Política

O novo velho continente e suas contradições: A pobreza é o novo fantasma que ronda a Europa

 

17/05/2021 10:24

 

 
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Na milionária Alemanha, onde mais de 13 milhões de pessoas vivem em estado de necessidade, o governo anunciou que vai publicar um relatório revelando que a pandemia acentuará a desigualdade no país. O Instituto de Pesquisa Econômica da Alemanha registra que quase 900 mil empregos de tempo parcial, com salário em torno de 450 euros, desapareceram desde o ano passado.
A ‘Paritätischer Wohlfahrtsverband’ (Associação de Paridade e Bem-Estar) acredita que a pandemia de covid-19 tem aumentado a fortuna dos ricos tanto quanto a privação dos pobres, enquanto a classe média, espremida, diminui.

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O Manifesto Comunista de Marx e Engels, que veio a público em 1848, abria com a célebre sentença “Um fantasma ronda a Europa - o fantasma do comunismo”. Cento e setenta e três anos depois, um outro fantasma assusta o velho continente: o fantasma da pobreza.

A polícia de Paris considera “uma praga” as levas de adolescentes romenos que se organizam em grupos para assaltar nos trens do metrô e, antes da pandemia, nos locais turísticos da cidade. Eles entram e saem da França com a facilidade que lhes proporciona o passaporte de cidadãos europeus. Enquanto isso os trabalhadores búlgaros, albaneses, sérvios, macedônios, são exportados para fazerem o duro trabalho de campo na agricultura por salários miseráveis nos países ricos. São estes apenas exemplos da atual realidade europeia, que se revela em tons mais dramáticos a partir dos antigos países socialistas do Leste do continente. A entrada súbita no neoliberalismo imposto com a queda do regime anterior provocou trauma, pobreza e a impiedosa exploração dos seus povos.

Mas os reflexos da situação de carência das famílias não são exclusivos da Europa Oriental. Na milionária Alemanha, onde mais de 13 milhões de pessoas vivem em estado de necessidade, o governo anunciou que vai publicar um relatório revelando que a pandemia vai acentuar a desigualdade no país. O Instituto de Pesquisa Econômica da Alemanha registra que quase 900 mil empregos de tempo parcial, com salário em torno de 450 euros, desapareceram desde o ano passado. A Paritätischer Wohlfahrtsverband (Associação de Paridade e Bem-Estar) acredita que a pandemia de covid-19 tem aumentado a fortuna dos ricos tanto quanto a privação dos pobres, enquanto a classe média, espremida, diminui.



Reino Unido, Bélgica, França, Espanha

No Reino Unido, de acordo com a Fundação Joseph Rowntree, antes da pandemia já haviam14,5 milhões de pessoas em quase indigência, o que equivaleria a mais de 20% da sua população. A demissão dos empregos, redução dos salários e a inflação provocadas pela pandemia conduziram a essa mesma situação em torno de 700 mil pessoas, diz o Instituto Legatum, sediado em Londres.

Na Bélgica, uma pesquisa do instituto de estatística Stabel revela que uma entre quatro pessoas não dispõe de dinheiro para fazer face a uma despesa imprevista e na Espanha organizações não-governamentais afirmam que a covid-19 está a aumentar as desigualdades entre ricos e pobres, além do aumento do número de pessoas sem meios de subsistência.

Na França, tem crescido a taxa de desemprego que anda em torno de 10 por cento. Mais de 10 milhões de pessoas recorreram ao programa de desemprego parcial, criado para evitar demissões durante a pandemia. A falta de empregos também tem aumentado provocada pelo surgimento de novas tecnologias nos meios de produção, o que os economistas chamam de desemprego estrutural. Além da migração de empresas para os países do Leste Europeu, onde é mais barata a mão de obra. Mesmo com o salário mínimo integral de 1.219 euros, uma única pessoa tem dificuldade de viver acima do limiar da pobreza. No ano passado, a pandemia teria criado na França mais de um milhão de pobres.

