Política

O novo velho continente e suas contradições: O cio da cadela fascista

 

11/02/2020 09:45

 

 
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Quarenta e oito anos de ditadura aparentemente vacinaram Portugal contra as aventuras populistas de extrema direita que hoje ameaçam a Europa. Só nas últimas eleições parlamentares portuguesas, realizadas em 2019, um único deputado de matiz fascista conseguiu ser eleito por um partido que até aquele momento carecia de qualquer representação. O mesmo não se pode dizer da Espanha, onde o Vox surge como força política e crescente participação, hoje com mais de 10 por cento dos votos. O programa desse partido defende uma política anti-imigrantes e um forte nacionalismo de combate às autonomias regionais e aos movimentos separatistas do País Basco e da Catalunha. O atual governo de centro-esquerda luta para se fortalecer.

Os dois países ibéricos sofreram pesadas ditaduras quase ao mesmo tempo em suas respectivas histórias. Com a diferença de que Portugal livrou-se da sua através de um movimento militar que derrubou o salazarismo e a Espanha teve uma solução negociada pelo próprio Franco quando ainda estava vivo. E restaurou a monarquia. A memória do franquismo continua a ser um peso sobre os ombros dos espanhóis. Com a diferença das idiossincrasias, foi o que aconteceu também no Brasil. Os militares que exerciam o poder com mão de ferro conduziram uma solução negociada. E a sombra da ditadura não foi erradicada e ainda ameaça os brasileiros.

Populismo autoritário

Outros dois países que experimentaram viver sob ditaduras de direita – Alemanha e Itália – foram derrotados numa guerra que exauriu os recursos nacionais, sacrificou seus povos e acabou por representar um capítulo negro na história da Europa. Mas ainda não se libertou das tentativas de soluções populistas autoritárias. A cadela do fascismo está sempre no cio, dizia Bertolt Brecht.

“Alternativa para a Alemanha” (Alternative für Deutschland, AfD) surgiu em 2013 e nas eleições de 2017 chegou a 13 por cento dos votos para o parlamento. Foi o primeiro partido de extrema direita a obter representação no Bundestag. Sua plataforma política repete o modelo comum a todos os partidos com a mesma ideologia: é contrária aos imigrantes, combate o euro e a União Europeia numa ação política parecida com a que levou os ingleses ao Brexit.

A AfD é atualmente o principal partido de oposição ao governo de Angela Merkel, do CDU – União Democrática-Cristã ((em alemão: Christlich-Demokratische Union Deutschlands), embora os dois partidos tenham recentemente se coligado nas eleições da região da Turíngia. A chanceler foi contra esta união que considerou espúria. "É preciso dizer que este é um ato imperdoável e, portanto, o resultado desta eleição deve ser cancelado", protestou Angela Merkel. "Tudo deve ser feito agora para deixar claro que aquilo que CDU acredita não pode ser associado à extrema-direita", acrescentou. As eleições da Turíngia acabaram por ser canceladas. Desde a queda do nazismo, foi a primeira vez em que a liderança de uma região foi eleita na Alemanha com a participação da extrema direita. Muitos alemães lembraram-se de que o partido de Hitler começou assim.

Itália

A Liga Norte, de Matteo Salvini, foi criada em 1991. Seu programa dizia pretender a autonomia política e fiscal das províncias do Norte da Itália. Com a eleição de Salvini à liderança, em 2013, o partido iniciou o combate aos imigrantes e ao euro e passou a adotar uma posição nacionalista do tipo fascista. Em 2017 abandonou a designação “Liga Norte” e passou a se chamar simplesmente Liga, com ambição de deixar de ser um partido regional e expandir-se por todo o país. Chegou ao centro da Itália e à Sardenha e mira agora o Sul do país. Em 2018 obteve 18 por cento dos votos nas eleições gerais. Nas recentes eleições europeias, chegou a 34 por cento e, segundo as pesquisas, tem intenções de voto da ordem de 39 por cento.

A Liga expande-se também em acordos políticos com seus congêneres de outros países, como é o caso da Frente Nacional de Marine Le Pen, da França, e dos partidos de extrema direita da Áustria e dos Países Baixos.

A cadela se mexe, inquieta.



O encontro de Roma

Em Roma, no dia 4 de janeiro, houve o encontro dos principais líderes da extrema direita da Europa apelidado com o longo título de "Deus, honra e pátria - o presidente Ronald Reagan, o papa João Paulo II e a liberdade das nações". Matteo Salvini, inexplicavelmente, não compareceu e cedeu os holofotes a Georgia Meloni, presidente do neo-fascista “Fratelli d’Italia”. Meloni é uma estrela ascendente no panorama da extrema direita italiana. Outras estrelas presentes foram Marion Maréchal Le Pen, sobrinha e representante de Marine Le Pen, o húngaro Viktor Orban, o escritor britânico Douglas Murray e o cientista político israelense Yoram Hazony.

O que foi discutido nessa reunião não foi divulgado e a imprensa italiana não lhe deu demasiada atenção, preocupada com a cobertura do misterioso coronavírus e suas consequências. Poucos jornalistas receberam autorização para acompanhar o congresso.

É de se assinalar também o encontro de Viktor Orban com o ex-chefe de governo da Itália Silvio Berlusconi, num dos dias do congresso. Nenhum dos dois revelou o que discutiram. Mas a reunião dos líderes da direita europeia aplaudiu o Brexit, bradou contra o que chamou de totalitarismo da esquerda e comemorou “a revolução que derrubou o comunismo.”

A cadela do fascismo está sempre no cio.






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