Política

O novo velho continente e suas contradições: Após a doença, a crise

Há um consenso na Europa de que a saúde e a vida são os bens fundamentais que devem ser preservados. E também de que deve ser evitada uma crise econômica e financeira que pode representar, logo em seguida à pandemia, uma nova e trágica experiência para a humanidade. A ajuda para salvar o mercado representa, no entanto, uma pesada conta que o povo terá de pagar

19/05/2020 13:53

 

 

:: Leia mais: Especial 'O novo velho continente e suas contradições'

Depois da crise do coronavírus virá a crise financeira. Até os economistas, que são mestres em errar previsões, parecem estar certos desta vez. Pois há uma certa unanimidade quanto a essa opinião. Resta saber qual será o tamanho dessa crise, pois a economia dos dias atuais orienta-se pelo que ocorre no mundo das finanças. Os países da Europa ocupam-se agora em proteger seus bancos e procuram saber o quanto será profunda essa outra tragédia que ameaça o planeta.

Nos últimos anos, numa etapa posterior do capitalismo industrial, as grandes empresas multinacionais preocuparam-se preferencialmente com o valor das suas ações nas bolsas de valores. Os produtos que fabricam significam apenas a base e o pretexto para a valorização subjetiva das ações negociadas nas bolsas. Porque é daí que vem o dinheiro fácil e as altas compensações financeiras, bônus milionários ao fim da cada ano para os altos executivos responsáveis pelas estratégias de sucesso. Mesmo na formidável crise de 2008, salvas pelo socorro e ajuda dos Estados, as grandes empresas não deixaram de pagar gratificações generosas a seus conselhos de administração e, principalmente, a seus executivos.



As bolsas, assim como o câmbio são, como se sabe, manipulados pelos grandes especuladores, liderados pelos poderosos fundos de investimento abastecidos pela poupança dos muito ricos mas também das classes médias de todo o mundo. As jogadas de um único especulador internacional, de nome Nagi Robert Nahas (https://pt.wikipedia.org/wiki/Naji_Nahas), foram capazes de quebrar e encerrar para sempre a operação da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro.

É assim que funciona a financeirizada máquina capitalista dos tempos modernos. Um fato novo, no entanto, surgiu com a crise da Covid-19, pois a paralização forçada pela quarentena tornou clara a dependência do capital em relação ao trabalho. Daí a angústia e a radical urgência dos governos conservadores e de extrema direita para encerrar logo a etapa de confinamento dos trabalhadores, o que não considera a multiplicação do número de mortes no triste cenário desta pandemia.



Os políticos entram em pânico com a perspectiva de escassez de alimentos e agitações sociais. As ajudas em dinheiro pagas aos trabalhadores sem trabalho são uma forma de prevenir o incêndio.

O impacto

A Covid-19 veio, pois, afetar o mercado e agora procura-se avaliar qual será o impacto na economia. Para a zona do euro, o cálculo é de uma queda entre 3% e 10% no Produto Interno Bruto (PIB) dos diversos países, ou seja a soma de tudo o que é produzido. O Professor de História da Economia Albrecht Ritschl, da London School of Economics, prevê uma queda da ordem de vinte por cento. Antes do vírus, a perspectiva já não era otimista.

Num continente tão dependente do turismo e das exportações, o efeito do novo coronavírus foi devastador. Os gastos com as medidas de saúde pública e o desemprego agravam a situação e a recessão é mais do que provável, o que inibe também o investimento na produção.

Os governos da Europa estudam medidas para enfrentar a crise econômica que já ultrapassou as comportas de contenção. Consideram baixar os impostos das empresas e garantir empréstimos para que elas possam cumprir seus compromissos com salários, bancos, fornecedores e com o próprio Estado. Para as pequenas e médias empresas, procuram flexibilizar o pagamento de impostos e garantir financiamentos a juros baixos. Para as famílias, defendem subsídios para quem está desempregado, facilidades para pagamento de dívidas relativas à habitação e vigilância dos preços nos gêneros de primeira necessidade. A União Europeia acaba de aprovar uma ajuda de 500 bilhões de euros a fundo perdido aos países mais afetados pela crise.



Mais uma vez o mercado pede ajuda ao Estado. Aqueles que apontam o dedo acusatório e pedem o Estado mínimo, como se a nação politicamente organizada fosse responsável pelos problemas da sociedade, batem às portas dos governos com pedidos de ajuda. Esquecem por um momento as teses de privatização dos serviços públicos porque foram estes os únicos capazes de enfrentar uma doença planetária.

Os bancos, que constituem um setor especialmente vulnerável que balança diante das crises, estão a ser capitalizados pelos Estados, o que significa uma conta a débito dos contribuintes.

As medidas capazes de fazer frente à pandemia vão certamente aumentar a dívida dos Estados. A Europa discute o lançamento de eurobonds, também chamados coronabonds, que ofereçam os mesmos juros em todos os países da zona do euro. E espera que o mercado se manifeste diante das vantagens financeiras oferecidas.

Há um consenso de que a saúde e a vida são os bens fundamentais que devem ser preservados. E também de que deve ser evitada uma crise econômica e financeira que pode representar, logo em seguida à pandemia, uma nova e também trágica experiência para a humanidade.

Conteúdo Relacionado