Política

O novo velho Continente e suas contradições: Os senhores da Direita e o futuro da Europa

 

30/10/2019 13:17

 

 

Nota da Redação: Esta semana o escritor Celso Japiassu continua a série de textos em sua coluna semanal, O novo velho continente e suas contradições, onde ele apresenta os perfis dos novos protagonistas da política europeia de extrema direita. Na semana passada, com o título de O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros, o autor escreveu sobre o húngaro Viktor Orbán, o polonês Jaroslaw Kaczynski e a francesa Marine Le Pen. Hoje, em Os senhores da Direita e o futuro da Europa, ele comenta o italiano Matteo Salvini, o austríaco Norbert Hofer e o britânico Boris Johnson. Boa leitura.

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Os senhores da Direita são hoje uma ameaçapara o futuro da União Europeia. E da existência do euro, sua moeda. Eles combatem a imigração e o acolhimento de refugiados, cada um deles glorifica um nacionalismo exacerbado, as tradições do seu país e obscuras teorias sobre política, relações internacionais e a própria organização da sociedade. Há pelo menos um deles, Matteo Salvini, , que num exagero retórico bem italiano considera a moeda única um crime contra a humanidade.

Já disse aqui que todos os países da Europa – com exceção da Irlanda, Luxemburgo e Malta – contam com extremistas da Direita em seus parlamentos. A grande e dramática pergunta é se este pêndulo na direção das grandes ameaças vai continuar a apontar nessa direção por muito tempo ou se voltará a pender para os ideais de democracia, solidariedade e justiça social que inspiraram a criação da União Europeia. Os próximos anos é que vão dizer.

Matteo Salvini

Homem forte da Itália entre 2018 e 2019, ocupou dois cargos,o de Primeiro Ministro e o de Ministro do Interior.Foi apeado há pouco do governo depois de tentar algumas jogadas políticas mal sucedidas. Quis maiores poderes. Acabou derrubado por uma articulação do PD – Partido Democrático - de esquerda, com o Movimento Cinco Estrelas, que se define como um não partido antissistema, fundado pelo comediante Beppe Grillo em 2009 e acabou por se transformar na terceira força política do país. Grillo fez sucesso na televisão com um programa humorístico sobre a vida de italianos nos Estados Unidos e no Brasil.

Salvini está agora a preparar sua volta. Os que acompanham seus movimentos dizem que ele sabe manipular muito bem os velhos sentimentos que movem a política italiana: vingança, oportunidade e interesses. Ele considera o euro um crime contra a humanidade. É chamado de “capitão” (Il Capitano) pelos seus seguidores, o que para muitos italianos lembra “Il Duce”, como era chamado Mussolini. Declara-se defensor dos valores da família, é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo e defende a separação da região do Veneto, berço do seu partido, do resto do país. Continua a serum dos políticos mais influentes no conturbado ambiente político da Itália. Líder da Liga Norte, movimento que cresceu com uma retórica populista e anticorrupção, aliado à Força Itália de Silvio Berlusconi. Combate a entrada de imigrantes e refugiados e é contra a globalização, com uma teoria difusa e confusa que se aproxima do conceito caótico do “globalismo” adotado por alguns componentes do atual governo do Brasil.

Norbert Hofer

Algumas publicações, como o International Business Times,classificam o político austríaco como neofascista e seu slogan de campanha, que pode ser traduzido em inglês como “Putting Austria First”, de imediato lembra o de Donald Trump “America First”. Não é simples coincidência, pois Hofer também tem grande admiração por Trump e ambos possuem vários pontos de vista em comum. Assim como o nosso conhecido Jair Bolsonaro, é um defensor das armas e, por medo dos imigrantes, segundo a imprensa, carrega sempre consigo uma pistola Glock.

Norbert Hofer, líder do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) é um homem de sorriso fácil e certa simpatia pessoal. Já foi descrito como de olhar ingênuo e usa uma bengala como sequela de um acidente de asa delta.Teve a maior votação no primeiro turno das eleições a presidente, em 2016,mas perdeu no segundo para Alexander van der Bellen, ex-presidente dos Verdes. Continua sendo uma alternativa de poder num país onde cresce a rejeição aos imigrantes e refugiados estrangeiros.

Seu credo político inclui o pangermanismo, uma das ideias que inspiraram Adolf Hitler e costuma exibir nas roupas a imagem de uma centáurea, flor típica do seu país, adotada como símbolo dos movimentos nazistas clandestinos.

Boris Johnson

Com uma cabeleira que lembra o estilo Trump, mas não tão bem arrumada, o Primeiro Ministro inglês, um dos líderes do Brexit, é um ex-jornalista que foi demitido do The Times por falsificar uma declaração.

Nasceu em Nova Iorque de pais ingleses – tem dupla nacionalidade - e foi prefeito de Londres por dois mandatos. Embora seja um conservador extremado, não chega a ser considerado um extremista de direita mas um mutante político, capaz de mudar de posição segundo suas próprias conveniências.

Da mesma forma que a sua antecessora Theresa May, luta com o Parlamento para obter aprovação de um acordo com a União Europeia que possibilite uma boa solução para o Brexit. Nessa disputa já tentou suspender o Parlamento e foi alvo de enormes protestos de rua.

Acredita numa sociedade organizada hierarquicamente. O editor do Al Jazeera James Brownswell afirma que Boris Johnson na campanha do Brexit inclinou-se para a direita mas que no fundo é um pouco mais liberal do que seus correligionários do Partido Conservador.

Seus eleitores costumam chama-lo de Bojo, acrônimo do seu nome. O jornalista Dave Hill, colunista do The Guardian, define-o como uma figura única na política britânica, construída pela mídia e reunindo as características de comediante, vigarista, falso subversivo, showmane populista. Várias das suas afirmações durante a campanha para obter vitória no plebiscito do Brexit foram posteriormente desmentidas.

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