Política

O novo velho continente e suas contradições: O caldeirão irlandês

A imprensa fazia parecer um conflito religioso entre católicos que lutavam pela independência e pela república e protestantes que defendiam a união com o Reino Unido. Não era apenas isso. Na verdade era uma luta com raízes mais profundas, fruto das contradições entre uma classe dominante e outra que era explorada. Essa luta continua até hoje e as contradições ainda são as mesmas

19/04/2021 10:45

(Reprodução/Aargauer Zeitung/bit.ly/3n0cqId)

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Os conflitos violentos que se desencadearam neste princípio de abril na Irlanda do Norte, tão dilacerada historicamente pela violência, vieram mais uma vez chamar a atenção para este país submetido por séculos a uma potência estrangeira e profundamente dividido internamente. O pano de fundo dessa violência de agora não são, como tem sido dito, apenas as desajeitadas fronteiras que foram demarcadas pelo acordo do Brexit. Nem a divisão religiosa entre católicos e protestantes na sociedade irlandesa. É, sim, mais uma vez, a velha luta de classes, este conflito econômico, ideológico e político tão bem definido desde o século 19 por teóricos como Karl Marx e Mikhail Bakunin.

A marca religiosa dos conflitos irlandeses tem origem na dominação e influência do imperialismo britânico, que ampliou o protestantismo deixando pouco espaço para as comunidades católicas. Os católicos são historicamente considerados cidadãos de segunda classe. E o preconceito e a intolerância aprofundaram os ressentimentos entre dominadores e dominados.



Nos subúrbios escuros e carentes de Belfast, a capital, e das principais cidades norte-irlandesas como Carrickfergus, Ballymena e Newtownabbey

vivem as populações católicas, que lutam pela independência e a integração com a República da Irlanda. Trata-se da população mais pobre, principalmente quando comparada com os ricos protestantes que defendem com entusiasmo o país como parte do Reino Unido.

Estive lá em 2019 e vi que nos bairros protestantes as bandeiras do Reino Unido estão desfraldadas nas fachadas enquanto bandeiras da Irlanda indicam os quarteirões católicos, numa clara e forte marca da divisão territorial. Existem zonas neutras como o centro de Belfast, que exibe a aparência de uma cidade como outra qualquer.

Enquanto a República da Irlanda, que a si mesma chama de Eire, conquistou a independência em 1922 depois de uma guerra de guerrilhas liderada pelo IRA, o Exército Republicano Irlandês, a Irlanda do Norte continuou conquistada e ocupada pelos ingleses. Mas num estado de sublevação e conflito de classes contínuo que custou 3.500 mortos até a assinatura do tratado de paz de 1998. The Troubles foi o nome dado pela mídia à luta armada entre republicanos e unionistas, com participação do exército britânico, até a assinatura daquele acordo.

A imprensa fazia parecer um conflito religioso entre católicos que lutavam pela independência e pela república e protestantes que defendiam a união com o Reino Unido. Não era apenas isso. Na verdade era uma luta com raízes mais profundas, fruto das contradições entre uma classe dominante e outra que era explorada. Essa luta continua até hoje e as contradições ainda são as mesmas.



Tumultos

As agitações deste mês de abril têm sido descritas como “tumultos sem precedentes”. Os políticos apelam para o fim da violência, quase cem policiais já resultaram feridos, carros e ônibus foram incendiados e dezenas de pessoas presas, entre elas vários menores de idade. Embora seja de certa forma repetitiva a ocorrência de tumultos na Irlanda do Norte, todos dizem que estes de agora parecem revelar algo bem mais grave. Existem dois lados em conflito, grande volume de explosivos e a aparente presença de grupos paramilitares.

A violência começou no chamado “muro da paz”, em Belfast, que divide comunidades protestantes e católicas. O portão foi derrubado e começaram os ataques. Os policiais que tentaram controlar o conflito e os jornalistas foram agredidos, ônibus incendiados. Há indicações de que os incidentes foram orquestrados por grupos organizados, pois a violência foi concentrada principalmente em áreas onde grupos criminosos ligados a paramilitares unionistas possuem influência significativa. A Ulster Defence Association – Associação de Defesa do Ulster, um grupo paramilitar de direita, defensor da união do país com o Reino Unido, foi acusado de ser um desses grupos. A UDA trafica drogas, espalha o terror nas áreas que domina, exerce o poder nas comunidades de forma semelhante às milícias do Rio de Janeiro no Brasil

Como se fosse uma ironia dos tempos, os distúrbios deste mês foram deflagrados pelos unionistas, defensores da união com o Reino Unido. Eles se consideraram traídos pelos confusos acordos de alfândega do Brexit. Protestam também contra a aglomeração no enterro de um ex-líder do IRA, o que contrariou as determinações de confinamento pelo covid e que não foi reprimida pela polícia.

Os nacionalistas irlandeses responderam com o arremesso de coquetéis molotov e outros engenhos explosivos. E a confusão estava armada. "Continua a ser muito difícil ver onde isto vai desembocar, exceto o aumento da frustração e da raiva. Isto está a fermentar há meses ", disse Duncan Morrow, professor de ciências políticas na Universidade do Ulster.



O IRA

As autoridades temem o recrudescimento dos conflitos e que o IRA reapareça apelando de novo para a luta armada. Essas três letras são o acrônimo do Irish Republican Army, o Exército Republicano Irlandês, famoso em todo o mundo pelos vários anos de resistência ao domínio britânico e pelas suas ações espetaculares. Entre elas a de matar Lord Mountbatten, tio do Príncipe Phillip, primo da Rainha Elizabeth, uma das mais importantes personagens da família real inglesa. O IRA executou o atentado explodindo o seu iate durante um passeio com membros da família. Morreram mais três pessoas, entre elas um adolescente que a imprensa sensacionalista de Londres sugeriu ser amante de Mountbatten.

O IRA foi fundado em 1919 por um grupo de católicos que se reuniu para se opor à divisão do país e a anexação da Irlanda do Norte ao Reino Unido. Foi concebido como um grupo militarizado para a prática da guerrilha urbana. Recorreu a métodos classificados como terroristas, com atentados a bomba e emboscadas. Seus principais alvos eram os políticos unionistas, membros do governo britânico e os protestantes que compunham as várias instâncias do poder.

O IRA saiu da clandestinidade e depôs as armas em 2005 para participar da política dentro do quadro legal. Há no entanto grupos dissidentes que querem manter a resistência armada e preparam-se para nova guerra. E o clima de animosidade que sempre existiu entre protestantes e católicos não deixou de existir. Não há entre eles uma convivência que possa se chamar pacífica.



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