Política

O novo velho continente e suas contradições: A Europa ameaçada

Em 16 de junho de 2016, a parlamentar trabalhista Jo Cox, partidária da permanência do país unido à Europa, foi assassinada a tiros em Birstall, no norte da Inglaterra. O agressor gritou Britain First! durante o ataque. Por coincidência - ou não - foi este o slogan da campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos: America First. Na mesma linha e com o mesmo sentido, a campanha de Bolsonaro apregoava ''Brasil acima de tudo''

04/01/2021 14:03

(Reprodução/bit.ly/3hGsg8k)

Créditos da foto: (Reprodução/bit.ly/3hGsg8k)

 
A existência da União Europeia encontra-se ameaçada pela forte oposição que lhe fazem os chamados eurocéticos, aqueles que estão contra o projeto e pretendem sua destruição. Eles estão tanto à direita quanto à esquerda do espectro político. A direita é contra desde as origens do projeto europeu pelo forte nacionalismo que a caracteriza, junto com o ódio aos imigrantes e a posição conservadora e reacionária dos movimentos que a representam. A oposição de esquerda tomou forma desde as intervenções da chamada troika, equipe composta pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Eles impuseram um pesado programa de austeridade que sufocou os países mais frágeis como Grécia, Espanha e Portugal, exigindo privatizações e reformas econômicas impopulares. A esquerda posicionou-se contra o que viu como um ataque neoliberal a partir da cúpula da União Europeia.

Euroceticismo é uma palavra criada em 1985 pela revista americana Times, que dividiu o conceito em uma hard version, em que a ideia da União Europeia é completamente rejeitada e uma soft version, que é contra algumas das políticas ou instituições da Europa.

Os eurocéticos ignoram a advertência de François Miterrand em defesa da União Europeia. O nacionalismo, disse ele, significa a possibilidade de guerra entre os países. A Europa já conhece de sobra o que a guerra significa porque tem sido o palco privilegiado dos maiores conflitos através dos séculos da sua história.



A primeira grande vitória do euroceticismo, que deseja o isolamento dos países dentro das suas próprias fronteiras, acaba de ser formalizada com o Brexit.

O acordo do Brexit foi concluído no dia 24 de dezembro, véspera do Natal e assinado no último dia do ano, que era o fim do prazo acertado para as negociações. Fechavam-se assim as discussões que levaram três anos. Ambos os lados disseram-se satisfeitos com o que haviam conseguido. Passou a vigorar a partir deste 1º de janeiro. Mas tanto a Europa quanto o Reino Unido saem enfraquecidos de um processo que trouxe desgaste e insatisfação às populações dos diversos países que acreditam nos valores e objetivos de uma Europa unida. Houve aplausos dos eurocéticos, que não acreditam na força da união. Eles dão força às fileiras dos partidos de extrema direita que nos últimos tempos conseguiram expandir-se na política dos 27 países que formam hoje a União Europeia. O nacionalismo cego que historicamente inspira a direita insurge-se contra o que considera alienação da independência. Foi este o principal argumento do movimento que, na Inglaterra, conduziu ao Brexit, acrônimo formado pelas palavras Britain (Bretanha) e Exit (saída). É uma palavra similar a Grexit, cunhada quando foi cogitada a saída da Grécia da União Europeia nos tempos da troika.

A relação entre o Reino Unido e a Europa, que os ingleses chamam de “o continente”, foi sempre conflituosa. Na adesão à comunidade europeia, o pedido inglês foi rejeitado duas vezes pela França liderada pelo General De Gaulle. A adesão da Inglaterra só foi assinada em 1972, após a renúncia de De Gaulle ao governo francês. Os ingleses votaram pela permanência em um referendo de 1975 mas já se manifestavam os movimentos contrários.



Uma campanha radical

A campanha pela retirada do Reino Unido foi radicalizada pela direita. Em 16 de junho de 2016, a parlamentar trabalhista Jo Cox, partidária da permanência do país unido à Europa, foi assassinada a tiros em Birstall, no norte da Inglaterra. O agressor gritou Britain First! durante o ataque. Por coincidência – ou não – foi este o slogan da campanha de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos: America First. Na mesma linha e com o mesmo sentido, a campanha de Bolsonaro apregoava “Brasil acima de tudo”.

O movimento pelo Brexit ganhou corpo com a fundação, em 1993, do Partido de Independência do Reino Unido (UKIP), eurocético, que foi o terceiro mais votado nas eleições europeias de 2004. Foi o segundo nas eleições de 2009 e o mais votado em 2014, com 27,5 por cento dos votos.

A partir de agora o Reino Unido e a Europa restabelecem as barreiras à livre circulação de pessoas e mercadorias, embora o acordo que passa a vigorar tenha aliviado um pouco os direitos e impostos alfandegários. Os ingleses deixam de ter acesso ao livre mercado europeu e passam a sofrer com a burocracia das fronteiras, as dificuldades de locomoção na Europa e o aumento do preço das mercadorias importadas do continente. Vinho do Porto, camembert e vinho importado da França, preferidos da aristocracia e da alta burguesia inglesas, ficarão mais caros.



O acordo é minucioso e procura ser previdente ao normatizar garantias tanto aos britânicos quanto aos cidadãos da UE de continuarem a viver no país onde se encontram atualmente. Foram também acertadas normas para o que se refere a trocas comerciais, como também a assuntos relacionados com o ambiente ou o terrorismo. Prevê ainda a cobertura de gastos com saúde dos cidadãos da UE residentes no Reino Unido e dos britânicos que vivem na União Europeia. Os eurodeputados do Parlamento Europeu deram ênfase à importância de assegurar um tratamento igualitário e justo aos cidadãos da União Europeia no Reino Unido e dos cidadãos britânicos que residem em algum dos diversos países do Continente.

A confiança e a popularidade da União Europeia sofreram certo declínio a partir de 2007, em plena vigência da austeridade da troika, quando chegou a menos de 50 por cento. Voltaram a crescer depois de 2015 devido à queda do desemprego e ao reaquecimento econômico da Europa.

Algumas empresas britânicas, como a Jaguar Land Rover, estão a transferir-se para países do leste europeu para evitar o que Greg McDonald, CEO de um grande grupo fornecedor da indústria automobilística, chamou de “a cortina do Brexit”. Referia-se a uma comparação com a “cortina de ferro”, que foi como Winston Churchill apelidou o então bloco soviético fechado a negócios com os países de economia capitalista.



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