Política

O novo velho continente e suas contradições: As ameaças do Oriente

 

21/01/2020 14:09

 

 
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A União Europeia considera que o seu maior esforço diplomático, no momento, é diminuir a tensão no Oriente Médio. O ambiente político na região aumentou o risco de conflitos de grande intensidade depois do assassínio do General Soleimani perpetrado pelos Estados Unidos. O alto representante da UE para os negócios estrangeiros e política de segurança, o catalão Josep Borrel, apelou ao Irã para manter os compromissos assumidos no acordo nuclear de 2015. Manifestou também o receio de que a situação atual promova o ressurgimento do Estado Islâmico e desestabilize toda a região. Outro grande desafio vem do Norte da África, com a necessidade de encontrar uma solução para o conflito na Líbia, país que foi promovido ao caos depois da intervenção internacional liderada pelos Estados Unidos que derrubou e matou seu líder Muammar al-Gaddafi. Assim como fez no Iraque, onde derrubou e enforcou Saddam Hussein. É o que podemos dizer que se trata do homicídio como instrumento de prática geopolítica.

O risco de aumentarem as tensões chama a atenção da Europa. O conflito da Líbia também se encontra entre as suas preocupações porque é de lá que parte a maioria das levas de refugiados de países diversos que procuram abrigar-se no continente europeu provocando consequências políticas que afetam a democracia. Entre elas o uso pela extrema direita do que ela própria chama de “invasão” dos imigrantes. Os argumentos contra os refugiados mobilizam uma classe média fragilizada que se transforma em massa de manobra dos partidos populistas e fascistas e das diversas manifestações neonazistas.



A crise

Apenas neste mês de janeiro 180 pessoas foram resgatadas no mar procurando chegar às costas da Espanha. O governo inglês informou sobre o aumento do número de pequenos barcos de transporte de migrantes para a sua costa, apesar das condições atmosféricas difíceis e perigosas. Dois navios aguardam há cinco dias que Malta ou Itália autorizem o desembarque de 121 migrantes resgatados do mar, incluindo 7 crianças não acompanhadas, um bebé de 3 meses e o seu irmão de 3 anos. Estes são apenas alguns casos do êxodo que se tem configurado como um dos maiores desastres humanitários dos últimos tempos.

Ana Luísa Moreira, num artigo no Observador, de Portugal, reproduz o depoimento de um jovem iraquiano que alerta para o perigo desta fuga em direção à Europa: “Confiamos a nossa vida a pessoas que não conhecemos e que não nos explicam nada. É muito assustador. Temos de entrar em carros com desconhecidos que não falam a mesma língua, passar dias na floresta… Já para não falar do perigo que é a viagem no mar”.

Na Líbia, a população civil se vê sob o risco dos combates e do assédio das várias milícias que disputam poder num país que continua conflagrado depois da queda de Gaddafi. E a Líbia encontra-se numa rota natural dos migrantes em direção à Europa. A Russia pediu uma reunião a portas fechadas do Conselho de Segurança da ONU para discutir a situação da Líbia e a Turquia anunciou o envio de tropas que, segundo o presidente Erdogan, terão a missão “de coordenação”.



Irã: sob ataque

Depois da queda do avião ucraniano pelos mísseis iranianos, o país encontra-se sob forte pressão internacional. A União Europeia exige o cumprimento do acordo nuclear de 2015, a Alemanha cancelou os voos da Lufthansa para Teerã, a Suécia cancelou a autorização para a Iran Air voar em seu espaço aéreo, os Estados Unidos preparam novas sanções econômicas contra o país e, internamente, movimentos e agitações de rua conduzem a uma violenta repressão do governo dos aiatolás. Os generais do alto comando, por seu lado, advertem que a vingança pela morte de Qassem Soleimani ainda não chegou.

Sépideh Radfar, professora universitária iraniana a viver em Portugal, diz que o povo não deseja a guerra, pois ainda sobrevive a memória do conflito com o Iraque que durou nove anos. Ela não concorda com a imagem de seu país que está sendo construída no exterior como a de um regime repressivo e fechado. E faz questão de sublinhar que “o Irã é um país com um grande passado. Um país de recursos naturais, de riqueza natural, com bastante história, com uma população jovem, dinâmica, instruída e culta. De fato, de modo nenhum, a imagem que está a ser divulgada sobre o Irã corresponde à realidade.”

Em 1978, o presidente americano Jimmy Carter via o país como uma "ilha de estabilidade numa das zonas de maior conflito do mundo". Hoje, o governo Trump acusa o Irã de ser uma ameaça à segurança mundial e de impedir a paz no Oriente Médio.

O grande trauma nas relações entre os Estados Unidos e o Irã remonta no entanto a 1953, quando a CIA montou uma operação batizada com o nome de Ajax e, por interesses no petróleo, derrubou o governo democrático de Mohamed Mossadeq, restaurou a monarquia e entronizou o xá Mohamed Reza Pahlevi. Foi um regime de dura repressão até a revolução islâmica de 1979 que exilou o xá e inaugurou a república teocrática dos aiatolás.

Em 2015/2016 chegaram à Europa mais de um milhão de refugiados da região, principalmente da Síria, caracterizando uma crise migratória sem precedentes. A Síria era a bola da vez na estratégia americana, que não contava com a reação do governo e o apoio russo. A forte tensão atual no Oriente Médio preocupa os diversos países da União Europeia porque são as conflagrações bélicas que originam a fuga das populações em busca de sobrevivência. Uma sobrevivência tornada impossível dentro do horror dos conflitos sangrentos e da destruição por eles provocada.

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