Política

O novo velho continente e suas contradições: A desintegração e o futuro da Europa

Este é o quadro que ameaça provocar a desintegração da União Europeia e há muitos a dizer que ela já deixou de cumprir os seus objetivos. Encontra-se hoje despida da relevância que já teve, emparedada entre os Estados Unidos e a Rússia, enquanto assiste ao crescimento da importância da China. Destinada a reviver a violenta rivalidade que no passado os seus países protagonizaram construindo o caos

22/03/2021 09:49

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Depois de um tempo que já dura mais de um ano com a marca trágica dos milhares de mortes, sofrimento e dor, um tempo em que todos os países do mundo defrontaram-se com sua própria miséria, a Europa começa a pensar no seu futuro. No meio às incertezas mas na crença de que um grande projeto baseado na solidariedade, interdependência e busca da paz, como é o da União Europeia, ainda é capaz de vencer as dificuldades e mirar de novo o rumo do futuro.

As dificuldades não são apenas as advindas da crise sanitária pelo ataque de um vírus insidioso e mortal. A Europa quer projetar o seu futuro em meio a divisões internas como a do Brexit e a fissuras provocadas pela ascensão de projetos populistas originados na extrema direita, a crise dos refugiados, a emergência do racismo, as expressões de ódio e a negativa de alguns países em respeitar o estado democrático de direito, como é o caso da Hungria e da Polônia.

O continente europeu foi palco de duas guerras mundiais. O projeto de unidade teve como principal motivação evitar mais guerras entre países, abrindo mão de uma ideologia nacionalista que significava antes de tudo a disposição para o conflito. “O nacionalismo é a guerra”, disse François Miterrand numa das reuniões do grupo de países que vieram a formar a União Europeia.

Sucesso

A união da Europa trouxe paz, estabilidade e sucesso econômico, como resultado da cooperação, da tolerância e dos valores comuns. Estes valores, como também a noção de democracia e direitos humanos são relativamente recentes na história do velho continente, embora tenham existido muito antes em mais antigas civilizações islâmicas. Se o projeto da União Europeia entrar em colapso, voltará o tempo em que as grandes questões eram resolvidas em conflitos armados. Esta é a razão do esforço para construir um futuro que garanta melhores momentos a um continente cansado de tantos confrontos e que se vê hoje ameaçado por novas contradições geradas no ódio, na intolerância e nas crenças reacionárias ressuscitadas no criadouro fascista.



Este é o quadro que ameaça provocar a desintegração da União Europeia e há muitos a dizer que ela já deixou de cumprir os seus objetivos. Encontra-se hoje despida da relevância que já teve, emparedada entre os Estados Unidos e a Rússia, enquanto assiste ao crescimento da importância da China. Destinada a reviver a violenta rivalidade que no passado os seus países protagonizaram construindo o caos. E trazer intranquilidade nos países que possuem regiões separatistas como o Reino Unido, a Espanha, a Itália e a França.

Enquanto se enfraquecem os valores sobre os quais foi fundada a União Europeia, os movimentos neofascistas, neonazistas e racistas se fortalecem e crescem rapidamente. Nem todos os políticos possuem a sensatez de Angela Merkel e a maioria das lideranças políticas rendem-se a esses movimentos enquanto enfraquecem a democracia, os direitos humanos, o pluralismo e o estado de bem-estar social.

A visão do futuro

Antonio Costa, o primeiro-ministro de Portugal e presidente do Conselho da União Europeia no rodizio que vai até o próximo mês de junho, anunciou na semana passada a Conferência sobre o Futuro da Europa e convidou os cidadãos para discutir a direção que a UE deve tomar em questões cruciais, bem como sobre a sua configuração institucional. A cerimônia simbólica de lançamento será no próximo mês de maio, em Estrasburgo, e se prolongará até a primavera de 2022.

A conferência será realizada nos seus primeiros meses sob a presidência conjunta de Ursula von der Leyen, David Sassoli e António Costa, respectivamente presidente da Comissão Européia, presidente do Parlamento Europeu e presidente do Conselho da União Europeia, este último até final de junho, quando será substituído pelo primeiro-ministro da Eslovénia. O objetivo é que os seus resultados signifiquem a orientação e a opinião dos cidadãos da Europa quanto ao seu futuro. Serão, portanto, longas e complexas as discussões das agendas que vão ser propostas.



Está previsto ao final um plenário que deverá assegurar o debate das recomendações dos cidadãos, agrupadas por temas. A Comissão Europeia afirma que vai estabelecer um método capaz de garantir a transformação das propostas aprovadas em ações que darão forma ao futuro da Europa traçado pelos próprios europeus.

Pesquisa recente do Eurobarómetro revela que sessenta por cento dos europeus concordam que a pandemia da Covid-19 leva as pessoas a refletirem sobre o futuro. Trinta e cinco por cento desejam que no futuro os países da Europa tenham níveis de vida semelhantes, trinta por cento aspiram que haja uma solidariedade mais forte entre os países, vinte e cinco por cento querem uma política de saúde comum, e vinte e dois por cento um melhor padrão geral dos níveis de educação, iguais para todos os países do bloco.

As alterações climáticas, responsáveis atualmente pelas perdas anuais da ordem de 12 bilhões de euros, são vistas como o principal desafio a afetar o futuro, mais importante que o combate ao terrorismo e os riscos relacionados com a saúde.

Na cerimônia de lançamento da Conferência sobre o Futuro da Europa todos os líderes procuraram vender otimismo. A presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen disse querer ouvir todas as pessoas: "Todos nós temos sonhos quando pensamos no futuro da Europa", disse ela, acrescentando que o seu é o de uma Europa "líder num mundo de transição digital", que não deixe ninguém para trás, que defenda uma democracia "resiliente frente às informações falsas e à desinformação" e ainda "com uma voz forte na defesa da liberdade".

Von der Leyen disse ainda que é num tempo de crise como este que se poderá ver onde a Europa funciona e onde pode ser melhorada.

"Está em causa o nosso futuro e o futuro da nossa democracia, agora temos a oportunidade de redescobrir a alma do projeto europeu, devemos ouvir os cidadãos, construir a Europa de amanhã, para que seja verdadeiramente a Europa de todos", disse por seu lado o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli.

Já Antonio Costa, o primeiro ministro de Portugal e presidente do Conselho da União Europeia, declarou que a convocação da Conferência sobre o Futuro da Europa constitui uma mensagem de confiança e de esperança num momento de incerteza, angústia e medo. Ele não deixou de mencionar as divisões da Europa quando disse:

-“Sabemos que não temos todos a mesma visão sobre a Europa do futuro nem sobre o futuro da Europa, mas é precisamente por isso que a conferência sobre o futuro da Europa é um momento decisivo para podermos discutir, sem tabus mas com frontalidade, a diversidade das nossas visões”.



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