Política

O novo velho continente e suas contradições: A volta por cima e o pessimismo francês

 

28/12/2020 08:55

 

 
A União Europeia, além da crise sanitária, prepara-se para o enfrentamento de uma crise econômica de grandes proporções e de grande impacto nos 27 países que a compõem. Ao contrário do triste governo Bolsonaro no Brasil, foi elaborado um plano de recuperação com objetivos imediatos de aumentar o número de empregos e o crescimento da economia. Mais adiante, chegar a uma atividade econômica ambientalmente sustentável ampliando também os níveis de digitalização da sociedade e da sua atividade produtiva.
Os franceses, pessimistas, acreditam numa explosão social depois da pandemia.

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Cansada de um ano terrível em que viveu tantas mortes, tanta dor e desesperança, tanto desespero e grandes frustrações, a velha Europa quer dar a volta por cima. Começa a sacudir a poeira e ensaia, através da vacinação em massa, tentar levantar-se durante o ano que começa. Um novo ano sempre traz consigo símbolos emocionais de renovação e de redenção que a humanidade cultiva há milênios para assim preservar a possibilidade do futuro. Um futuro que precisa ser melhor, pois o passado encontra-se morto junto aos corpos dos quais um vírus desconhecido tirou a possibilidade da esperança numa agonia lenta ao longo de todo este ano que agora termina.



Há consciência, no entanto, de que 2021 ainda será um ano difícil pois as medidas terapêuticas vão demorar a fazer efeito e o vírus que provoca a doença está sujeito a mutações cujo alcance ainda se desconhece. Os registros de contágios são maiores do que durante o primeiro pico da pandemia. Enquanto isto a Europa reúne recursos para a sua própria reconstrução. A União Europeia, além da crise sanitária, prepara-se para o enfrentamento de uma crise econômica de grandes proporções e de grande impacto nos 27 países que a compõem. Ao contrário do triste governo Bolsonaro no Brasil, foi elaborado um plano de recuperação com objetivos imediatos de aumentar o número de empregos e o crescimento da economia. Mais adiante, chegar a uma atividade econômica ambientalmente sustentável ampliando também os níveis de digitalização da sociedade e da sua atividade produtiva.

Enfrentar crises futuras

Os países que tiveram este ano maiores prejuízos contarão com a ajuda de 750 bilhões de euros de um fundo comum, dos quais 390 bilhões serão em forma de doação e 360 bilhões de empréstimos a juros baixos. Foi proposta mas não aprovada a criação de um Instrumento Temporário de Apoio à Solvência para fortalecer as empresas que estão em risco de se tornarem insolventes em razão da crise. O Conselho Europeu preferiu concentrar os recursos no fortalecimento do Mecanismo de Recuperação e Resiliência que integra aquele fundo comum.

A União Europeia pretende aprender com as lições da crise e dar protagonismo ao valor da cooperação, evidenciada pela pandemia e dar urgência à sua capacidade de responder às crises com maior capacidade de enfrentamento a choques futuros.

O principal entrave para a realização do Plano de Recuperação foi a ameaça de veto da Hungria e da Polônia, governados por partidos neofascistas eurocéticos, que não concordavam com a exigência de um estado democrático de direito para que um país se candidatasse à ajuda prevista no plano. É uma medida que precisa ser aprovada pela unanimidade dos 27 países que compõem a União Europeia. Tanto a Hungria quanto a Polônia já abrandaram a oposição radical e encontram-se a negociar com a Comissão Europeia.

Curiosamente a Hungria suavizou sua posição inicial, seguida pela Polônia, depois do escândalo envolvendo o seu representante junto à União Europeia, József Szájer, um alto quadro do Fidesz, o partido de extrema direita comandado por Viktor Orbán que governa o país. A polícia de Bruxelas interrompeu uma animada orgia gay com alto consumo de álcool e drogas, no andar superior de um bar na cidade, da qual József Szájer participava violando as medidas antiaglomeração em vigor por causa da pandemia. Szájer, amigo muito próximo do Primeiro Ministro, foi preso, renunciou e pediu desculpas. Ele era também uma das principais lideranças ultraconservadoras no Parlamento Europeu e pregava em defesa da suposta "identidade cristã" do continente e de seu país, perseguindo migrantes, opositores e a comunidade LGBT.

József Szájer

A Comissão Europeia está comprometida pelo orçamento plurianual que vai vigorar a partir de 2021 com seis principais objetivos anunciados pela presidente Ursula von der Leyen: o Pacto Ecológico Europeu; uma Europa preparada para a era digital; uma economia ao serviço das pessoas; a promoção do modo de vida europeu; uma Europa mais forte no mundo; e um novo impulso para a democracia europeia. O orçamento para 2021, diz a presidente, permitirá à Comissão Europeia concretizar essas prioridades.

A Alemanha e a insubmissão francesa

A Alemanha é o país líder da União Europeia. Em setembro de 2021 a chanceler Angela Merkel vai se despedir do cargo que ocupou nos últimos dezesseis anos. Exerceu um governo de centro direita forte com inspiração social democrata e conduziu o país através das diversas crises, contradições e agitações ocorridas na Europa e no mundo durante o tempo dos seus mandatos.

A CDU União Democrata-Cristã(Christlich-Demokratische Union Deutschlands – CDU), partido de Merkel, lidera as preferências dos eleitores com 36 por cento das intenções de voto; em segundo lugar encontra-se a Aliança 90/Os Verdes (Bündnis 90 / Die Grünen), à frente do social democrata SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands, SPD), tradicional aliado da CDU. A extrema direita, representada pelo Alternativa para a Alemanha (AfD-Alternative für Deutschland) aparece com 10 por cento das intenções de voto. É de se prever um posicionamento político mais à direita no futuro político alemão, pois o candidato que aparece com mais chances chama-se Markus Söder, atual chefe de governo da Baviera. Ele já se colocou contrário à abertura da Alemanha para a imigração, uma das bandeiras de Angela Merkel. Pensa que a quantidade de estrangeiros que tem entrado no país representa um risco de segurança. Tentou publicar com fundos do governo uma edição crítica de Mein Kampf, de Adolf Hitler, mas a ideia não foi aprovada pelo parlamento da Baviera.

Angela Merkel

Numa entrevista ao jornal Le Monde, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da França Jean-Yves le Drian disse acreditar que o mundo pós pandemia será como o de antes, só que pior. O escritor Michel Houellebecq vai na mesma linha: “não acredito nem por meio segundo em declarações do tipo nada será como antes. Pelo contrário, tudo ficará exatamente igual. Não vamos despertar, depois do confinamento, em um novo mundo; será o mesmo, mas um pouco pior”.

Os franceses estão pessimistas e também não escondem a crença numa explosão social em futuro próximo, assim que for resolvida a crise sanitária. Não fosse a França a pátria dos protestos revolucionários. Segundo uma pesquisa do IFOP- Institut français d'opinion publique, oitenta e cinco por cento dos entrevistados disseram que uma convulsão social pode ser bem possível. Essa opinião é compartilhada pelos liberais de La Republique en Marche, partido do presidente Emmanuel Macron (62%), pela extrema direita do Rassemblement National, de Marine Le Pen (94%), como também pela esquerda do France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon (93%).

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