquentes, um discurso habitual do Vox. A culpa, claro, é da esquerda, que é compreensiva demais com o delito. A mensagem que se promove é a do medo: qualquer um pode ser vítima de um delito, o mundo é um lugar perigoso e a sociedade uma quimera. Esse discurso também funciona para Bolsonaro, em um país ferido de morte pelo narcotráfico e a desigualdade, mas o fato de que a Espanha seja um dos países mais seguros do mundo parece não importar a Abascal: no fim das contas, muitos telejornais são contínuos boletins policiais. O temor também pode ser construído. E sim, existe gente preocupada pela “segurança”, e que se articula a partir dos significados do termo: a segurança que importa não é mais a de saber como poderemos pagar o aluguel no próximo mês, ou a segurança no trabalho, na saúde, ou a ambiental. Segurança é saber que existe outra pessoa por aí esperando para nos levar o muito ou pouco que temos – e é fácil fazer parecer que essa pessoa é um estrangeiro, que veio se aproveitar do que nos pertence. Porque além das campanhas e dos discursos, o que deveria no preocupar é que a ultradireita é especialista em criar um estado de ânimo conservador a partir do mal-estar social profundo.

Quanto mais alarme social e desconfiança consigam criar, mais se reforçará a ideia de que temos “direito a nos defender”. Abascal, o líder do Vox – e assim como Bolsonaro no Brasil e Salvini não Itália –, está a favor de facilitar o porte de armas para proteger o “direito à autodefesa dos espanhóis de bem”, um velho adágio ultraliberal que se fortalece na retórica da guerra de todos contra todos.

Por outra parte, esta construção de uma tonalidade afetiva de medo serve para impulsar a agenda da segurança e o populismo punitivo: o endurecimento das penas (também para problemas sociais, como as ocupações por falta de mordia), o reforço dos controles fronteiriços e o impulso às deportações de migrantes (considerados culpados por todos os nossos males), a retórica que tenta ressuscitar o medo da ameaça terrorista, etc. A insegurança vital acaba transformada em medo, e o medo é um poderoso dissolvente do que nos vincula a um perfeito anseio às demandas de um Estado punitivo, como o que o Vox promove. Uma forma de nos prepararmos para um Estado que organiza a escalada repressiva, ou para a militarização do conflito social, como diz Luis Fazenda. Precisamente para ter via livre para usar a repressão e a violência contra as outras saídas possíveis aos medos sociais: as coletivas. As mobilizações e as lutas – se são alegres e construtivas, não reativas – geram laço social, e não a atomização, que é produto do medo, e podem gerar um movimento comum diante das indeterminações sociais: os movimentos pelo direito à moradia, ou por aposentadorias dignas, as mobilizações de trabalhadores, ou pela saúde universal, e outros diretos. Justo o contrário do que o Voz constitui e impulsa como partido.

Nuria Alabao é jornalista espanhola, doutora em Antropologia e membro da Fundação dos Comuns

*Plubicado originalmente na Revista Contexto | Tradução de Victor Farinelli




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