Política

O novo velho Continente e suas contradições: Uma sombra negra que se amplia

 

06/11/2019 12:05

(Arte Carta Maior)

Créditos da foto: (Arte Carta Maior)

 

Nota da Redação: Em A Europa Vista Dentro Celso Japiassu, colunista da Carta Maior, analisa, em um texto intitulado Uma sombra negra que se amplia, as ameaças da direita no Novo Velho Continente. Esta semana, ele dá continuidade à pequena série sobre as ameaças da direita na região e fala sobre as novas lideranças de direita na Alemanha, Holanda e na República Checa. Nos textos anteriores ele abordou o que acontece na Hungria, Polônia, França, Itália, Áustria e Inglaterra.

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A crise geral do capitalismo de 2008 assinalou o fim da era de crescente progresso nos países da Europa. Aumentaram o desemprego e as dificuldades financeiras, levando ao que os economistas chamam de austeridade fiscal, o controle de gastos dos governos. A diminuição do padrão de vida trouxe insatisfação, ao que se juntou a crise migratória dos países da África e do Oriente Médio. Os que fogem das guerras, da fome e das perseguições passaram a procurar refúgio nos países europeus. E as populações locais veem isto como ameaça aos postos de trabalho e sobrecarga dos serviços públicos. Acirraram-se o racismo e a xenofobia. As redes sociais e a disseminação que elas proporcionam de conteúdos discriminatórios, xenófobos e violentos, junto com falsas notícias, ajudaram a montar um quadro de ressentimentos. Um cenário perfeito para o aparecimento de políticos oportunistas, ideologias radicais e o consequente fortalecimento dos partidos de extrema direita. Eles já estão no governo em dez países da União Europeia e representados em outros doze parlamentos nacionais.

No texto a seguir dou continuidade a uma pequena série sobre as ameaças da direita na Europa . Neste texto de hoje falo sobre as novas lideranças de direita na Alemanha, Holanda e República Checa.

Os textos anteriores que abordam o que acontece na Hungria, Polônia, França, Itália, Áustria e Inglaterra encontram-se nestes links:

* O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros

* Os senhores da Direita e o futuro da Europa

E uma introdução geral sobre o que acontece neste momento na Europa neste link:

* O Novo Velho Continente e suas Contradições

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Frauke Petri

A Alemanha foi praticamente destruída numa guerra provocada por um movimento de extrema direita que despontou no conturbado ambiente político da primeira metade do Século 20. Carrega consigo as cicatrizes que ainda não foram totalmente fechadas nem tampouco esquecidas e a sombra nazista não se apagou por completo. O populismo de direita ainda agita parcelas da sua sociedade. Sua melhor representante, hoje, é uma jovem política de 44 anos nascida em Dresden, na Saxônia, cidade que foi destruída na guerra e reconstruída depois.

Frauke Petri é deputada no Parlamento Regional da Saxônia e se diz apenas conservadora embora seja considerada uma representante da extrema direita. Condena a entrada de muçulmanos em seu país, é contra a União Europeia e há pouco disse que Angela Merkel não pensa no futuro da Alemanha porque não teve filhos. Há pouco respondeu a processo por ter mentido num depoimento sobre o financiamento eleitoral do seu partido.

É uma aposta da direita alemã para o futuro do país.

Geert Wilders

Conhecido como anti-muçulmano, anti-imigrantes, anti-establishment e anti-intelectual, é o líder do Partido para a Liberdade, que ele próprio fundou e hoje é a terceira força política da Holanda, disputando posição com outras forças de direita ou extrema direita. Tem 20 representantes no Parlamento. Com extremado foco na presença de estrangeiros no país, já foi processado por discriminação e incitação ao ódio contra marroquinos e imigrantes de origem árabe de modo geral. Viveu três anos em Israel e compara o Corão a Mein Kampf, de Hitler.

Wilders prega o fechamento de mesquitas e promoveu um concurso de caricaturas de Maomé que cancelou depois de receber ameaças de morte. Anda sempre na companhia de seguranças armados. Com a líder francesa de extrema direita Marine LePen criou um movimento que ambos denominaram Aliança Europeia pela Liberdade, defendendo estritos controles da imigração para toda a Europa.

Como todos os políticos de extrema direita, defende a saída do seu país da União Europeia.

Andrej Babis

Bilionário, fundador e líder do partido Ano 2011, atual Primeiro Ministro da República Checa e dono de quatro jornais, websites e uma estação de rádio. A principal plataforma política do seu partido – que define a si mesmo como um movimento e não um partido - é a luta anticorrupção. Babis já foi processado por fraude financeira e acusado de ter sido informante da polícia.

Ele condena o governo alemão de Angela Merkel por sua defesa de quotas de imigrantes e refugiados nos países europeus. Recusa-se a adotar as quotas. Alguns comentaristas o definem como um político de centro mas ele mesmo diz que seu partido é de direita “com empatia social”. Babis é definido pelo jornalista Jakub Pato%u00Dka como um predador capitalista que fez uso de sua posição como informante dos serviços secretos e ficou absurdamente rico diante das oportunidades surgidas após o colapso do comunismo na então Checoslováquia. Quando suas empresas reunidas no grupo Agrofertil, que teve origem na produção de agrotóxicos, sentiram-se de alguma forma prejudicadas, teria resolvido ele mesmo assumir o poder político do seu país. Uma jogada que só fez aumentar seus lucros.



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