Política

O novo velho continente e suas contradições: Davos e Porto Alegre, os contrastes

 

28/01/2020 13:21

 

 
Na terceira semana de janeiro, a imprensa europeia manteve-se atenta para o desenrolar do World Economic Forum em Davos, na Suiça, cenário do grande romance “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, ao mesmo tempo em que acontecia em Porto Alegre o Forum Social das Resistências. No de Davos, o tema deste ano foi “como salvar o planeta”, introdutório das várias reuniões de autopromoção e de negócios entre empresas e dos países presentes que garimpavam investimentos do capital financeiro internacional. Alguns, como foi o caso do Brasil, visando a privatização das suas empresas públicas. Já no de Porto Alegre, o tema foi "Democracia e Direitos dos Povos e do Planeta", com um programa que incluiu assembleia de convergências e assembleia dos povos. Além de apresentar, dizia o seu programa, “diversas atividades em parques e praças para a troca de experiências e acúmulo de forças dos movimentos de todo o mundo, articuladas ainda com outras iniciativas internacionais”.

O planeta

Entre as duas reuniões, o único traço em comum era a palavra planeta, pois nada havia que sugerisse maior identidade entre elas. Na primeira, a elite econômica do planeta pegava o bonde do meio ambiente, que tanta discussão levantou mundo a fora embora sofra a oposição do governo americano, o mais poderoso da terra. Assunto controvertido também no Brasil, que conta hoje com um dos governos mais reacionários deste planeta que em Davos se discutiu como salvar.

Os protestos pelo ambiente não faltaram também este ano. Nas vésperas do Fórum, uma multidão de ativistas reuniu-se nos Alpes e marchou 40 quilômetros para afirmar que clima e economia estão profundamente ligados e que são os interesses económicos que estão ameaçando o futuro.

A reunião de Porto Alegre resolveu falar de direitos, tema controvertido nos dias de hoje e que tem sido esmagado pelos conflitos econômicos e políticos que tiram o sono da humanidade.

Davos, cidade aprazível nos Alpes suíços, foi também escolhida por Thomas Mann para o seu romance sobre a doença, a decadência e a morte e que termina quando começa a Primeira Grande Guerra. Era um recanto de tratamento de doenças pulmonares numa época em que a tuberculose grassava na Europa e em todo o mundo. O Forum Econômico Mundial em Davos é um grande evento anual. Este ano contou com a presença de 50 chefes de estado, além de importantes ministros de seus governos. O chefe de estado brasileiro, que não foi muito bem sucedido em sua participação no ano passado, preferiu não comparecer este ano e foi representado pelo Ministro da Economia que, em seu discurso, culpou a pobreza pelos problemas ambientais enfrentados pelo mundo mas não enunciou nenhuma tese para diminuir a pobreza no mundo ou mesmo no seu país.

O World Economic Forum de Davos foi criado em 1971 por Klaus Martin Schwab, um professor suíço de administração. Seu sucesso pode ser medido pela sucessão de outros eventos a que deu origem. Na China, promove uma “Reunião Anual dos Novos Campeões”, vários encontros regionais e mesas redondas pelo mundo, além de diversos e caros relatórios de pesquisas que interessam às grandes empresas mundiais. Um ticket para comparecer à reunião de Davos custa um pouco mais de 50 mil dólares, em média. Existem várias categorias para as inscrições. Embora diga em seus estatutos que se trata de uma organização sem fins lucrativos, é um negócio milionário.

A quase totalidade dos participantes das reuniões de Davos são líderes de negócios, somando mil das principais companhias globais, presentes em quase todos os setores econômicos. Comparecem mais de mil e duzentos CEOs e Presidentes de conselhos de administração das principais empresas do mundo.

As despesas de Davos são pagas por mil empresas-membro, multinacionais que têm cada uma mais de cinco bilhões de dólares em receitas. Os requisitos é que sejam as principais no seu ramo de negócios, líderes de mercado no seu país de origem, formadoras de tendências e hábitos de consumo nas respectivas regiões.

Resistência

O Forum Social das Resistências surgiu na esteira do Forum Social Mundial, criado em 2001 na cidade de Porto Alegre. É uma contrapartida à agenda neoliberal de Davos, que tem sido acompanhada, nos últimos tempos, por uma forte ascensão da extrema direita em diversos países, uma preocupação cada vez mais presente na consciência democrática da Europa e dos povos que anseiam por um mundo melhor.



O Forum Social das Resistências é um evento preparatório do Forum Social Mundial, que vai ocorrer no próximo ano no México. Na pauta, entre outros desafios para os movimentos sociais, a agenda fascista, a exclusão de minorias e a retirada de direitos. Enquanto em Davos a estrela deste ano foi Donald Trump, em Porto Alegre compareceram a líder indígena Sonia Guajajara, a primeira mestra indígena formada pela Universidade Federal de Pelotas Pietra Dolamita, a ativista feminista negra Lilian Conceição da Silva, o economista Márcio Pochmann e o co-fundador da organização não-governamental Transparência Brasil, Chico Whitaker.

O Forum Social Mundial foi imaginado pelo empresário Oded Grajew, um antigo batalhador de causas sociais, depois de entrar em contato com o Forum de Davos. Sugeriu introduzir as questões sociais, ambientais e de responsabilidade social no Fórum Econômico e recebeu como resposta que os problemas só poderiam ser resolvidos pela via do mercado. Procurou então outros líderes de movimentos sociais e daí surgiu o Forum de Porto Alegre.

O World Economic Forum de um lado, o Forum Social Mundial do outro. Este último a apostar na reinvenção da utopia e na crença de que um outro mundo é possível.



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