Política

O novo velho continente e suas contradições: O atoleiro da Europa Central

A guerra em Donbass, no Sudeste da Ucrania, que já fez 13 mil mortos e onde luta o Batalhão Azov, de extrema direita e ao qual teria pertencido o blogueiro bielorrusso Roman Protasevich, é mais uma zona de conflito desde a incorporação do território da Crimeia pela Rússia. Ainda está em curso e continua sem solução

07/06/2021 09:40

Roman Protasevich é detido em Munsk, Bielo-Rússia, em março de 2017 (Sergei Grits/AP)

Créditos da foto: Roman Protasevich é detido em Munsk, Bielo-Rússia, em março de 2017 (Sergei Grits/AP)

 
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Um episódio rocambolesco em que um avião da Ryanair foi interceptado em pleno voo por caças militares nos céus da Bielorrússia. Obrigado ao pouso, foi exigido o desembarque e os passageiros identificados pela polícia. Um deles foi preso. Tratava-se de um blogueiro de simpatias neonazistas que faz oposição ao governo do presidente Alexander Lukashenko, frequentemente mencionado como o último ditador da Europa e que está no poder há 26 anos. Ele se tornou o primeiro presidente eleito do país em 1994, a única vez em que as eleições foram consideradas livres e justas pelos observadores internacionais. Lukashenko foi reeleito cinco vezes. Agora, milhares de pessoas foram às ruas, em manifestações contra a sua presença no governo.

Recentemente ele indicou vodka e sauna para tratamento da covid-19.

Uma história, como se vê, carente de heróis.

Alexander Lukashenko (Victor Tolochko/Sputnik)

O ataque ao avião da Ryanair que voava de Atenas para Vílnius, na Lituânia, surpreendeu a Europa. O Conselho da União Europeia foi unânime em condenar o governo da Bielorrússia, também chamada República de Belarus. Roman Protasevich, o blogueiro preso, tem mais de 1 milhão de seguidores e talvez seja esta a razão de ser considerado um líder da oposição. Ele teria também combatido no Batalhão Azov, neonazista, na guerra civil da Ucrânia contra os independentistas, embora afirme que atuou apenas como jornalista.

O Batalhão Azov, neonazista e supremacista branco, foi fundado em 2014 e recentemente incorporado à Guarda Nacional da Ucrânia. Tem participado ativamente dos conflitos em Donbass. Seu logotipo exibe a marca Wolfsangel (https://www.adl.org/education/references/hate-symbols/wolfsangel) , que foi adotada em várias das divisões do exército nazista alemão durante a Segunda Guerra Mundial.

Neste último fim de semana Protasevich foi exibido na televisão com marcas de algemas nos pulsos e parecia transtornado. Admitiu a procedência de todas as acusações e seus pais afirmam que foi torturado para dizer o que o governo queria que dissesse.

As fronteiras da Europa Central são permanentemente instáveis. Numerosos territórios têm mudado de nacionalidade de acordo com interesses de grupos particulares, desavenças familiares, alinhamento geopolítico ou motivações religiosas. A Bielorrússia é um desses territórios. Já foi parte da Polônia e do Grão-Ducado da Lituânia, pertenceu ao Império Russo e à República das Duas Nações (Polônia e Lituânia) antes de fazer parte da URSS. Conseguiu a soberania em 1990 e a independência em 1991. Três anos depois, Alexander Lukashenko, ex-membro do Partido Comunista da União Soviética, ganhou as eleições e desde então permanece no governo.

A Ucrânia e a OTAN

A guerra em Donbass, no Sudeste da Ucrânia, que já fez 13 mil mortos e onde luta o Batalhão Azov, de extrema direita e ao qual teria pertencido o blogueiro Roman Protasevich, ocorre numa zona de conflito que se agravou desde a incorporação do território da Crimeia pela Rússia. Ainda está em curso e continua sem solução. Na região de Donbass vive uma população de origem russa que deseja a incorporação da mesma forma como aconteceu com a Criméia. O governo ucraniano, por seu lado, quer uma imediata adesão do país à OTAN, o que lhe garantiria uma defesa contra a Rússia mas que, do ponto de vista russo, colocaria mísseis de guerra ocidentais em suas fronteiras e apontando para Moscou.

Batalhão de Azov, Ucrânia (Reprodução/bit.ly/3psfZIq)

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou há poucos dias que "a única maneira" de acabar com a guerra no Leste da Ucrânia é através da adesão do país à Otan o que, segundo ele, enviaria um "sinal real à Rússia". O governo russo respondeu com o envio de milhares de soldados e equipamentos russos à fronteira russo-ucraniana. E deu-se o início de uma guerra de palavras.

No campo diplomático, a Rússia reagiu duramente. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova declarou que “ao contrário das expectativas de Kiev, a adesão à Otan não apenas não trará paz à Ucrânia mas, ao contrário, levará a um aumento na escala de tensão no sudeste, causando, talvez, consequências irreversíveis para a manutenção do Estado ucraniano". O significado dessas palavras é o fim da Ucrânia como Estado independente.

O Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, entrou na história e prometeu a Kiev apoio "inabalável" face às "agressões da Rússia". A União Europeia também se manifestou e o seu alto representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, prometeu apoio da UE a Kiev e manifestou o que chamou de grande preocupação com os movimentos de tropas russas na fronteira com a Ucrânia.

Por seu lado, o Kremlin afirmou que a Rússia não ameaçava ninguém e atribuiu o agravamento da situação às repetidas provocações do exército ucraniano. O exército russo, em seguida, iniciou manobras militares destinadas a simular uma defesa contra um ataque de 'drones' numa região perto da fronteira com a Ucrânia.

Encontro Biden-Putin

Nesse tenso ambiente, os presidentes americano Joe Biden e russo Vladimir Putin vão se encontrar pessoalmente no próximo dia 16 de junho, em Genebra, na Suíça. Ao confirmar o encontro, o Kremlin afirmou em comunicado que Putin e Biden vão discutir "questões de estabilidade estratégica", bem como "resolver conflitos regionais" e abordar a pandemia de covid-19. No capítulo dos conflitos regionais, entenda-se a situação da Ucrânia e suas implicações.

As relações entre os Estados Unidos e a Rússia têm se deteriorado depois das acusações de Washington de ingerência russa nas eleições presidenciais americanas do ano passado, ciberataques e espionagem. Dez diplomatas russos foram expulsos dos Estados Unidos e foi decretada uma proibição aos bancos de adquirirem a dívida emitida pela Rússia. Em contrapartida, o governo russo emitiu uma declaração em que formalmente considera os Estados Unidos “um país hostil”.

Este é o nó que os dois presidentes vão tentar desatar.





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