Política

O novo velho continente e suas contradições: A tragédia dos refugiados e as novas ameaças do Oriente

 

10/03/2020 13:05

 

 

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Volto ao assunto dos refugiados e me refiro ao desespero de milhares de pessoas que se encontram hoje, agora, nas fronteiras da Turquia tentando chegar ao abrigo dos países da União Europeia. A Turquia tem funcionado como uma comporta das levas de retirantes que partem da Síria mas também do Afeganistão, de Bangladesh e do Paquistão. Procuram asilo na Europa e são rejeitados. Os sírios, principalmente, a partir da chegada à Turquia.

A Turquia tem usado os refugiados como massa de manobra e ora abre, ora fecha suas fronteiras para dar ou impedir a passagem dos fugitivos da guerra, famílias com crianças, idosos doentes e toda sorte de desesperados. É uma tragédia humana que a humanidade procura não ver. A mobilização de apoio e suporte de opinião pública na Europa diminui na medida em que a angústia daquelas famílias vai sendo retirada das manchetes ou caindo no esquecimento da mídia.

Há no momento mais de cem mil refugiados na fronteira entre a Turquia e a Grécia, a maioria vinda da Síria, o belo e trágico país que se nega a ter a mesma sorte da Líbia. É hoje um palco banhado de sangue onde desde 2011 se defrontam exércitos regulares e forças mercenárias a serviço das potencias que não querem mostrar a sua própria cara. É uma guerra por procuração, desde quando os Estados Unidos passaram a apoiar e traçar estratégias para as milícias de oposição ao governo de Bashar Al-Assad e o governo da Turquia acionou a execução dos seus planos geopolíticos de assumir a liderança regional. A expectativa de queda rápida do regime frustrou-se quando se deu a intervenção da Rússia

Uma trégua

A Rússia e a Turquia acordaram uma trégua em Idlib, a única das províncias sírias que ainda se encontra fora do controle de Damasco. Sua capital tem o mesmo nome, Idlib. Trata-se de uma região de rica história, onde encontra-se também a cidade de Ebla, que foi sede de um importante reino na Antiguidade. Antes da Guerra Civil a cidade de Idlib tinha 165 mil habitantes e toda a província tinha quase 1 milhão e meio. O objetivo do governo turco é apoderar-se da região e lá confinar seus inimigos curdos, o bravo povo cuja luta por independência Ankara reprime e pretende calar.

Recep Tayyip Erdogan e Vladimir Putin encontraram-se na semana passada e negociaram um cessar-fogo na província de Idlib. Durante mais de seis horas, assistidos pelos seus ministros dos Negócios Estrangeiros, discutiram o novo status da região num acordo que substitui um outro, o que o vice-Presidente norte-americano, Mike Pence, tinha conseguido de Erdogan. A Turquia quer que as forças curdas sírias, que considera terroristas, sejam “removidas” do território de Idlib. Para esta área seriam levados à força cerca de dois milhões de refugiados sírios que se encontram, segundo Erdogan, em território turco. O mundo assiste, mais uma vez, vidas humanas como peças de um vergonhoso jogo de interesses geopolíticos.

Bashar Al-Assad, com todas as letras, chamou Erdogan de “ladrão”, pois estaria a roubar o território que pertence à Síria.



O refugo humano

Enquanto isso os refugiados tentam a travessia da fronteira entre a Turquia e a Grécia com vistas ao asilo em algum país da Europa. Desde 2014 mais de vinte mil migrantes morreram afogados tentando a travessia do Mediterrâneo, segundo a Organização Internacional para as Migrações, da ONU. Na semana passada a polícia turca abriu por algum tempo as barreiras, algumas pessoas conseguiram passar mas uma multidão continua contida e em desalento e frustração. Sabha e a sua família, o mais novo dos filhos, Taha, portador da Síndrome de Down, continuam retidos na fronteira. Sem recursos e sem ajuda. O médico Abdulhameed al-Mohammad ia de carro com sua família em busca da travessia mas seu carro foi apreendido e todos tiveram de terminar a caminhada a pé. "Eu não sei o que dizer. É um tratamento muito desumano. Eles obrigaram as crianças a andarem a pé 20 quilómetros. Viemos no nosso carro e eles nos pararam a 20 quilómetros do nosso destino. Estamos a andar desde então até à fronteira", disse ele à Euronews, enquanto tentava descansar as crianças à beira da estrada. Eles eram fugitivos dos pesados e ininterruptos bombardeios em sua cidade.

Ainda na semana passada, quando a Turquia abriu as fronteiras, a Grécia fechou as suas para 35 mil pessoas que pretendiam atravessar o seu território para chegarem a outros países da Europa. Foram então confinados – eu diria aprisionados - na cidade de Serres, onde esperam a deportação.

Pelo menos 100 mil refugiados estão no momento espalhados nos 200 quilómetros de fronteira, a tentar entrar no espaço europeu.

No princípio de março o governo grego anunciou que não aceitará mais pedidos de asilo, pois na ilha de Lesbos já estão 20 mil migrantes à espera de solução para os seus pedidos de permanência. As entidades de defesa dos direitos humanos criticam essa decisão enquanto a Turquia diz que abriga atualmente quatro milhões de refugiados sírios e pede ajuda em dinheiro da União Europeia. Se não vier essa ajuda, avisa que vai abrir as fronteiras.

"Esta é uma tentativa flagrante da Turquia de usar pessoas desesperadas para promover sua agenda geopolítica e desviar a atenção da horrível situação na Síria" (...) A Europa não será chantageada pela Turquia por causa da questão dos refugiados. Estamos prontos para apoiar a Turquia a lidar com o seu problema dos refugiados e encontrar uma solução para o dilema sírio, mas não sob estas circunstâncias", afirmou o Primeiro Ministro grego Kyriakos Mitsotakis.

Enquanto isto a humanidade assiste pela televisão ou pela internet, quase impassível, à maior tragédia humanitária do nosso tempo.

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