Política

O novo velho continente e suas contradições: As inquietações da Europa em 2020

 

07/01/2020 14:35

 

 
O ano começou na Europa sob o signo do Brexit, que ocorrerá a 30 de janeiro. A opinião política no continente é no sentido de que o Reino Unido está a dar um salto no escuro. Terá de reorganizar a sua economia e as relações comerciais com o continente. O economista francês Thomas Piketty lembra que, no referendo do Brexit, apenas 30% que representavam os mais favorecidos em termos de rendimentos, educação e patrimonio votaram para ficar na União Europeia. Os outros 70% votaram contra. E adverte que há um divórcio entre as classes trabalhadoras, a classe média, a construção da Europa e a globalização.

Na Espanha, no dia 7 de janeiro, quando escrevo este texto, foi finalmente formado o novo governo de centro esquerda, depois de meses de impasse até se chegar a um consenso entre o PSOE, majoritário nas eleições, e o Unidas Podemos, coligação de esquerda que passou a lhe dar apoio de modo a garantir maioria no parlamento. A Esquerda Republicana da Catalunha absteve-se, permitindo que Pedro Sanchez, o primeiro ministro, assumisse com uma forte e agressiva oposição da direita e da extrema direita e vários problemas regionais que configuram a maior crise territorial da história do país. Os separatistas se articulam na própria Catalunha, no País Basco, Galícia, Andaluzia, Aragão, Astúrias, Ilhas Canárias, Cantábria e Leão, todos com seus partidos políticos que reivindicam independência. O governo que assume mostra sua debilidade ao contar com 155 deputados e necessitar do apoio de mais 21 representantes de outros partidos para aprovar suas decisões.

Na França, o impasse permanece entre o governo e os 800 mil manifestantes que continuam mobilizados contra a reforma da previdência e outras mudanças anunciadas pelo governo Macron.

A novidade na ação política de resistência à ascensão da extrema direita na Europa veio da Itália com o Movimento das Sardinhas. Em Bologna, alguns jovens promoveram um flash mob de protesto contra Matteo Salvini, o líder neofascista que deixou recentemente o governo e continua a preparar a sua volta. Eles previam reunir 6 mil pessoas na Praça Maggiore e de lá irem em passeata até a arena Paladozza, onde se realizaria um evento da Liga Norte, de Salvini. A passeata, pelas estreitas ruas de Bologna, apertava as pessoas umas contra as outras como sardinhas em lata. Adotaram então a denominação de Movimento das Sardinhas e compareceram mais de 15 mil pessoas, mais do que o dobro do esperado e cantaram Bella Ciao, a canção da resistência italiana na luta contra o fascismo. Dias depois as sardinhas fizeram um outro evento, desta vez em Modena. Os organizadores dessas primeiras manifestações, antes de o movimento se espalhar pelo país, chamam-se Mattia Santori, Giulia Trappoloni, Roberto Morotti e Andrea Garreffa . Talvez seja bom acompanhar suas carreiras de agora em diante.

As sardinhas que se multiplicam

Nos primeiros dias de dezembro foi a vez de Milão, terra de Matteo Salvini, onde 25 mil pessoas lotaram a Praça do Duomo, apertadas umas às outras como sardinhas em lata. E o movimento começou a se espalhar pelo país, com novos eventos realizados em Roma, num enorme manifestação, Turim e Nápoles.

As sardinhas não se assumem como de esquerda mas contra o populismo e o que chamam de política de ódio. E dizem em seu manifesto: “Já somos centenas de milhares e estamos prontos para lhe dizer (ao populista de direita) o suficiente. Faremos isso em nossas casas, em nossas praças e nas redes sociais. Compartilharemos esta mensagem até você ficar enjoado. Porque somos as pessoas que se sacrificarão para convencer nossos vizinhos, parentes, amigos, conhecidos que mentiram por você por muito tempo. E tenha certeza de que os convenceremos.”

Os temas que as sardinhas defendem são a defesa dos direitos humanos e dos imigrantes, a democracia, o antiautoritarismo e o diálogo na política. Elegeram como principal adversário a Liga Norte de Salvini.

A movimentação da esquerda

Há um inegável recuo da democracia na Europa. Aumentaram os ataques dos seus inimigos. Os partidos tradicionais e mesmo as alianças neoliberais perdem espaço para as direitas radicalizadas e as forças da extrema direita, ultra demagógicas, enquanto aumentam as práticas autoritárias.

O Partido da Esquerda Europeia (em inglês Party of the European Left (PEL), ou European Left ), uma confederação de 27 partidos de esquerda do continente, realizou em meados de dezembro passado o seu sexto congresso e reafirmou os princípios e objetivos de luta: superar o capitalismo para construir a Europa dos povos, salvar o planeta e garantir a paz.

No documento elaborado ao fim do congresso o PEL (https://www.european-left.org/) denuncia as crises financeiras do capitalismo nas economias que provocam desemprego em massa, pobreza, desemprego, guerras econômicas, desigualdade crescente e modelos sociais atacados e destruídos pelas políticas de austeridade. Dá destaque ao grande desafio ecológico e às ameaças à paz com a multiplicação das guerras e a crescente agressividade dos Estados Unidos sob o governo Trump. O recente assassinato do General Qassim Soleimani veio confirmar esta preocupação.

Destaca ainda o PEL o crescimento do racismo e da xenofobia e a regressão dos direitos humanos, como demonstra a sorte indigna reservada aos migrantes e refugiados em todo o continente europeu. Dá ênfase à ameaça à saúde de todos os cidadãos, em especial dos mais velhos, com o desmantelamento da proteção social e o risco da sua privatização.

O documento afirma a necessidade de um novo tipo de humanismo para o futuro das pessoas e do próprio planeta, pois é vital que a Europa se torne protagonista de uma grande mudança de modo a construir um novo projeto de cooperação solidária e humanista entre os povos.



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