Política

O novo velho continente e suas contradições: A implosão da imagem

 

26/04/2021 10:33

 

 
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Agrava-se a cada dia a crise política, cresce o militarismo assustador, são pronunciados discursos ameaçadores e autoritários. A moeda desvalorizou-se 30 por cento nos meses recentes, os investidores retiraram do país 32 bilhões de dólares em aplicações financeiras e os investimentos estrangeiros diretos, que significam interesses duradouros no país, tiveram queda de 40%. A agência Fitch rebaixou para negativa a perspectiva da nota de crédito do país.

As agressões ao meio ambiente são patrocinadas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente enquanto cresce o desmatamento da Amazônia e são violentados os direitos dos indígenas e dos quilombolas.

São estas as notícias que chegam do Brasil.

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Na pequena aldeia do Norte de Portugal entrei no café e pedi um copo de vinho verde. O homem que bebia apoiado no balcão perguntou se eu era do Brasil. Diante da resposta afirmativa emendou “o país mais corrupto do mundo!” Embora surpreso, tive presença de espírito para responder “aprendemos com os portugueses. Somos bons alunos”. Os que estavam em volta riram um pouco desajeitados. Depois desse estranho diálogo, trocamos algumas palavras mais cordiais e segui viagem. Mas enquanto dirigia pela bem construída estrada eu levava comigo um travo amargo que não era do generoso vinho verde do Minho. Pensava que aquelas palavras do homem no balcão do bar da pequena aldeia resumiam a reputação do meu país no imaginário do povo do Portugal profundo. E o mesmo deveria ocorrer em outros países europeus.

Foi um pouco antes do início da pandemia.

Sabemos os brasileiros que a imagem do Brasil está gravemente deteriorada e o desastre começou com a posse do atual governo. A Europa e o mundo nos olharam por alguns anos a partir de 2003 com admiração pelas transformações operadas no país. O combate à pobreza, a política ambiental e o comportamento geral do país trouxeram-lhe sem dúvida certo respeito internacional. Os estereótipos de carnaval, música e futebol foram ampliados por percepções ligadas ao bem estar social e a políticas voltadas para educação, saúde e lazer. Percebia-se na Europa em relação ao Brasil um certo encantamento, admiração e respeito. O retrocesso e os desastres dos últimos tempos, no entanto, trouxeram à lembrança o mantra atribuído a Claude Levi-Strauss. O Brasil passou da barbárie à decadência sem ter conhecido o apogeu.



Notícias do Brasil

O que a Europa sabe hoje do Brasil é que a matança policial atinge patamares absurdos. No ano passado foram mais de sete mil as vítimas mortais nas mãos da polícia e desse número oitenta por cento contam-se entre os pobres e os pretos. A violência é assinalada pela liberação e o incentivo de armas nas mãos da população como política de governo. No ano passado ocorreram um pouco mais de 32 mil homicídios no país. Segundo a Organização Mundial da Saúde, somos o que possui o maior índice de morte por armas de fogo.

O país está isolado pela tragédia humanitária que representa a liderança mundial nas mortes diárias por Covid-19. Os países civilizados enfrentam o dramático surto com medidas duras de confinamento enquanto no Brasil destacam-se a improvisação, a descrença na ciência e a negação quanto à gravidade de um enorme problema. Até agora são contadas quase 400 mil mortes enquanto nos hospitais fazem-se intubações traqueais a frio pela falta de medicamentos para este procedimento.

Agrava-se a cada dia a crise política, cresce o militarismo assustador, são pronunciados discursos ameaçadores e autoritários. A moeda desvalorizou-se 30 por cento nos meses recentes, os investidores retiraram do país 32 bilhões de dólares em aplicações financeiras e os investimentos estrangeiros diretos, que significam interesses duradouros no país, tiveram queda de 40%. A agência Fitch rebaixou para negativa a perspectiva da nota de crédito do país.

As agressões ao meio ambiente são patrocinadas pelo próprio Ministério do Meio Ambiente enquanto cresce o desmatamento da Amazônia e são violentados os direitos dos indígenas e dos quilombolas.

São estas as notícias que chegam do Brasil.

Um acordo em perigo

Foram vinte anos de negociações até ser anunciado com fanfarras pelo governo brasileiro, em junho de 2019, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Para entrar em vigor, o tratado precisa da aprovação dos 27 Estados-membros europeus mas a França, Áustria, Bélgica, Irlanda e Luxemburgo não pretendem dar o seu aval. A Alemanha já comunicou que tem dúvidas se vai ou não aprovar.



A principal causa dessa posição da Europa é o desmatamento da Amazônia, que aumentou desde a assinatura do tratado. Não existe também no Brasil nenhum mecanismo de proteção ambiental, dizem os deputados do Parlamento Europeu. O vice-chanceler da Áustria, Werner Kogler, enviou uma carta ao Primeiro Ministro de Portugal, Antônio Costa, atualmente na presidência rotativa da União Europeia, em que afirma: "O acordo com o Mercosul é contrário aos nossos esforços para responder à crise econômica de uma maneira compatível às ambições e aos compromissos ambientais e climáticos, não construindo um sistema econômico mais resiliente".

O vice-chanceler austríaco sublinha em sua carta que os vastos incêndios florestais na Amazônia, considerada o pulmão do planeta, vão aumentar o aquecimento global. Os impactos na biodiversidade, nos ecossistemas e nos recursos naturais conduzem o mundo para uma catástrofe climática. Kogler enfatiza que a União Europeia tem um papel fundamental “em nome das gerações futuras”.

O acordo Mercosul-União Europeia criaria uma das maiores áreas de comércio livre do mundo integrando um mercado de 780 milhões de habitantes. Prevê a adoção dos mais altos padrões de segurança dos alimentos e proteção dos consumidores. Seriam eliminados impostos e direitos aduaneiros de centenas de produtos tecnológicos, alimentos, vestuário, metalurgia, automóveis e diversos outros, com geração de empregos, investimentos, renda e desenvolvimento. Tornando esses produtos bem mais baratos.

Diversos estudos e pesquisas realizados junto a consumidores têm demonstrado como a origem dos produtos ganha cada vez mais importância como fator de decisão de compra por parte dos consumidores. O respeito ao meio ambiente é um dos pontos principais levados em consideração. Neste capítulo o Brasil se vê a cada dia mais prejudicado na Europa pelas percepções transmitidas por cada fala do seu Presidente e dos seus ministros, ampliada pela imprensa internacional, cada vez mais descrente quanto à confiabilidade de um país que há pouco era considerado na coluna de crédito da esperança no futuro. E que resolveu implodir a própria imagem.

Celso Japiassu
celso.japiassu@gmail.com

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