Política

O novo velho continente e suas contradições: A devastação

A pandemia que o mundo está a viver tem afetado também a saúde mental. O isolamento social acaba por provocar transtornos emocionais. O medo do vírus invisível, o distanciamento entre as pessoas, o estresse agudo, a compulsória mudança de rotina, tudo isto provoca tédio, raiva, desamparo e ansiedade. É uma experiência próxima da morte que pode levar à depressão, à síndrome de pânico e ao risco de suicídio

11/08/2020 14:31

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Há seis meses a humanidade está aprisionada em um clima de como se vivesse uma história de literatura de antecipação, nome pelo qual se denominam também os contos de ficção científica. As alterações foram profundas e surpreendentes na vida das populações de todos os países.

O mês de agosto, temporada das férias de verão na Europa, é a época de viagem das famílias a sustentar a vigorosa indústria do turismo do continente. Mas este ano agosto está paralisado na perplexidade e no medo de uma doença desconhecida, à espera de uma vacina ou remédios que possam trazer de novo a possibilidade da vida sem sobressaltos. A juventude se rebela e sai para festejar em grandes grupos o encontro nos pontos de acasalamento da movida da noite. E passa a ser acusada de espalhar a doença, transportar o vírus para as próprias casas e colocar os mais velhos em perigo de morte.

A manifestação neonazista

Como sempre acontece, as pessoas se dividem contra ou em apoio ao confinamento que se aponta como única forma de enfrentar a pandemia no momento em que ela se encontra. Há os que defendem a preservação da vida com os cuidados que os médicos recomendam e os que lutam pela retomada da atividade econômica, o que significa ignorar as ameaças e voltar a trabalhar, reunir-se e produzir a riqueza que já começou a faltar. São essas contraditórias visões do mundo que também começam a gerar conflitos.



Há poucos dias, milhares de pessoas protestaram em Berlim contra as restrições. Foram 500 mil, disseram os organizadores. A polícia calculou em 17 mil. “O fim da pandemia, dia da liberdade”, foi o nome dado à manifestação. E os manifestantes nomeados "pensadores livres", ativistas antivacinas e ativistas da extrema direita, entre eles diversas organizações neonazistas. Denunciaram o coronavírus como uma teoria de conspiração. Não respeitaram a distância recomendada nem máscaras foram usadas. Espera-se, portanto, em Berlim, o aumento na curva do número de pessoas infectadas.

O nome escolhido para a manifestação, "Dia da Liberdade", é o mesmo do título de um filme da diretora Leni Riefenstahl, a preferida de Adolf Hitler para documentar as atividades nazistas, sobre a convenção do seu partido em 1935.

As perdas

Desde a Segunda Guerra Mundial não havia tantas restrições à liberdade de locomoção. Enquanto afunda a atividade econômica. Companhias aéreas, fábricas, hotéis e restaurantes alertam que podem quebrar e muitos estão a fechar para não mais abrir. A ajuda de 750 bilhões de euros da União Europeia aos países mais afetados não será suficiente, dizem.

A zona do euro assinala uma perda de 15 por cento no PIB em comparação com o ano passado. O Produto Interno Bruto caiu 12,4% na Itália, 18,5% na Espanha, 13,8% na França, pouco mais de 10% na Alemanha e 16,5% em Portugal. No mundo financeiro capitalista, a perda de 1% é tradicionalmente visto como calamidade.

A Organização Internacional do Trabalho disse que a pandemia será responsável pelo desaparecimento de até 24,7 milhões de empregos em todo o mundo.

Danos psicológicos

A pandemia que o mundo está a viver tem afetado também a saúde mental. O isolamento social, segundo os médicos e os psicólogos, acaba por provocar transtornos emocionais. O medo do vírus invisível, o distanciamento entre as pessoas, o estresse agudo, a compulsória mudança de rotina, tudo isto provoca tédio, raiva, desamparo e ansiedade. Dizem os médicos que é uma experiência próxima da morte que pode levar à depressão, à síndrome de pânico e ao risco de suicídio.



O médico Jair de Jesus Mara, numa entrevista, lembrou que na depressão o indivíduo deixa de ter interesse pelas atividades de que gostava, é invadido por intensa tristeza, sente uma irritabilidade incontrolável, sensação de fadiga, desgaste emocional, insônia, pensamentos negativos e até ideias de que não vale a pena viver.

O vírus ainda está longe de desaparecer. O professor de epidemiologia da Universidade de Harvard, Marc Lipsitch, citado pela revista “The Atlantic”, afirma que nos próximos meses entre 40% a 70% da população mundial vai contrair o vírus que causa o Covid-19. Muitos vão morrer.

Ao comentar as limitações que os governos estão a impor, a jornalista Paula Ferreira advertiu no Jornal de Notícias, do Porto: “Ao contrário do apregoado por muitos, não sairemos melhores desta crise de saúde pública. Pelo contrário. Se nada fizermos, acordaremos num Mundo perigoso e totalitário. Já aconteceu outras vezes”.

O desafio

Para não encerrar este texto sob as nuvens negras e absolutas do pessimismo, reporto-me a outro texto, este da Amnistia Internacional Portugal (https://www.amnistia.pt/): É importante não cedermos ao medo ou perdermos a esperança. Estamos todos juntos neste desafio maior da nossa humanidade. Já existem exemplos surpreendentes de solidariedade no contexto desta crise – entre vizinhos, entre nações, entre amigos e entre estranhos. No meio de todo o medo temos visto a superação diária de tantas pessoas, desde os profissionais de saúde a todas aquelas pessoas que com a sua profissão mantêm os países a funcionar durante esta crise. Há muito para ter esperança e para conseguirmos fazer melhor no futuro.



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