Política

O novo velho Continente e suas contradições: A direita e a sua cultura da violência

 

12/11/2019 11:44

 

 
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Desde os camisas negras de Mussolini na Itália e da ação das SA (Sturmabteilung-Tropas de Assalto) do Partido Nazista alemão, os movimentos e partidos da direita na Europa fazem uso da violência como linguagem política. É uma forma de supremacia e intimidação dos adversários. Destes, os mais visados são “os comunistas”, designação genérica de que fazem uso para os movimentos que os enfrentam no âmbito dos sistemas democráticos que os fascistas pretendem destruir. Conhecemos isto na realidade política do Brasil atual.

Faço hoje abordagem superficial, mas penso que necessária da extrema-direita na Espanha, na Grécia e na Bulgária, continuando esta pequena série sobre as ameaças fascistas na Europa.

Os textos anteriores que abordam o que acontece na Hungria, Polônia, França, Itália, Áustria, Inglaterra, Alemanha, Holanda e República Checa encontram-se nestes links:

* O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros

* Os senhores da Direita e o futuro da Europa

* Uma sombra negra que se amplia

E uma introdução geral sobre o que acontece neste momento na Europa neste link:

* O Novo Velho Continente e suas Contradições

Espanha

Uma classe trabalhadora desencantada, a exemplo do que acontece em outros países, acaba por fortalecer a extrema direita e tem favorecido o crescimento do Vox, partido de inspiração neofascista como outros que existem no panorama político do continente. Nas eleições de 10 de novembro passado, lideradas pelo PSOE com 120 assentos, o Vox conseguiu 52 assentos no Parlamento espanhol. Há um ano tinha nenhum. Existe um certo temor na consciência democrática da Espanha de que aconteça como na França, onde muitos eleitores das classes trabalhadoras, que antes se alinhavam com o Partido Comunista passaram a dar apoio à extrema direita.

A política espanhola é dominada por cinco principais partidos: PP (Partido Popular), centro-direita; PSOE (Partido Socialista Obrero Español), centro-esquerda); Podemos, esquerda; Ciudadanos, centro; e Vox, de extrema-direita, o que mais tem crescido, às custas principalmente do Ciudadanos e que acaba de se consolidar como a terceira força política da Espanha.

A extrema direita espanhola, desde antes da Guerra Civil e desde Franco, sempre existiu e abrigava-se no PP até o surgimento do Vox, cuja plataforma combate a chegada de refugiados e imigrantes, as leis de igualdade entre homens e mulheres, a prática do aborto, a União Européia e os movimentos independentistas regionais. Seu líder, Santiago Abascal, é um basco acusado de traição pelo ETA. Sua família tem uma história de profundas ligações com o franquismo. Abascal anda sempre armado e defende a posse de armas para todos. Admirador de Donald Trump, tem tido em suas campanhas a colaboração de Steve Bannon, o sombrio guru do próprio Trump, Bolsonaro e outros líderes da extrema direita neofascista pelo mundo.

Grécia

A civilização que criou a política como arte, o sistema de governo e a própria palavra Democracia não está hoje afastada da ameaça do fascismo. A extrema direita, reunida na Associação Popular-Aurora Dourada, com 16 deputados no parlamento, é a terceira força política da Grécia, depois do Syriza, uma coligação de esquerda, e da Nova Democracia, de centro-direita.

O Aurora Dourada é definido como neonazista e seu próprio líder Nikolaos Michaloliakos qualifica o partido como nacionalista e racista. Sessenta e oito dos seus principais militantes são acusados na justiça por organização criminosa, homicídios e agressões depois do assassinato do “raper” Pavlos Fissas, membro da pequena coligação de esquerda Antarysa. Em outros incidentes, foram agredidos e violentamente feridos com golpes de barras de ferro militantes do Partido Comunista que distribuíam panfletos.

Nikolaos Michaloliakos considera Hitler a grande personalidade do Século XX, nega que tenha existido o holocausto e diz que Israel é o inimigo eterno da Grécia. Defende a colocação de minas terrestres nas fronteiras para evitar a imigração ilegal.

Bulgária

É tido como o país mais pobre da Europa, com grande desigualdade social, atribuída aos altos níveis de corrupção. A chegada de refugiados do Médio-Oriente acentuou sentimentos de xenofobia, nacionalismo e a ação das milícias ligadas a partidos de extrema direita. Com a colaboração da polícia, essas milícias se dedicam com violência à caça de refugiados.

A coligação de extrema-direita Patriotas Unidos (OP) é hoje a terceira força política do país, formada pela Frente Nacional de Salvação da Bulgária (NFSB), o Movimento Nacional Búlgaro (VMRO-BND) e o Ataka, movimento ultranacionalista, racista, xenófobo, homofóbico e islamofóbico, antiturco e anticigano, liderado por Volen Siderov. Todos se opõem ao acolhimento de refugiados e alguns dos seus elementos participam das milícias que promovem a sua caçada.

Volen Siderov, jornalista e apresentador de um programa de TV chamado Ataka (Ataque), nome que veio a designar seu partido político, afirma que a maçonaria controla o mundo através de regimes títeres, organizações internacionais e a imprensa. O “globalismo”, teoria que conta com vários seguidores no atual governo brasileiro, bem como com o seu guru Olavo de Carvalho, seria um braço dessa conspiração.

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