A ONG Cáritas Espanha revelou que cada vez mais famílias sem qualquer rendimento são afetadas pela exclusão social e contabiliza quase 900 mil pessoas, em estado de pobreza grave, que são por ela assistidas. Com 47 milhões de habitantes, a Espanha vê a pobreza severa vitimando 5,1 milhões de pessoas.

O maior desemprego na Europa é o da Bósnia-Herzegóvina, com quase 34 por cento da sua força de trabalho. O menor é o da desenvolvida Bielorússia, também chamada Belarus, com 0,2 por cento.

Escravidão e Semiescravidão

Na semana passada, em matéria com o título de “Os boias frias da Europa”, procurei mostrar as condições de semiescravidão em que vivem trabalhadores migrantes na Europa (https://tinyurl.com/3shky737). A exploração de que são vítimas acentua as condições de miséria no continente e a Cáritas aborda o assunto ao notar que no setor agrícola espanhol e italiano, onde são recrutados informalmente, esses trabalhadores são altamente vulneráveis à exploração no trabalho, muitas vezes vivendo em condições altamente precárias e com acesso limitado ou inexistente a sistemas de segurança social.



Em Portugal, com a falta de trabalhadores nacionais, aumentou a dependência de mão de obra imigrante para a produção de azeite, frutos vermelhos e vinho. As vítimas de tráfico humano promovido por quadrilhas organizadas têm se multiplicado nos últimos anos. As vítimas são aprisionadas em explorações agrícolas e exploradas sem remuneração ou com salários miseráveis. O próprio presidente Marcelo Rebelo de Souza denunciou a existência de crime nessa atividade e as autoridades determinaram investigações policiais.

O tráfico de seres humanos chega a quantidades inimagináveis no capítulo dos refugiados e migrantes que atravessam o Mediterrâneo em busca de abrigo nos países europeus. Na semana passada, em menos de 24 horas chegaram a Lampedusa, na Itália, um total de vinte embarcações transportando quase 2500 pessoas que foram resgatadas pela Capitania do porto e pela Guarda Costeira.

Na noite de domingo, foram resgatadas 635 pessoas a bordo de quatro embarcações. Nesta mesma noite, a 14 quilômetros da costa, foram salvas do naufrágio de um barco de pesca 352 refugiados que se arriscaram na travessia. Vindos da África e do Oriente Médio, fugidos da miséria e da violência das guerras, quase 3 milhões de refugiados vivem hoje na Europa na busca de sobrevivência.

Em 7 e 8 deste mês de maio, na Cimeira Social do Porto, a União Europeia reafirmou os princípios do Pilar Europeu dos Direitos Sociais, anunciados em 2017, em Gotemburgo, na Suécia. São compromissos assumidos pelos 27 países para enfrentar a pobreza. As metas pretendem garantir emprego para pelo menos 78% da população ativa, reduzir em 50% as desigualdades de gênero, garantir que, pelo menos, 60% da população adulta participem em ações de formação e que 80% da população tenham competências digitais. Além disso, reduzir em 15 milhões o número de pessoas em risco de pobreza. São objetivos que, segundo a declaração do Conselho da União Europeia, exigem esforço coletivo dos países-membros para se chegar a mais e melhores empregos, erradicação da pobreza, combater toda espécie de discriminação e promover a inclusão social das populações marginalizadas.

Essas metas visam preparar as pessoas para as profundas alterações sociais que as mudanças climáticas vão trazer junto com a digitalização, a globalização e o declínio demográfico. Levará tempo. O futuro dirá se foi ou não mais uma utopia a ser desconstruída pela ação coordenada da extrema direita que cresce no continente. Os agrupamentos radicais extremos e reacionários que outorgaram a si mesmos a tarefa de combater o estado de bem-estar social. E também de rejeitar os imigrantes, expulsar os asilados e perseguir minorias. Pretendem consolidar o domínio sobre populações submetidas e exploradas pelos interesses do capitalismo numa sociedade hierarquizada, elitista e divergente de toda a dignidade humana.

Celso Japiassu
celso.japiassu@gmail.com



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