Política

O novo velho continente e suas contradições: Corrupção e fascismo

O Brasil, um país à deriva, na perspectiva da imprensa e da opinião pública europeias, terá de enfrentar um longo trabalho a sua frente para se reconstruir depois dessas duas tragédias que ao mesmo tempo o acometeram: o ataque de um vírus mortal e um governo dedicado a destruí-lo como este que o domina atualmente

23/06/2020 14:51

 

 
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Em Cabeceiras de Basto, na região do rio Ave, interior de Portugal, o homem que bebia no balcão, ao me identificar como brasileiro, disse “o país mais corrupto do mundo!” Tive espírito para responder de pronto “aprendemos com os portugueses. Somos bons alunos”. Percebi discretos sorrisos dos outros clientes e pouco depois paguei o copo de vinho que havia bebido, despedi-me e segui viagem. Mas havia um certo travo amargo em minha boca que não era do belo e generoso vinho do Douro. Eu entrara mais uma vez em contato com a crua imagem que não só os portugueses mas toda a Europa têm hoje do meu país. A de um país corrupto, fascista e atrasado.

O professor da Universidade do Porto manifestou-me sua preocupação com o fascismo brasileiro representado pela ascensão de Bolsonaro ao governo. Num momento em que os movimentos de extrema direita ameaçam grande parte dos países do mundo, a capitulação da democracia brasileira é um alerta que não pode ser desprezado, ele disse. Os portugueses acompanham com muito interesse o que se passa no Brasil. São bem informados pela mídia local, que mais apropriadamente chamam de comunicação social.



Essas duas manifestações que acabo de contar resumem o que pensam do Brasil o povo e os intelectuais portugueses. Uma visão que pode ser ampliada para toda a Europa e que resume a nossa nova imagem, a de um país corrupto que tem a extrema direita no poder e que se encontra a viver o embrião de um regime radicalizado abertamente fascista.

O pária

O descaso com o meio ambiente, representado principalmente pelo insano desmatamento na Amazônia, aliado à irresponsabilidade do governo nesta crise do Covid-19 são as duas atuais e principais causas que agem para a destruição da imagem do Brasil no mundo e especialmente na Europa. A assumida posição rastejante que leva o país a imitar as ações deletérias do governo americano de Donald Trump, a exemplo das ameaças de deixar o Acordo de Paris e a Organização Mundial de Saúde, completa o quadro que basta para derreter a imagem do Brasil. E também para o transformar num pária da política internacional. O acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia torna-se declaradamente e cada vez mais difícil de ser realizado devido à presença de um parceiro que não merece confiança.

Só para lembrar, o Acordo de Paris foi assinado em 2015 e celebra o compromisso de ação de 195 países para minimizar as consequências do aquecimento global. E a OMS, com sede em Genebra, tem como objetivo coordenar as ações internacionais para prevenir e tratar surtos de doença, como este do novo coronavírus.

O que publicam os jornais

Na Inglaterra a imprensa se preocupa com o avanço da destruição na Amazônia e o Guardian diz que “o mundo não pode permitir que a pandemia de coronavírus distraia o mundo da destruição da floresta tropical. Enquanto Bolsonaro continua a contrariar medidas de saúde pública, a população indígena da região amazônica parece estar cada vez mais ameaçada pela violência e pela doença".



O influente Financial Times afirmou que, em meio à crise provocada pelo coronavírus e à queda na popularidade de Bolsonaro, "os brasileiros estão preocupados com a possibilidade de o presidente estar tentando provocar uma crise entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário para justificar uma intervenção militar". O jornal disse ainda que outros países devem tomar nota: “os riscos para a maior democracia da América Latina são reais, e estão aumentando."

A revista científica britânica The Lancet escreveu que "talvez a maior ameaça à resposta do país à Covid-19 seja seu presidente, Jair Bolsonaro”, e que “a liderança do Brasil perdeu seu compasso moral – se é que jamais teve algum".

Um mundo paralelo

Depois de lembrar que o Brasil adotou uma via extremamente perigosa e que a postura do presidente provoca caos na saúde e semeia a morte, o francês Le Monde acrescenta que o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo e conclui que "há algo de podre" no país.

O ex-embaixador da Alemanha no Brasil, Friedrisch Prot von Kunow, declarou que não vê cenários positivos. Para ele há uma perspectiva de catástrofe e acrescenta: "do ponto de vista alemão, uma personalidade como Bolsonaro é inconcebível. Pessoalmente, tenho dificuldade em lidar com isso."

Alemanha e Noruega querem distância do Brasil e, pela desastrosa política de meio ambiente, cancelaram as verbas que dirigiam ao Fundo Amazônia. O Ministério do Desenvolvimento alemão cancelou os projetos que tinha para o pais.



O jornal econômico alemão Handelsblatt traz uma entrevista do presidente da Mercedes-Benz, Philipp Schieme, em que ele diz que o Brasil deixou de ser atrativo. Sobre a atuação do governo na crise do coronavírus, Schieme afirma, diplomaticamente, que “deixa a desejar”.

São estes apenas alguns exemplos de como o velho continente enxerga hoje um país jovem em que depositava muita esperança até há poucos anos. O Brasil, um país à deriva, na perspectiva da imprensa e da opinião pública europeias, terá de enfrentar um longo trabalho a sua frente para se reconstruir depois dessas duas tragédias que ao mesmo tempo o acometeram: o ataque de um vírus mortal numa pandemia e um governo devotado a destruí-lo como este que o domina atualmente.






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