Política

O novo velho continente e suas contradições: Liberdade para a Catalunha

O fantasma que ronda o governo de Madrid é o receio de que as agitações populares derivem para alguma forma de terrorismo. Como aconteceu com os bascos, que através do ETA (Euskadi Ta Akatatuna, na difícil língua basca) tentou a independência com armas e bombas numa guerra que durou de 1959 a 2011

01/03/2021 10:12

(Reprodução/bit.ly/2O9GeFd)

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“Otra revolución necesitan
Dijo que la insurrección no es un banquete
No puede ser tan pausada, fina y elegante
(De um rap de Pablo Hasél)”

Above all, there was a belief in the revolution and the future, a feeling of having suddenly emerged into an era of equality and freedom.”
(George Orwell,
Homage to Catalonia)

A agitação do povo nas ruas das cidades da Catalunha, aglomerando-se em plena pandemia, desta vez foi deflagrada pelo protesto contra a prisão do rapper Pablo Hasél. Suas canções e mensagens políticas espalhadas pelas redes da internet foram consideradas pelo Supremo Tribunal espanhol como subversivas, incitando a violência e enaltecendo o terrorismo. Centenas de artistas, entre eles o cineasta Pedro Almodóvar e o ator Javier Bardem, protestaram num manifesto em que afirmam que "o Estado espanhol passou a encabeçar a lista de países que mais artistas condenou pelos conteúdos das suas canções".

Os conflitos entre a polícia, que tem na Catalunha o nome de Mossos de Esquadra, com os manifestantes espalharam-se por Barcelona, Tarragona, Girona e outras cidades catalãs mas não significam apenas um protesto generalizado em favor de Pablo Hasél. Representam na verdade a continuação da luta pela independência da Catalunha que vem de séculos, passando de geração a geração e que ganhou forma política com militância aguerrida a partir de 1922 com a fundação do Estat Català. Em torno dele reuniram-se outros partidos e, juntos, formaram a Esquerda Republicana da Catalunha, (Esquerra Republicana de Catalunya-ERC).

(Reuters)

Já o Vox, partido de extrema direita, posiciona-se radicalmente contra a autonomia da Catalunha. O estrategista neofascista americano Steve Bannon elogiou o Vox e seu líder Santiago Abascal. “Estão próximos de Bolsonaro e Salvini” disse ele como se fora um elogio. Salvini é o líder do partido italiano Liga, também neofascista. Bolsonaro não precisa de apresentações. Bannon disse ainda, provocando grande irritação catalã, que o Vox é o partido do orgulho de ser espanhol diante do desafio na Catalunha.

A luta pela independência catalã é, portanto, uma luta da esquerda e tem sido reprimida com grande violência pelo governo espanhol. O primeiro ministro Pedro Sánchez, que teve sua posse garantida por uma coligação do seu PSOE, de centro esquerda, com o Podemos, de esquerda radical, já disse que vai alterar o Código Penal de modo a que delitos do tipo que teria sido praticado por Pablo Hasél deixem de ser crimes com pena de prisão. Seriam punidos com penas dissuasórias os comportamentos que ponham em risco a ordem pública ou manifestamente violentos.

A clandestinidade

A ERC e todo o movimento pela independência passou para a clandestinidade com a Guerra Civil, a queda da República e a ditadura de Francisco Franco. Mas nunca deixou de existir. Durante os quase quarenta anos do franquismo escolas clandestinas em instalações às vezes subterrâneas ensinavam às crianças a língua catalã que havia sido proibida pela ditadura. As perseguições, a proibição da língua e da forte cultura catalãs, prisão e assassínios de líderes, nada disso foi capaz de arrefecer o desejo de independência que agora, mais uma vez, assume contornos revolucionários. A língua espanhola, hoje, é vista como um dialeto estrangeiro. Um referendo em 2010 proibiu na Catalunha a realização de touradas, uma tradição espanhola da qual não comungam os catalães.

(EPA)

O fantasma que ronda o governo de Madrid é o receio de que as agitações populares derivem para alguma forma de terrorismo. Como aconteceu com os bascos, que através do ETA (Euskadi Ta Akatatuna, na difícil língua basca) tentou a independência com armas e bombas numa guerra que durou de 1959 a 2011.

A ação clandestina volta a ser um recurso das lideranças catalãs. Os líderes da declaração unilateral de independência em 2017 estão presos ou exilados, entre eles Carles Puigdemont, ex-presidente da comunidade autônoma, destituído e refugiado na Bélgica desde então.

A Catalunha tem fortes argumentos históricos para reivindicar independência. É uma rica região, tem sua própria identidade, língua e cultura fortes. Reclama também de participar com a maior parcela do PIB espanhol e receber o menor investimento do poder central. A população ou grande parte dela quer viver num país autônomo e independente mas a constituição espanhola proíbe um referendo sobre o tema, como foi possível fazer na Escócia, no Reino Unido e em Quebec, no Canadá. Há ainda a dificuldade de obter um reconhecimento internacional pois os países que poderiam apoiar o desejo catalão não se animam a fazê-lo porque têm os seus próprios problemas domésticos, no caso a China com o Tibet e a Rússia com a Chechênia. Uma Catalunha independente contra a vontade da Espanha teria também dificuldade para a médio prazo integrar a União Europeia.

Historicamente formado de comerciantes e artesãos sem força militar expressiva, os catalães foram facilmente dominados por exércitos invasores e o seu país dominado como se fosse uma colônia. Nunca aceitaram a dominação, mantiveram-se em rebelião e encaram a Espanha como uma força de ocupação acantonada em seu território. Diante das manifestações de rua com a participação de milhares de pessoas, são tratados pela polícia e reprimidos como cidadãos de um país ocupado.

(Reprodução/bit.ly/3kB2KCJ)


Novos países

Outros casos assemelhados na Europa que se queixam da opressão que sofrem do poder central são, por exemplo e entre outros, os do País Basco, também na Espanha, a Córsega, na França, Flandres, na Bélgica. Língua e cultura próprias não garantem autonomia. A História recente testemunhou dois momentos em que surgiram novas nações independentes. Como resultado da I Guerra Mundial, o fim dos impérios Austro-húngaro, Otomano e da Rússia czarista fez surgir novos países no Centro e no Leste Europeu. Depois da II Guerra Mundial, novas nações emergiram do processo de descolonização na África e no Médio Oriente.

Nos anos 1990 a Iugoslávia desintegrou-se e surgiram a Eslovénia, a Croácia, a Bósnia, o Kosovo, a Sérvia e a Macedónia do Norte. Mas a geopolítica dos dias atuais não parece estimular novas independências. Uma velha senhora resumiu o sentimento catalão a um repórter de TV durante uma das recentes manifestações em Barcelona: “Estamos fartos da Espanha”.



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