Política

O novo velho continente e suas contradições: A face horrível

Há, em todos os países, entre eles os da culta Europa, a propagação de crenças para o enfrentamento de um fantasma ameaçador. Há o apego à convicção de que Deus é fundamental na luta contra a pandemia do coronavírus e a religião, mais uma vez, se prova inimiga dos homens. Pois as igrejas oportunistas alimentam-se do medo e da insegurança dos seus seguidores. E neles alicerçam vantagens financeiras e suas bases de poder político

22/04/2020 13:26

 

 
:: Leia mais: Especial 'O novo velho continente e suas contradições'

Em situações de crise, quando se extremam os sentimentos profundos, a humanidade revela a sua face verdadeira, normalmente oculta sob o disfarce social ou pelo verniz cultural. E a face revelada é a de uma espécie dominada pelo medo insano, preconceitos e na maioria das vezes pela ignorância ontológica. Na Grécia, os sacerdotes de hoje afirmam com o testemunho de Deus que a comunhão, onde todos os fiéis provam da mesma colher, não transmite o vírus da Covid-19. O Santo Sínodo grego emitiu um comunicado em que afirma que a comunhão é com o corpo de Deus e o corpo de Deus não tem vírus. O Bispo Serafeim, do Pireu, disse que as pessoas sem fé, elas sim, correm mesmo o risco de se infectar. O ex-vice ministro da coligação de esquerda Syriza, Pavlos Polakis, contradiz afirmando que “não se pode deixar que as pessoas bebam da mesma colher e dizer-lhes que não há perigo – isto é talibanismo cristão”.

No Brasil, as igrejas neopentecostais insistem em celebrar seus cultos para recolher os dízimos. Um oportunista que se auto intitula pastor, de nome Silas Malafaia e o notório Edir Macedo asseguram que os fiéis não devem se preocupar com o coronavírus porque eles estão protegidos pelo nome de Jesus e pela fé.

A utilização da fé e do medo

Há, em todos os países, entre eles os da culta Europa, a propagação de crenças para o enfrentamento de um fantasma ameaçador. Há o apego à convicção de que Deus é fundamental na luta contra a pandemia do coronavírus e a religião, mais uma vez, se prova inimiga dos homens. Pois as igrejas oportunistas alimentam-se do medo e da insegurança dos seus seguidores. E neles alicerçam vantagens financeiras e suas bases de poder político.



As igrejas neopentecostais tendem a crescer onde exista carência e sentimentos de solidão. Guiadas pelos cultos originários do Brasil e lideradas pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, elas estão a conquistar a Europa sob o lema de que este continente se tornou excessivamente materialista e que é preciso recristianizar a Europa. Outras igrejas com presença crescente identificam-se sugestivamente com os nomes de Deus é Amor, Renascer em Cristo, Mundial do Poder de Deus e Internacional da Graça de Deus, esta última pertencente a R.R. Soares, concorrente de Edir Macedo. Seu programa “Show da Fé”, produzido no Brasil e dublado em alemão, de uma hora de duração, sem interrupções comerciais, faz parte da programação, três vezes por semana, da Rhein Main TV – uma emissora regional emitida por satélite para toda a Europa. O diretor da estação, Stephan Seeländer, diz que está satisfeito com a audiência do programa, que tem tendência de crescimento. Os pedidos de doação são de 30, 50 e 100 euros.

 Depois de uma tentativa fracassada em Stuttgart há cerca de cinco anos, a Universal de Edir Macedo abriu sede em Berlim, onde há grande número de brasileiros. Hoje, tem templos em Munique, Hamburgo, Colônia, Würzburg e está de volta a Stuttgart. Os cultos são diários e temáticos: no domingo, por exemplo, as orações são dirigidas ao "fortalecimento e reavivamento da fé", na segunda-feira, "pela prosperidade financeira" e, na terça-feira, é o "dia do descarrego".

A Assembléia de Deus visa os imigrantes brasileiros. Há 15 anos no país, o presidente Everaldo Lopes é um dos mais antigos pastores evangélicos do Brasil a pregar na Alemanha. Ele e seu irmão Dionísio encarregam-se dos cultos em Mülldorf, Regensburg, Landshut, Mannheim e Ingolstadt, onde fica a atual sede da Assembléia – uma sala alugada onde cabem 200 pessoas sentadas.

Há um fluxo de pastores missionários vindos do Brasil que trabalham prioritariamente o seu primeiro público alvo: as comunidades de imigrantes latinos, africanos e orientais. Pessoas carentes, solitárias num país estrangeiro.



A salvação pelo divino

O medo destrói empatias e ouvem-se palavras agressivas aos velhos que ousam sair à rua em tempo de quarentena, invocação de divindades estranhas e, acima de tudo, o medo. Demonstrações de solidariedade procuram afirmar-se para enfrentar o medo, mas o medo acaba por dominar a frágil natureza humana.

No Irã, os santuários permanecem abertos e os peregrinos beijam um após os outros os locais santos com a forte crença de que a fé os protege. Trezentas pessoas morreram após beberem metanol por acreditarem que o álcool as protegeria. Em todo o mundo as pessoas procuram a salvação pela forte crença no divino. Em Israel, o primeiro ministro recomendou que os locais públicos fossem desinfetados pelas crianças, porque “elas não são, graças a Deus, afetadas pela doença.”

Notícias falsas, as fake news, são constantemente veiculadas principalmente via internet, repositório ideal para este tipo de falsificação, como é o caso da notícia espalhada por redes sociais de que produtos importados da China podem estar contaminados ou que o vírus pode ser também transmitido pela picada de mosquito.

Num mundo que acredita que as vacinas causam autismo nas crianças ou em que alguns chegam ao absurdo de afirmar que a Terra é plana, surgem rumores de que o coronavírus foi criado em laboratório com o único objetivo de reduzir a população do mundo. E há quem atribua a pandemia a uma arma utilizada no confronto geopolítico entre os Estados Unidos e a China.

“Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão”. A frase é do poeta alemão Friedrich Schiller.



Conteúdo Relacionado