Política

O novo velho continente e suas contradições: A pandemia e o colapso da direita

Graças à pandemia (e este 'graças' não significa prazer pela sua ocorrência), assiste-se agora na Europa a uma realidade um pouco diferente de antes: a direita política perde força e influência por suas posições no mínimo ambíguas em relação ao vírus em praticamente todos os países.

09/06/2020 14:36

 

 
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Quando Lula disse em sua conta no Twitter que a pandemia do coronavirus deixou o capitalismo a nu e que o sistema econômico está morto, seus inimigos e adversários políticos distorceram a sua frase. Espalharam na mídia cúmplice que ele havia saudado a doença, como se tivesse alguma alegria com a tragédia. Lula viu-se obrigado a explicar o que disse e esclarecer o que devia estar claro desde o princípio: “A tragédia do coronavírus expôs à luz do sol uma verdade inquestionável: o que sustenta o capitalismo não é o capital, somos nós, os trabalhadores”.

Graças à pandemia (e este graças não significa prazer pela sua ocorrência), assiste-se agora na Europa a uma realidade um pouco diferente de antes: a direita política perde força e influência por suas posições no mínimo ambíguas em relação ao vírus em praticamente todos os países. O Partido da Esquerda Europeia (european-left.org) tem agitado o debate e, através do seu presidente, o alemão Heinz Bierbaum, afirmou que os planos de recuperação até agora apresentados negligenciam os trabalhadores. Ele é também o encarregado das relações internacionais do Die Linke, o maior partido de esquerda da Alemanha. Diz que a pandemia mostrou que são os trabalhadores que sustentam a economia e fazem-na andar mas são relegados ao fim da linha na hierarquia dos ganhos salariais. O plano de investimento de 500 bilhões de euros, anunciado por França e Alemanha para a recuperação da Europa, segundo Bierbaum, foi formulado para ajudar aos ricos e suas empresas mas esquece os trabalhadores.



Os 500 bilhões

De qualquer forma, 500 bilhões de euros não são suficientes para o enfrentamento da crise que virá, diz a Esquerda Europeia. O Banco Central Europeu deveria ser o instrumento para garantir os recursos necessários para ultrapassar com sucesso o momento difícil e dar suporte ao povo para vencer a emergência sanitária e suas consequências. Não só o Banco europeu mas também os bancos nacionais dos diversos países deveriam ser mobilizados para investimentos maiores nos serviços sociais e na proteção das populações. É preocupante a prioridade que se dá às empresas capitalistas em detrimento dos trabalhadores.

A pandemia mostrou com clareza, diz o presidente do Partido da Esquerda Europeia, que o mundo capitalista voltado exclusivamente para o lucro não está habilitado a lidar com uma crise sanitária de escala global. O fundo proposto pela União Europeia está destinado a resolver os problemas do capitalismo o mais rapidamente possível. O que o mundo precisa, no entanto, é do bem estar social e da saúde pública como prioridades.

Para garantir o futuro das novas gerações, precisamos de um “Green New Deal” orientado para a sociedade e não para o lucro capitalista. O partido enfatiza a necessidade de uma nova política industrial com novos conceitos de energia e mobilidade, o que significa uma política com a participação direta dos trabalhadores.



Crise na direita

Os partidos conservadores de direita mostraram dificuldade em propor algum plano de ação diante da pandemia. Pelo contrário, assim como fez o notório e nefasto presidente do Brasil, tentaram negar a doença, condenaram o confinamento e as recomendações de evitar o contato social e defenderam remédios milagrosos sem qualquer base científica. O objetivo era proteger as relações capitalistas de produção mesmo a troco da vida dos trabalhadores.

Segundo a Fundação Jean-Jaurés, da França, no relatório de um estudo que conduziu, os partidos de direita fracassaram na elaboração de respostas legítimas à crise sanitária. O que fizeram foi condenar os governos e se colocarem contra as medidas indicadas ao enfrentamento da pandemia. Criaram teorias de conspiração e não conseguiram, embora no princípio o tentassem, acusar os imigrantes e refugiados pelo rápido contagio que este novo vírus apresentou. A doença espalhou-se sem qualquer relação com os fluxos migratórios no território da Europa.

A direita tenta de alguma forma responsabilizar os governos. Mas não estão a obter sucesso nesse esforço. Na Alemanha, o partido neofascista Alternativa para a Alemanha (Alternative für Deutschland-AfD) apresenta a mais baixa popularidade dos últimos anos. Na Austria, os ataques do extremista FPÖ (Freiheitliche Partei Österreichs-Partido da Liberdade da Austria) ao governo não surtiram efeito. Apresenta hoje 10% da preferencia dos eleitores contra os 26% que obteve nas eleições legislativas de 2017.

Na Espanha, que não foi tão competente quanto Portugal na administração da crise, o neofascista Vox acusa o governo socialista de fazer uso da pandemia para instalar um regime autoritário. Mas as pesquisas apontam para um forte declínio do Vox, depois de ter crescido assustadoramente nas últimas eleições ao Parlamento.



Na França, os ataques da Frente Nacional (Front Nationale) de Marine Le Pen, que acusa o governo de mentir sobre tudo no que se refere à pandemia, não obtiveram repercussão e acabaram por desacreditar o partido. No Reino Unido, a extrema direita liderada por Nigel Farage está calada, apesar da condução confusa das medidas contra a crise tomadas pelo governo de Boris Johnson.

No âmbito das mudanças que esta pandemia acaba por provocar, as empresas parecem seduzidas com o teletrabalho. A ênfase nos perigos da doença destinar-se-ia, então, a manter as pessoas em casa para controlar a contestação social que o povo nas ruas pode promover. A direita espreita e acompanha à espera de oportunidades.



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