Política

O novo velho continente e suas contradições: A separação e as ameaças

 

04/02/2020 11:11

 

 
O divórcio

Em 31 de janeiro foi resolvido o impasse do Brexit. Metade dos ingleses comemorou, a outra metade, não. A nação continuará portanto dividida e apaga-se uma estrela na bandeira da União Europeia. E a Escócia deverá decidir por um plebiscito se fica ou sai. As formalidades de adaptação vão durar até o fim do ano e há, no Reino Unido, uma certa sensação de insegurança quanto ao futuro. Até o fim de 2020, curiosamente, dar-se-á uma inusitada situação, pois o Reino Unido estará sujeito às leis da Europa mas não mais participará da sua elaboração. As desavenças já começaram.

A situação faz lembrar uma frase do General De Gaulle quando lhe perguntaram como seriam as relações entre a França e a Argélia depois da independência. O experiente General disse que seriam parecidas com as de um casal divorciado: talvez amáveis mas mesmo assim cheias de ressentimento. Essas mágoas deverão aparecer nas negociações finais com o Parlamento Europeu e com os 27 países remanescentes. Cada um deles vai exigir do Reino Unido a negociação de diferentes tratados diplomáticos, comerciais, imigratórios e de trânsito de passageiros.

A pérfida Albión

O relacionamento entre a Inglaterra e o continente nunca foi realmente muito afetuoso, tanto que de vez em quando, nos meios políticos do continente, há referências à “pérfida Albión”. Trata-se de expressão cunhada no século XVIII pelo poeta francês Marquês de Ximenes. Albión era como os romanos denominavam a Inglaterra na antiguidade. Segundo o poeta, aquele era um reino que dizia uma coisa e fazia outra, não merecia confiança.

Os ingleses que aderiram ao Brexit na verdade acham que a adesão à União Europeia os mantinha acorrentados e que com o rompimento vão deixar de pagar tributo ao resto da Europa. Voltarão a ser uma nação única e soberana, vão recuperar o velho patriotismo inglês e que se acabou o regime de austeridade imposto por Bruxelas. O que se diz na própria mídia inglesa que duvida do resultado a que chegou o referendum de 2016 que aprovou o Brexit é que toda aquela agitação que levou ao rompimento, de legitimidade discutivel, não possuia um plano em caso de vitória. Suas promessas de campanha, ao contrário, eram delirantes. E a sociedade britânica, como resultado, fragmentou-se pela metade. O escritor irlandês Fintan O’Toole escreveu um livro sobre o assunto em que chamou todo o processo de “um fracasso heroico”.

Na opinião do ex-Primeiro Ministro de Portugal Durão Barroso, os três polos econômicos do mundo são atualmente os Estados Unidos, a China e a União Européia. Ao optar pelo Brexit, a Inglaterra decidiu ficar à margem das grandes decisões do mundo.

A opera italiana

“O destino passa por Bolonha”, foi o título de La Repubblica, um dos grandes jornais italianos e um dos melhores da Europa. Referia-se às eleições legislativas nas quais Matteo Salvini, o líder da extrema direita, apostou todas as suas fichas. E perdeu. Na cidade em que surgiu o movimento das sardinhas, um protesto contra a direita que tomou quase todo o país, Salvini pretendia mobilizar apoio politico para derrubar a frágil coligação de esquerda que governa o país.

Na Calabria, deu-se o contrário. A direita venceu e assume o poder que tradicionalmente esteve nas mãos dos partidos de esquerda. Salvini comemorou mas ainda está longe do seu projeto de poder embora o atual governo, sustentado por uma coligação de centro-esquerda, mostre sua fragilidade.



Uma greve histórica

Já dura mais de dois meses a paralisação na França. Uma greve que derrotou a reforma da previdência do governo Macron e atesta a posição de liderança dos trabalhadores franceses entre os movimentos populares de resistência em todo o mundo.

É um lugar de honra, diz André Barbieri, no Blog da Boitempo. E lembra o movimento dos Coletes Amarelos. Da Catalunha a Hong Kong tem havido confrontos. Enfrentamentos da luta de classes também no Sudão e na Argélia, no Norte da África; no Oriente Médio, como no Líbano, Iraque e Irã; além de rebeliões populares em Porto Rico, Honduras e Haiti; movimentos de matiz revolucionário no Equador e no Chile e um golpe de Estado na Bolívia. Todos estes movimentos trazem à tona e revelam a crise do capitalismo na qual o mundo se debate desde 2008.

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