Política

O novo velho continente e suas contradições: A Europa e a derrota de Trump

Um governo de extrema direita nos Estados Unidos fortaleceu em todo o mundo os movimentos neo-nazifascistas. E o legado de Trump no seu próprio país dividido continuará a representar uma esperança para todos eles, que continuarão a pressionar pelo poder. E a desenvolver as suas táticas de comunicação via redes sociais da internet destinadas a atrair opinião pública e votos favoráveis nas eleições das democracias que pretendem destruir

10/11/2020 11:32

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A derrota de Donald Trump vai repercutir internacionalmente, como se sabe, e terá profunda influência na União Europeia, que acompanhou em suspense as informações que chegavam das eleições americanas. E agora aguarda pelos seus desdobramentos. Os mais ansiosos países à espera do que vai acontecer são os hoje governados pelos partidos de direita e extrema direita, a exemplo da Hungria, Polônia, Áustria, República Checa, entre outros, ou aqueles que contam com partidos radicais de direita em seus parlamentos, casos da França, Alemanha, Itália, Holanda e quase todos os outros. Apenas três países europeus não possuem hoje representação da extrema direita em seus parlamentos, são eles Malta, Irlanda e Luxemburgo.

Donald Trump, que representou um governo de extrema direita nos Estados Unidos, fortaleceu em todo o mundo os movimentos neo-nazifascistas . E o legado de Trump no seu próprio país dividido continuará a representar uma esperança para todos eles, que continuarão a pressionar pelo poder. E a desenvolver as suas táticas de comunicação via redes sociais da internet destinadas a atrair opinião pública e votos favoráveis nas eleições das democracias que pretendem destruir.

Diversos meios de comunicação europeus consideram as eleições americanas que tiveram Joe Biden como vencedor como as mais importantes dos últimos sessenta anos, desde aquelas que elegeram John F. Kennedy. Elas vão definir o futuro das relações entre a União Europeia e os Estados Unidos. Vão influenciar a conclusão das negociações do Brexit e também os importantes acordos comerciais existentes. Serão decisivas para o globalismo e o multilateralismo. Lembram que o governo republicano não escondeu a sua vontade de implodir a União Europeia e a OTAN. Um governo que rechaçou o acordo nuclear com o Irã, abandonou a Organização Mundial de Saúde no meio de uma pandemia e que se retirou do acordo de Paris, que é decisivo para enfrentar a crise do clima no planeta.



Joe Biden, em suas primeiras declarações como presidente, afirmou que pretende restaurar a confiança da Europa em seu país e que os Estados Unidos voltarão a participar das reuniões da OTAN.

Há quem chame no entanto a atenção, com a aparente volta à normalidade do país que lidera o Ocidente, para o fato de que os interesses dos Estados Unidos e os da Europa nem sempre são coincidentes. A Europa é constituída de pequenos países mas os seus 500 milhões de habitantes precisam democratizar-se para construir o seu próprio destino numa globalização que tende a se polarizar entre os Estados Unidos e a China. Em respeito aos seus próprios interesses, não convém à Europa nem o modelo americano nem o chinês.

 O historiador português Rui Tavares acredita que, se os países médios e pequenos europeus se deixarem fragmentar, serão pasto para as novas superpotências globais.

As viúvas

Viktor Orbán, da Hungria, é um dos que aguardam os desdobramentos da derrota de Trump com certa ansiedade. A Hungria governada pelo Fidesz, o partido de Orbán, aplicou a mais radical política contra os imigrantes e refugiados, negando-lhes asilo humanitário, prendendo-os e expulsando-os. Recebeu explícito apoio de Trump, que elogiou sua ação na questão migratória, afirmando que ele fez a coisa certa e garantiu a segurança da Hungria. Durante um encontro dos dois, o presidente americano afirmou diante das câmeras de TV que o seu colega húngaro é um líder respeitado na Europa. “Você fez um bom trabalho e garantiu a segurança do seu país”. Orbán devolveu o elogio e disse que Trump era um ícone do movimento nacionalista em todos os países do mundo. Ambos fizeram críticas veladas à decisão da chanceler alemã, Angela Merkel, de abrir as fronteiras aos refugiados sírios em 2015.

Durante o governo de Barack Obama, o governo da Hungria recebeu críticas pelos seus ataques à democracia, à liberdade de imprensa, à justiça e à sociedade civil.

Viktor Orbán é, junto com o seu programa político, o verdadeiro símbolo do populismo anti-imigração na União Europeia e se diz em defesa de uma Europa cristã ameaçada pela "invasão muçulmana". Seu partido é o perfeito representante da direita radical, assim como o partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD), o francês União Nacional (ex-Frente Nacional) e o italiano Liga, de Matteo Salvini.

Orbán é um dos que aguardam ansiosos o futuro dos EUA com a derrota de quem o apadrinhava.

Outros partidos extremistas de direita, em outros países, também perdem com a derrota de Trump. É o caso do FPÖ (Partido da Liberdade da Austria), fundado em 1956 por Anton Reinthaller, um antigo oficial das SS nazistas e do Aliança dos Cidadãos Descontentes (ANO), da República Checa, populista, anti-imigração e eurocético, que se encontra atualmente no poder com Andrej Babis, um industrial considerado um dos homens mais ricos da Europa central. Vale também mencionar outros países onde a extrema direita está forte e presente, casos da Eslováquia, Croácia, Estônia, Letônia, Espanha, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Suécia, Eslovênia, Grécia, Chipre e Lituânia.

Todos eles, hoje, são viúvas de Donald Trump.



A França de Le Pen

A líder da extrema direita francesa Marine Le Pen recusou-se a acreditar até o último momento na possibilidade de derrota de Trump. Até o fim convencida da sua vitória, acabou dizendo que não tinha Trump como modelo mas ele, sim, foi quem aplicou as propostas que ela vem fazendo há anos e que seus adversários políticos sempre consideraram estúpido. 

Le Pen disputou o segundo turno das eleições presidenciais com Emmanuel Macron e continua a ser considerada uma alternativa de poder na França. Seus correligionários costumavam chamá-la de “a Trump francesa”. Durante a sua campanha presidencial, foi vista em visita à Trump Tower, em Nova Iorque.



James Traub, do New York University’s Center on International Cooperation e colaborador regular da revista Foreign Policy, disse que Marine Le Pen é igual a Donald Trump, só que sem a sua loucura. Seria necessário acrescentar que ela, assim como o quase ex-presidente americano, usa a mentira como tática política para confundir tanto adversários quanto seus próprios eleitores. Jaroslaw Kaczynski, da Polônia e Viktor Orban, além de outros líderes da direita, assim como Trump, são também cínicos fabulistas.



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