Política

O novo velho continente e suas contradições: A reconstrução da Europa e a reação neofascista

 

01/12/2020 10:08

Manifestação do partido de extrema direita sueco SD (Democratas Suecos) (Reprodução/BBC)

Créditos da foto: Manifestação do partido de extrema direita sueco SD (Democratas Suecos) (Reprodução/BBC)

 
O atual impasse, gerado pela oposição de três países à exigência do estado de direito para fazer parte do Plano de Reconstrução da Europa, representa mais uma ameaça da extrema direita e do neofascismo sobre todo o continente. Do Leste europeu até à França, governos e partidos de direita que aspiram ao poder mobilizam-se pela radicalização ideológica reacionária e opõem-se até mesmo à existência da própria União Europeia.

Esse crescimento do populismo nacionalista de direita não era presenciado na Europa desde os anos 1930, depois do desastre que representou o fracasso do nazifascismo na Alemanha e na Itália e que levara o mundo a uma guerra insana.

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Os governos de extrema direita da Hungria e da Polônia, seguidos pela Eslovênia, bloquearam o Plano de Recuperação e Resiliência da Europa. Junto aos recursos do orçamento plurianual, a União Europeia pretende resgatar o continente dos efeitos econômicos da epidemia do coronavírus. O plano exige que, para participar do fundo de 2,8 bilhões de euros, os países que a ele se candidatarem devem respeitar o estado de direito. Os três países estão contra esta exigência. Opõem-se, portanto, ao estado de direito pelo menos dentro de suas fronteiras. O Plano de Recuperação, para ter validade, precisa da aprovação unanime dos 27 países membros da UE.

Extremo nacionalismo é um componente essencial da ideologia dos regimes fascistas. Embora tenham dado aceite aos pressupostos jurídicos para fazer parte da União Europeia, Hungria, Polônia e Eslovênia invocam agora seu direito à autodeterminação para recusarem o estado de direito. A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, já respondeu que, se algum país se colocar contrário a algum dispositivo do estatuto europeu, deve propor a sua alteração diante das comissões jurídicas do parlamento. Mas não deve deixar sem resposta milhões de pessoas por todos os países que lutam para superar a crise atual.

Estado Democrático de Direito, por sua definição, baseia-se na soberania de um povo, na coexistência de pensamentos diferentes, na democracia, na interdependência dos poderes e no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais. O neonazifascismo é contra tudo isto e por essa razão aqueles três países negam seu apoio ao plano de recuperação, cuja importância já o fez ser comparado ao Plano Marshall, que salvou o continente da miséria após a Segunda Guerra Mundial.

Viktor Orbán

A reação neonazifascista

Hungria, Polônia e Eslovênia são liderados por Viktor Orbán, Mateusz Morawiecki e Janez Jansa, respectivamente. Todos originários de partidos de extrema direita, ultranacionalistas, xenófobos e contrários à existência da União Europeia.

Orbán chegou ao poder pelo partido neofascista Fidesz, que ele próprio criou e domina. Exerceu o cargo de Primeiro Ministro de 1998 a 2002 e, agora, desde 2010. Conseguiu reformas na constituição da Hungria que lhe conferem, na prática, amplos poderes. Conseguiu enfraquecer as instituições democráticas censurando a imprensa e atacando opositores. Também adepto das fake news, tornou-se amigo de Jair Bolsonaro, em cuja posse esteve presente.

Ex-presidente do Banco Santander na Polonia, o atual Primeiro Ministro do país, Mateusz Morawiecki, emergiu das finanças para a política através da sua militância em movimentos anticomunistas. Junto com o presidente Andrzej Duda, de credo político também ultra conservador, conduz o país dentro de uma estrita política ideológica defendida pelo seu partido radical de direita Lei e Justiça, em polaco Prawo i Sprawiedliwo%u05B%u007, PiS.

O atual governo da Eslovênia, liderado por Janez Jansa, assumiu o poder depois de uma campanha financiada pela Hungria, o que explica em parte a posição que assume em face das decisões da União Europeia. A Associação dos Jornalistas da Eslovênia (DNS) tem denunciado ataques do governo aos jornalistas. A exemplo do que foi praticado por Viktor Orbán na Hungria, Jansa tem se aproveitado da pandemia para fazer aprovar no parlamento leis que lhe deram poderes extraordinários e sufocam a democracia. A secretária-geral da DNS, Spela Stare, diz que alguns jornalistas são alvo de ameaças e ataques difamatórios por parte do primeiro-ministro enquanto a mídia que dá apoio ao Partido Democrata Esloveno (SDS), " são financiados generosamente por dinheiro de empresas húngaras."

Mateusz Morawiecki

Jansa tem o apelido de "príncipe das trevas” e lidera uma frágil coalizão de quatro partidos, que controla 48 dos 90 assentos do Parlamento. A Eslovênia é uma pequena república com cerca de 2 milhões de habitantes. Tem oito deputados no Parlamento Europeu.

O impasse

O atual impasse, gerado pela oposição de três países à exigência do estado de direito para fazer parte do Plano de Reconstrução da Europa, representa mais uma ameaça da extrema direita e do neofascismo sobre todo o continente. Do Leste europeu até à França, governos e partidos de direita que aspiram ao poder mobilizam-se pela radicalização ideológica reacionária e opõem-se até mesmo à existência da própria União Europeia.

Janez Jansa

Esse crescimento do populismo nacionalista de direita não era presenciado na Europa desde os anos 1930, depois do desastre que representou o fracasso do nazifascismo na Alemanha e na Itália e que levara o mundo a uma guerra insana.

Na Europa de hoje a extrema direita já conta com 10 a 15 por cento dos eleitores em vários países e nos casos da França, Inglaterra e Dinamarca tem garantidos de 25 a 30 por cento dos votos. Sua influência, no entanto, é maior do que seu eleitorado porque exerce atração sobre a direita clássica. Uma parte da esquerda social democrata tem também se deixado levar pela propaganda extremista de direita em cada eleição.

São variados os matizes da direita na Europa atual. Desde os partidos claramente neonazistas, como o grego Aurora Dourada, até as siglas integradas ajustadamente ao jogo político, a exemplo da suíça UDC. O que há em comum entre eles são o nacionalismo extremado, xenofobia, racismo, ódio aos imigrantes e aos ciganos, a islamofobia e o anticomunismo. Em muitos casos incidem também o antissemitismo, homofobia, misoginia, autoritarismo, desprezo pela democracia e a eurofobia. Nem todos são ardorosos defensores do neoliberalismo.



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