Política

O novo velho Continente e suas contradições: O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros

 

23/10/2019 11:18

 

 
Nota da Redação: Com o título de O crescimento da extrema direita ou a noite dos vampiros, o escritor Celso Japiassu assina a sua segunda coluna semanal em Carta Maior iniciando uma série de registros sobre políticos de extrema direita que recentemente surgiram no continente europeu. Os primeiros são o húngaro Viktor Orbán, o polonês Jaroslaw Kaczynski e a francesa Marine Le Pen.

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O fascismo tem os mesmos hábitos do Conde Drácula da Transilvânia. Dorme quando há luz e levanta-se para se alimentar de sangue humano quando as trevas começam a aparecer nos horizontes. O continente europeu conhece-o bem, foi devastado duas vezes por sua causa e assiste agora aos sinais do seu reaparecimento. Já se começa a enxergar o que o cineasta sueco Ingmar Bergman definiu em um dos seus filmes como o ovo da serpente: o tênue invólucro de membrana que deixa revelar os contornos da víbora que está para nascer.

Discursos de conteúdo eminentemente nacionalista, controle de fronteiras e protecionismo na economia estão pouco a pouco a desafiar os valores de democracia, solidariedade, não discriminação e cooperação sobre os quais se construiu a União Europeia. Os legítimos fascistas já se revelaram na Hungria, na Polônia e na Grécia e os de extrema direita ou apenas direita nos casos da França, Inglaterra, Alemanha e Holanda. A verdade é que apenas três países – Irlanda, Luxemburgo e Malta – deixam de contar atualmente com extremistas de direita em seus respectivos parlamentos. As motivações repousam na falta de confiança nos políticos, a crise econômica e a descrença nas instituições. O Conde Drácula começa a despertar sedento e faminto.

A crise econômica mundial aumentou o desemprego, levou os governos a medidas de austeridade fiscal e afetou o padrão de vida das classes médias junto com os problemas migratórios. Matéria prima para os populismos de Direita. Os políticos profissionais sabem aproveitar estes momentos e jogam lenha na fogueira.

Mas quem são estes políticos europeus?

Vou falar de alguns nesta matéria e prometo me dedicar a outros mais adiante.

Viktor Orbán

Um personagem sombrio que tem sido líder da direita na Hungria, presidente do partido Fidesz (Magyar Polgári Szövetség – União Cívica Húngara), que ele mesmo fundou, e responsável pelo retrocesso democrático em seu país. Na adolescência foi membro da Juventude Comunista e suas opiniões políticas mudaram radicalmente enquanto prestava serviço militar. Estudou Ciência Política em Oxford financiado pelo milionário húngaro-americano George Soros.

Foi Primeiro Ministro entre 1998 e 2002, quando seu partido perdeu as eleições para os socialistas. Voltou a ganhar as eleições em 2010, 2014 e 2018. Desde então tem feito ataques à União Europeia, que pejorativamente apelida “Estados Unidos da Europa”, perseguido imigrantes, tentado controlar a internet e combatido o que chama “democracia liberal”.

Orbán mandou construir uma cerca na fronteira com a Sérvia e a policiou fortemente para impedir a passagem das levas de refugiados vindos do Oriente e depois mandou a conta para Bruxelas cobrando a despesa da União Europeia. Alegou ter salvo a Europa de uma invasão. A União Europeia há pouco iniciou procedimentos contra seu governo por desrespeito às normas democráticas.

Tem sido acusado de corrupção e seu partido Fidesz acaba de perder as eleições para a prefeitura de Budapest.

Jaroslaw Kaczynski

Outro que foi levado ao poder pela onda populista de direita na Europa. Junto com seu irmão gêmeo idêntico Lech Kaczynsky – morto em 2010 num acidente aéreo - fundou na Polônia o partido Lei e Liberdade. Solteiro, morava com a mãe doente até que ela teve de ser hospitalizada. Há rumores acerca da sua homossexualidade. Recusa-se a usar computador e foi só em 2009 que abriu uma conta bancaria.

Sua plataforma política está fundamentada numa “revolução moral” que liberte o país dos fantasmas herdados do comunismo e redirecione a Polônia na direção das suas raízes católicas conservadoras. Coloca-se contrário ao estilo multicultural do Ocidente e afirma que os direitos LGBT são importados de fora e ameaçam a nação polonesa. Tornou-se um defensor dos direitos dos animais e afirma que não será candidato nas próximas eleições.

Marine Le Pen

Uma mulher de sorriso simpático que faz sucesso na televisão e de personalidade forte, que expulsou o próprio pai da Frente Nacional, seu partido político. Nas últimas eleições francesas chegou a liderar as pesquisas para Presidente da República e chegou a 35 por cento dos votos perdendo para Emmanuel Macron no segundo turno.

Defende a saída da França da União Europeia, o fim do euro e a realização de um referendo para aprovação de um “Franxit” à maneira do “Brexit”. Prega a expulsão de todos os estrangeiros vigiados pelos serviços de informação, proibição de usar o sistema público de saúde aos migrantes em situação ilegal e a retirada da cidadania francesa àqueles que forem condenados por ligações com o jihadismo.

Diz que os contratos públicos seriam reservados apenas a empresas nacionais e promete rejeitar os contratos internacionais. Certos direitos, como a educação gratuita, seriam privilégio apenas dos cidadãos franceses e os empregadores que contratassem estrangeiros pagariam o imposto de 10 por cento sobre o salário.

Estes são apenas três dos dirigentes da nova extrema direita da Europa. Depois apresentarei mais alguns, o que pensam e o que pretendem fazer.







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