Política

O novo velho continente e suas contradições: A Segunda Guerra Fria

Com o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a China, os analistas são unanimes em identificar o advento de uma segunda guerra fria. Em jogo está o predomínio político, econômico e cultural do mundo. Qual será o papel da Europa nesse jogo?

02/06/2020 17:34

 

 
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As potencias hegemônicas não admitem competição nem desafios econômicos ou geopolíticos a sua liderança. Foi por isso que Roma destruiu Cartago. E houve tantos conflitos entre a França e a Prússia e depois entre a França e a Alemanha unificada nessa disputa por domínio político. Uma competição que provocou duas guerras mundiais de altíssimo custo para a Humanidade e que devastou o continente europeu.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos sustentam a sua posição hegemônica primeiro na disputa com a União Soviética na denominada Guerra Fria, que manteve o mundo em alerta e suspense durante quase 50 anos. Agora, com o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a China, os analistas são unânimes em identificar o advento de uma segunda guerra fria. Em jogo está o predomínio político, econômico e cultural do mundo. Qual será o papel da Europa nesse jogo?

Agitações

Antevê-se o fim do sistema de predomínio estadunidense e a provável ascensão da China, deslocando-se o centro de poder para o continente asiático. Seria assim dado início a uma nova ordem mundial. O catalão Josep Borrel, Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança da União Europeia, disse que a atual pandemia da Covid-19 tem de ser vista como o ponto de viragem. Não só a doença como também o seu tratamento e provavelmente a cura têm ou terão origem na China. E a Europa importa um bilhão de euros por dia de produtos chineses. Uma dependência, portanto.

Especialistas nas técnicas da guerra híbrida, os americanos estão sob suspeita da China no que se refere às agitações em Hong Kong. Os chineses desconfiam do dedo da CIA e de outros órgãos clandestinos da Casa Branca a por fogo nos distúrbios que lá ocorrem. Da mesma forma como aconteceu nas chamadas primaveras árabes e coloridas pelo mundo afora e até nas agitações de 2013 no Brasil que criaram as condições políticas para finalmente conduzirem à destituição de Dilma Roussef e depois à eleição de Jair Bolsonaro.

Na terceira semana de maio foi convocada uma reunião dos principais líderes do governo chinês onde foi discutido um projeto de reforço da segurança interna para “interromper atividades subversivas e a interferência estrangeira”em Hong Kong. No dia 28 de maio a Assembleia Nacional Popular aprovou, com a presença de 3 mil deputados, a Lei de Segurança Nacional para aplicação em Hong Kong. Do outro lado, Donald Trump afirmou que haverá uma “reação muito forte” se a China seguir adiante com seu plano para aquela que os chineses consideram uma região especial, mas que faz parte do território chinês.



A Europa preocupa-se. Não pretende ser instrumentalizada por nenhum dos dois lados e há que atentar também para os crescentes movimentos e partidos políticos de extrema direita nos diversos países do continente. Eles são ideologicamente pendentes para o lado americano em quaisquer circunstâncias. Do outro lado, a preocupação de acompanhar e cuidar das campanhas chinesas de desinformação que, diz-se, estão muito presentes e de forma sorrateira durante esta pandemia.

A guerra comercial

A disputa entre os dois países acentuou-se em 2018, quando o presidente americano impôs pesados impostos sobre os produtos importados da China. A resposta chinesa foram fortes tarifas sobre os produtos vindos dos Estados Unidos. Como pano de fundo, o grande desequilíbrio no comércio entre eles. Há uma diferença de quase 400 bilhões de dólares em favor da China. E ainda uma forte queda no crescimento americano que promove no país o aumento da desigualdade e da pobreza, conflitos étnicos, problemas migratórios e recessão.

Na comparação entre as economias, a participação da China no PIB mundial representa hoje 17,9% e a dos Estados Unidos 15,6%. Para o ano de 2021 a situação vai se configurar de forma ainda mais profunda, pois nas previsões do FMI a China vai representar 20% e os Estados Unidos cairão para 14,4%. O quadro se modifica quando se compara o PIB per capita, pois o americano passa a ser sete vezes maior do que o chinês. É a relação entre a China, com 1,4 bilhão de habitantes e os Estados Unidos com 320 milhões.



O enfraquecimento americano e a ameaça da perda da liderança mundial está por trás dos ataques e da retórica do presidente Trump. Suas posições são acompanhadas por países periféricos, carentes de identidade e expressão política e diplomática como o Brasil atual.

Tecnologia

Ambos os países já se impuseram tarifas pesadas sobre as importações mútuas de mercadorias as mais diversas, desde paracetemol e cerveja a sofisticados produtos tecnológicos, num processo crescente de retaliações umas após as outras. O principal campo da disputa é a produção de tecnologia. Os americanos acusam a China de roubo de propriedade intelectual e os chineses acusam os Estados Unidos de, irresponsavelmente, deflagrarem a maior guerra comercial da história.



Há dois anos, foi presa no Canadá, a pedido dos Estados Unidos, que pede sua extradição, a diretora financeira da Huawei, Meng Wanzhou, sob a acusação de que a empresa forneceria tecnologia ao Irã, inimigo de morte dos americanos. Um perigoso incidente diplomático. A Huawei é a maior fabricante mundial de equipamentos de telecomunicações. Por influência do governo Trump, que a acusa de fazer espionagem através de seus produtos, a empresa chinesa passou também a sofrer boicote da Google e da Apple. Por trás de tudo está a disputa pela implantação da nova tecnologia 5G, anunciada como um novo e revolucionário avanço na telecomunicação móvel. Os Estados Unidos estão atrasados nessa tecnologia.

A Europa e toda a comunidade internacional acompanham em suspense o desenrolar desta nova guerra fria entre dois polos de poder em busca de hegemonia. Uma guerra que decidirá quem vai mandar no mundo daqui para a frente.



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