Política

O novo velho continente e suas contradições: As cidades que vão morrer

 

24/11/2020 10:11

Vista da rua principal de Oradour-sur-Glane em 30 de agosto de 2013 (AFP)

Créditos da foto: Vista da rua principal de Oradour-sur-Glane em 30 de agosto de 2013 (AFP)

 
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A União Europeia já calculou que até o ano de 2050 vão desaparecer 50 milhões de trabalhadores e a imigração vai disparar. A população está em declínio no Velho Continente, cada vez mais um território de velhos que hoje produz mais caixões do que berços.

A imigração, atualmente, é a única forma de absorver o impacto do declínio das populações e seria irrealista acreditar que uma política de aumento da natalidade faria as pessoas voltarem a ter quatro ou cinco filhos como antigamente.

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Nas montanhas de Portugal existem quase setecentas povoações que se tornaram aldeias fantasmas porque nelas já não há mais habitantes. Nos estados alemães de Brandemburgo e Saxonia-Anhalt, prédios em ruína, vitrines tapadas e ruas vazias compõem a paisagem das cidades. E na Itália a pequena e bela Sambuca, na Sicília, pôs à venda casas antigas e abandonadas pelo preço de seis euros para atrair moradores. Em Civita de Bagnoregio, a duas horas de Roma, vivem apenas doze habitantes. As pessoas que abandonaram todas essas cidades partiram para centros maiores ou para o exterior em busca de emprego. Deixaram para trás suas histórias e as casas onde viveram por séculos suas famílias e seus antepassados.

Santuário de Santo Antonio de Poldros, Monção, Portugual (Reprodução)

No caso de Portugal, algumas das aldeias abandonadas apresentam às vezes raro movimento pela curiosidade de alguns turistas e poucos aventureiros. Santo Antônio de Vale de Poldros, no Alto Minho, tem apenas um habitante, Fernando Gonçalves, que tem 52 anos e voltou de Andorra, para onde havia emigrado, para abrir um restaurante na aldeia em que nasceu. O restaurante encontra-se fechado nestes meses de pandemia. A 1.700 metros de altitude, Santo Antônio de Vale de Poldros oferece uma vista a dominar o vale do Rio Vez. Muitos dos poucos que a visitam comparam-na à aldeia dos hobbits, da saga O Senhor dos Anéis. É um lugar muito bonito.

Todas elas, junto com diversas outras aldeias, vilas e cidades pelo território europeu sofrem com o fenômeno do despovoamento que decretou a morte de muitas delas e ameaça o futuro de outras. Seus moradores partiram em busca da própria sobrevivência e já não há tantos nascimentos como acontecia no passado. Quase não há crianças.

Portugal deve perder 1,1 milhões de habitantes nos próximos trinta anos, segundo projeção da ONU. A Alemanha, por sua vez, vai perder onze milhões de habitantes em idade ativa.

Mais caixões que berços

A União Europeia já calculou que até o ano de 2050 vão desaparecer 50 milhões de trabalhadores e a imigração vai disparar. A população está em declínio no Velho Continente, cada vez mais um território de velhos e que hoje produz mais caixões do que berços, diz uma notícia de jornal.

Um estudo da Fundação Robert Schuman, importante centro de estudos da UE, alerta para o que chamou de suicídio demográfico e diz que o cenário é alarmante. Ninguém menciona o problema e, o que é pior, não se prepara para enfrentá-lo. Um dos autores do estudo, o economista Michel Godet, diz que não há consciência da dimensão dessa crise, que não consta da agenda política apesar do forte impacto que causa na economia do continente. O PIB é mais baixo nos países onde é menor o aumento da população. Até 2040 o potencial de crescimento econômico da Europa vai cair pela metade. Godet chama a atenção para o fato de que o desenvolvimento tecnológico não será capaz de reverter a tendência, pois tanto o crescimento quanto a produtividade têm desacelerado de maneira consistente desde os anos 1980 tanto na Europa quanto no Japão e nos Estados Unidos.


Capela abandonada no sul da França (Romais Thiery)

Convulsão social

Há risco de convulsão social antecedida de uma convulsão cultural, alertam cientistas sociais, pois na medida em que a população da Europa vai encolher, a da África vai disparar com mais 1,3 bilhão de habitantes nos próximos trinta anos. “A pressão migratória sobre a Europa será maior do que nunca. Haverá um choque demográfico: uma implosão dentro da UE e uma explosão fora das suas fronteiras”, dizem os investigadores. E no entanto as instituições europeias comportam-se como se este ‘tsunami’ não estivesse prestes a acontecer.

A pressão migratória e a rejeição aos imigrantes, vistos como ameaça, fará crescer a xenofobia, o fortalecimento dos partidos de extrema direita neonazifascistas e o risco que eles representam para as democracias e o estado de direito. A integração social de pessoas com valores culturais muito diferentes e assim evitar o surgimento de guetos isolados é também um desafio para a Europa. Ao contrário do que acontece na Inglaterra, onde existem quarteirões isolados para os indianos e outros para os africanos.

Portugal é apontado como o país que melhor lida com a integração dos imigrantes pela sua história de contatos com populações distantes e com diferenças culturais desde a época dos Descobrimentos.

Civita di Bagnoregio, na Itália (Reprodução)

Embora nos últimos séculos o normal tenha sido o aumento das populações e em 2025 a população do mundo esteja prevista em oito bilhões de habitantes, ao final deste século sessenta por cento dos países terão números menores de habitantes. Até a China deve apresentar forte declínio populacional a partir de 2030. A diminuição do número de habitantes será a norma, com exceção dos países mais pobres e com baixo nível de cidadania.

Alemanha, Espanha, Hungria, Eslováquia, Portugal, Itália, Grécia, Romênia, Polônia e Geórgia são os dez países da Europa que, entre todos os outros, enfrentarão as maiores quedas em seus números populacionais entre 2020 e 2100, e nisto estão de acordo demógrafos e cientistas sociais.

Para enfrentar o suicídio demográfico, a solução seria implementar políticas de família que promovam a natalidade. As pessoas teriam a possibilidade de ter quantos filhos desejassem sem comprometer o seu padrão de vida. Não haveria necessidade de ir buscar população estrangeira para ocupar os empregos e seria mais fácil a integração dos imigrantes nos países que os acolhessem. A imigração, atualmente, é a única forma de absorver o impacto do declínio das populações e seria irrealista acreditar que uma política de aumento da natalidade faria as pessoas voltarem a ter quatro ou cinco filhos como antigamente. Se fechar suas fronteiras aos imigrantes, como desejam os partidos da extrema direita, o suicídio demográfico será mais rápido.

E haverá então mais aldeias e mais cidades abandonadas. Seus antigos habitantes estarão mortos ou terão partido em busca de uma vida melhor.

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