Política

O novo velho continente e as suas contradições: A Europa em solidão

 

24/03/2020 11:00

 

 
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As praças vazias e as ruas abandonadas constroem hoje a paisagem das cidades da Europa. Vem à lembrança um antigo soneto do poeta parnasiano brasileiro Raimundo Correia cujo primeiro verso, “Aqui outrora retumbaram hinos”, evoca tempos de glórias passadas. Enquanto o olhar mira a solidão dos lugares quase mortos. Das fronteiras dos Montes Urais até a curva d’A Corunha, na Espanha, que para os antigos marcava o fim do mundo ou onde a terra se acaba e o mar começa, como dizia Camões referindo-se ao Cabo da Roca.

Em todo esse espaço que a Europa abrange, o sentido do vazio prevalece na quase ausência da presença humana. A quarentena forçada, o fechamento de fronteiras e o recolher obrigatório fazem lembrar os dias das guerras que o continente conheceu em épocas avassaladoras. Mas isto foi em gerações passadas. A geração de hoje conhece pela primeira vez o que significam as privações de uma resistência a uma invasão, mas desta vez o inimigo é desconhecido embora presente e faz vítimas que não estão aptas a se defender.

E há o medo do futuro que ronda especialmente os pequenos comerciantes, os donos dos restaurantes abandonados e dos velhos que foram definidos como grupo de risco, os mais ameaçados.

O futuro é uma pergunta que não se consegue responder. Nem até quando vai durar esta enorme solidão dos confinamentos e da presença ameaçadora da morte que acumula suas vítimas em todos os países.



O inimigo que não se vê

Na Itália, com mais de seis mil mortos até ontem e toda a população abrigada em suas casas, vê-se como a ausência humana melhorou o ar e a qualidade das águas. Veneza reconstrói sua paisagem marítima. Em Roma constata-se o medo “de uma coisa que não se vê”, como diz o empregado de um restaurante que vivia lotado e hoje conhece o vazio de suas mesas abandonadas. Em Florença os habitantes estranham a cidade onde vivem e que hoje parece uma cidade fantasma. As sombras das estátuas da Renascença projetam perfis como lembranças do tempo de Lorenzo de Medici, o Magnífico.

Na Espanha morreram mais de dois mil infectados, até o momento em que escrevo este texto. E as pessoas aguardam, atônitas, para saber quantos mais ainda vão morrer. Em Madrid o Exército patrulha as ruas para garantir a proibição de circular e para manter todos confinados em suas casas. O comércio permanece fechado. A Plaza Mayor, antes repleta, viva e cheia de movimento, está deserta.

Não há turistas na Espanha nem em Paris ou Portugal. No Porto, uma cidade que renasceu com o turismo, orgulhosa da sua história e da sua beleza emoldurada pelo encontro entre o mar e o rio Douro, predomina o silêncio das ruas. Antes estavam repletas de jovens que vinham do mundo inteiro e ocupavam as antigas artérias e as estreitas calçadas. Os restaurantes que regurgitavam alegria fecharam as portas, as crianças estão sem aulas. Pela primeira vez na vida elas conhecem a significação do tédio.

O difícil retorno

O governo da Hungria fechou a travessia do seu território e os caminhos da Áustria para a Romênia. Na sua fronteira, milhares de trabalhadores romenos, agora sem emprego, procuram voltar para seu país. Todos trabalhavam temporariamente na Alemanha ou na França. A Hungria diz que poderá permitir a passagem desses migrantes pelo seu território mas com a proibição de qualquer parada, nem mesmo para abastecer os automóveis.

O Primeiro Ministro húngaro de extrema direita Viktor Orbán usa a crise para fazer política. Declarou que os migrantes sírios que se encontram na fronteira, tentando passar para a Europa Ocidental, representam ameaça muito maior para seu país do que o coronavírus.

O governo da Polônia, também de extrema direita, fechou suas fronteiras aos estrangeiros e estuda a intervenção do Exército para fazer cumprir as medidas que pretende decretar.

Estônia, Grécia, Noruega, Países Baixos, enfim todos os países da Europa estudam medidas de enfrentamento ao surto de um vírus desconhecido cujo comportamento afinal ignoram.

Em Portugal, brasileiros aglomeram-se às portas da Embaixada e dos consulados do seu país em busca de orientação e ajuda para voltar, pois os voos de volta foram suspensos.



Estado de sítio

Na França, todos concordam que o presidente Emmanuel Macron cresceu politicamente quando, eleito por um movimento conservador, acabou por reconhecer a importância do estado de bem-estar social. É como se fosse por fim o reconhecimento do papel do Estado na organização da sociedade diante da ideologia da direita política que defende a privatização de todos os serviços e de todas as empresas públicas. O mercado nada pode fazer diante da crise. O país sente-se como se estivesse em estado de sítio e os mais velhos ainda se referem aos tempos da ocupação durante a Segunda Guerra Mundial. É proibido circular nas ruas e qualquer deslocamento exige portar um salvo-conduto para ser apresentado à polícia.

Os dias tornam-se longos, os velhos e as crianças exibem sua inquietação. Eles olham através das janelas para ruas vazias. Essa angústia, a solidão e o sentimento de abandono vieram exibir a fragilidade e também todo o desamparo da espécie humana diante de uma ameaça que é mortal e desconhecida.



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