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O novo velho continente e suas contradições: A força da segunda onda na Europa. Notícias do front

Os jovens estão cansados, as crianças impacientes, enquanto paradoxalmente cresce a quantidade de negacionistas, aqueles que se recusam a confiar nas medidas de combate ao contágio e não acreditam na efetividade das vacinas que estão por chegar. Entre os efeitos do vírus encontra-se a revelação da enorme insensatez que ataca a humanidade em seus mais dramáticos momentos

27/10/2020 10:33

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Aproxima-se o gelado inverno europeu, a esta altura já anunciado por um outono frio e chuvoso. Ao mesmo tempo em que o vírus da pandemia, aparentemente sem controle, ataca numa segunda onda que parece mais rigorosa do que foi nos primeiros dias. Já são mais de 6 milhões o número de infecções na Europa contabilizando mais de 200 mil mortes.

Foram oito mil mortos em apenas sete dias. É o pior balanço da tragédia na Europa em uma única semana.

 Irlanda e País de Gales foram os primeiros a decretar um novo confinamento total da população. As pessoas só podem sair de casa para trabalhar ou estudar. Os pubs irlandeses permanecem fechados, o que traz uma atmosfera depressiva a cidades como Dublin, Bray e Cork, acostumadas a brindar nos bares a alegria da vida, hoje apenas uma lembrança. As proibições vão permanecer até o princípio de dezembro, dizem as autoridades. 2020 tem sido um ano difícil e ainda não chegou ao fim.



Cresce a inquietação, principalmente das crianças e dos jovens. Eles não se acostumam a viver em solidão e por isso foram tantas as transgressões às normas de segurança quando as restrições foram aliviadas. Os bares se encheram, as reuniões tomaram as ruas, o que veio a provocar novas infecções. Muitos são os que culpam aquelas comemorações pela força desta segunda onda.

A velocidade do vírus

Na França, que alcançou esta semana o recorde de 50 mil novos casos por dia, continua s subir o número de contágios. E das hospitalizações, em consequência, aumentando a incidência dos internados nas unidades de cuidados intensivos e nos abrigos de idosos, enquanto novos focos continuam a ser identificados. A rápida circulação do vírus nesta segunda fase obrigou a um toque de recolher entre as 21 e as 6 horas nas maiores áreas metropolitanas. Oitenta e oito dos 101 departamentos das unidades administrativas da França foram declarados em estado de vulnerabilidade. É muito rápida a velocidade de circulação do vírus, alertam as autoridades.

Outro caso soma mais um motivo para a tristeza da França. A decapitação do professor Samuel Paty na região de Paris por um jihadista de origem chechena. A extrema direita vai explorar este crime à exaustão para mais uma campanha contra os imigrantes. Principalmente os de origem árabe.

Com o terceiro número de mortes na trágica estatística do coronavírus, na Bélgica multiplicam-se as filas para fazer o teste. O país está em toque de recolher obrigatório entre a meia noite e as cinco horas da manhã. A bater recordes de infecções. Na Eslovênia os testes revelaram que vinte por cento da população são positivos.

Multiplicam-se as restrições em todos os países do Continente.

Hungria, Bulgária, Rússia e Croácia também apresentam seus recordes.



Até mesmo a Suécia, saudada por causa da política não ortodoxa com que viveu até agora a pandemia, com um grau único de liberdade de movimentos, descrente do confinamento como medida preventiva, acaba de anunciar medidas restritivas que de agora em diante serão adotadas.

Na Espanha, que ultrapassou o milhão de casos na semana passada, foi decretado o toque de recolher obrigatório em todo o país e a cidade de Burgos e toda a região da Navarra foram isoladas. A comissária da Saúde da União Europeia, Stella Kyriakides, apelou aos 27 países membros a fazerem o necessário para evitar o confinamento generalizado.

Catástrofe global

Uso de máscaras, distanciamento social, limpeza e desinfecção dos ambientes, lavar as mãos, são todas medidas que reduzem de 80 a 90 por cento o contágio mas, tal como um queijo suíço, dizem os especialistas, apresentam sempre alguma imperfeição que permite a passagem do vírus.

“A atual pandemia mostra, acima de tudo, que vivemos num só mundo, um mundo em que tudo está ligado, um mundo em que aquilo que acontece do outro lado do planeta acaba sempre por nos afetar”, disse num vídeo o Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza. E acrescentou que talvez este vírus ensine ao mundo que a destruição de uma árvore num continente, que um incêndio florestal noutro, que os gazes produzidos pelo consumo de combustíveis fósseis têm efeitos para todos nós, para a humanidade inteira. Talvez com ela, enfatizou, ganhemos consciência do que é uma catástrofe em escala global.

Com a curva de contágios em ascensão, Portugal encontra-se em estado de calamidade.

A Itália determinou o fechamento de bares e restaurantes a partir das 18 horas.

O conselheiro científico do governo britânico John Edmunds disse que a segunda vaga de Covid-19 pode causar a morte de dezenas de milhares de pessoas apenas no Reino Unido. A causa desta previsão pessimista, segundo afirmou, é o fracasso do governo de Londres em conter o avanço do vírus. Ele assegura que, sem medidas mais restritivas, os britânicos vão ter números avassaladores de infectados e que esse volume de doentes vai colocar uma alta pressão no serviço nacional de saúde britânico (NHS na sigla original), o que pode dar origem a uma "tragédia" sanitária. "Se olharem para o ponto em que estamos atualmente, não há uma única forma para sairmos desta vaga sem contarmos as mortes às dezenas de milhares", disse o epidemiologista ao comité da Casa dos Comuns encarregado da ciência e saúde. Um aumento no número de casos está previsto para a época de Natal e Ano Novo.



Com mais de 400 mil infecções confirmadas e contabilizando mais de dez mil mortes, a Alemanha diz que está a viver recordes de novos casos. Os chefes de governo dos 16 estados federais reuniram-se com a chanceler Angela Merkel para coordenar novas medidas para enfrentar o agravamento da pandemia. As novas restrições determinam o fechamento de bares e restaurantes a partir das 23 horas e a proibição de os hotéis receberem hóspedes que vierem das áreas consideradas de risco.

Os jovens estão cansados, as crianças impacientes, enquanto paradoxalmente cresce a quantidade de negacionistas, aqueles que se recusam a confiar nas medidas de combate ao contágio e não acreditam na efetividade das vacinas que estão por chegar. Entre os efeitos do vírus encontra-se a revelação da enorme insensatez que ataca a humanidade em seus mais dramáticos momentos.



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