Política

O novo velho continente e suas contradições: O ano horrível

A esperança, afinal, está a chegar com o desenvolvimento de vacinas e as anunciadas campanhas de imunização que vão libertar a humanidade do flagelo que desestabiliza os países. Como sempre costuma acontecer, os pobres, pessoas e países, vão canalizar mais dinheiro para mãos já milionárias. Ao invés de se tornarem patrimônio de toda a Humanidade, as vacinas serão exploradas financeiramente pelos grandes grupos multinacionais de medicamentos

15/12/2020 10:06

(Sukree Sukplang/Reuters)

Créditos da foto: (Sukree Sukplang/Reuters)

 
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Dentro de poucos dias termina este mês de dezembro e fecha-se o ano de 2020. Os antigos romanos o chamariam de Annus Horribilis. Ele ficará para sempre na memória da humanidade, atacada por um vírus até então desconhecido. Ao fim deste ano terão sido infectadas 60 milhões e morrido dois milhões de pessoas, revelam os números até agora levantados e que simbolizam uma das maiores tragédias humanas já vividas. Enormes prejuízos econômicos, o fechamento de empreendimentos produtivos e o fim de empregos sem conta estarão também inscritos na contagem desta epidemia e das catástrofes que ela está provocando.

Nos países mais ricos do mundo, as bolsas de valores desvalorizaram-se em média 30 por cento e a quantidade de americanos que pediram subsídio de desemprego pela primeira vez subiu para quase sete milhões, configurando um recorde por duas semanas consecutivas.



Neste ano horrível, uma enorme solidão tomou conta das pessoas de todo o mundo. Confinamentos decretados pelos governos, toques de recolher, proibição de viagens, suspensão das aulas nos colégios e do trabalho nas fábricas e escritórios. E mais a contabilidade diária da quantidade dos mortos como leitmotiv a provocar angústia, dor e sentimentos de perda e abandono.

Este terá sido o ano em que a velha Europa viu balançarem todas as suas crenças. A estabilidade que aspirava com a construção de uma comunidade harmônica de países começou a rachar com o Brexit e os movimentos eurocéticos dos partidos de direita e extrema direita que crescem em todo o continente. Prosseguiu com intensidade a chegada em multidão de refugiados dos países da África e do Oriente a fugir das guerras, da pobreza e da miséria absoluta.

No passado dia 10 de dezembro, David Beasley, diretor do Programa Alimentar Mundial-PAM, recebeu o Prêmio Nobel da Paz e advertiu que uma nova epidemia está a chegar e vai ocultar os impactos do Covid-19. Trata-se da pandemia da fome, assim a nomeou, cujos efeitos são potencialmente mais graves do que a do coronavírus, da qual está se originando neste exato momento. Morrerão talvez 270 milhões de pessoas. Nas últimas semanas o PAM advertiu para a crítica situação que detectou em Burkina Faso, Sudão do Sul, no Iémen e no nordeste da Nigéria.

Os partidos populistas de direita fortaleceram-se nas últimas eleições e por sua vez ameaçam a democracia que a Europa tanto desejou desde fins do século XVIII. Apesar do contínuo avanço da tecnologia, descortinam-se sinais de aproximação de uma nova Idade Média, no que teve este período da História de fanatismo religioso, obscurantismo e perplexidade. Não cessaram neste ano os ataques terroristas no território europeu.

Cabe ao ano que vai terminando a definição que Eugenio Scalfari escreveu sobre um outro ano terrível, no jornal italiano La Republicca, que ele editava: "questo anno terribilis che sta per andarsene col suo fardello di sangue, di pianto, di aggravata miseria, di incertezze economiche e di piu intense paure esistenziali" - este ano terrível que está para ir embora com seu fardo de sangue, de pranto, de agravada miséria, de incerteza econômica e do mais intenso medo existencial.



O pior dos anos

No pensar de muitos, é o pior ano da História. Pior, talvez, do que o ano de 1349, marcado pela Peste Negra, que vitimou metade da população da Europa; ou de 1918, quando a gripe espanhola matou de 50 a 100 milhões de pessoas pelo mundo; ou mesmo os anos de 1939 a 1945, marcados pelo Holocausto e pela Segunda Guerra Mundial, que exterminaram 60 milhões de pessoas.

Historiadores afirmam, no entanto, que o pior ano da história conhecida dos homens foi o de 536 d.c. Michael McCormick, arqueólogo e professor da Universidade de Harvard, diz que 536 não foi somente os piores 12 meses para a humanidade, mas “o início de um dos piores tempos para se estar vivo”. Uma névoa cobriu o céu da Europa. Roma e Florença foram destruídas, a temperatura caiu, as colheitas foram perdidas e milhares de pessoas morreram de fome. Populações inteiras fugiram da Mongólia em direção à Europa.

A esperança que gera dinheiro

A esperança, afinal, está a chegar com o desenvolvimento de vacinas e as anunciadas campanhas de imunização que vão libertar a humanidade do flagelo que desestabiliza os países. Como sempre costuma acontecer, os pobres, pessoas e países, vão canalizar mais dinheiro para mãos já milionárias. Ao invés de se tornarem patrimônio de toda a Humanidade, as vacinas serão exploradas financeiramente pelos grandes grupos multinacionais de medicamentos. A vacina do laboratório Pfizer custará 40 euros por aplicação, a do Moderna 60 euros. A BioNTech, parceira da Pfizer, valorizou 258% nas bolsas, passou de 28 para 99 euros por ação. A do Moderna, de 25 para 125 euros. Novas fortunas serão acrescentadas ao já trilionário grupo de 1% dos detentores da riqueza do planeta.

O Ministro das Finanças da Alemanha, Olaf Scholz, afirmou que o país vai contrair este ano 300 bilhões de euros (US$358 bilhões) de novas dívidas, necessários para o combate ao vírus. O país superou a marca de um milhão de contágios, com mais de 15 mil mortes. Berlim ampliou os auxílios de emergência a empresas, medida que vai custar mais de 30 bilhões de euros.



São cifras muito grandes. "É muito dinheiro, mas teria sido pior não fazer nada", defendeu-se Olaf Scholz.

Na França, desde que foi detectado em janeiro o primeiro caso em Bordeaux, já foram infectadas quase três milhões de pessoas. O presidente Emmanuel Macron suspendeu todas as reformas que constavam das suas promessas eleitorais, principalmente a das aposentadorias, depois de uma greve que foi a mais longa da história recente daquele país. Uma medida da crise foi ter sido considerada a venda da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, pertencente ao Museu do Louvre, por 50 milhões de euros, para que o governo pudesse dispor de mais recursos no enfrentamento da pandemia.

Não foram só os países ricos a sofrerem os impactos. Na Irlanda, a taxa de desemprego aumentou de 4,8% para 17%.

Os bancos, acusados como responsáveis pela crise financeira mundial em 2009, passaram a ser vistos como possíveis aliados dos governos na garantia de financiamentos para as empresas em crise de sobrevivência.



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