Política

O novo velho continente e suas contradições: O naufrágio da humanidade

 

20/11/2019 14:11

Aylan Kuri, 3, morto por afogamento em uma praia da Turquia (Nilufer Demir/DOGAN NEWS AGENCY/AFP)

Créditos da foto: Aylan Kuri, 3, morto por afogamento em uma praia da Turquia (Nilufer Demir/DOGAN NEWS AGENCY/AFP)

 
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A foto de um pequeno menino morto, batido pelas ondas, numa triste praia turca, chamou a atenção do mundo para a crise dos refugiados em um dos seus momentos mais dramáticos, no ano de 2015. O menino morto era Aylan Kurdi, curdo, de três anos. Estava vestido como se fosse para uma festa de aniversário de um coleguinha do jardim de infância mas na verdade empreendera a travessia do Mar Mediterrâneo, junto com a família, cuja entrada havia sido negada no Canadá. Tentava a Europa. Apenas o pai salvou-se do naufrágio em que morreram Aylan e toda a família. “Um naufrágio da humanidade”, bradaram alguns jornais e as redes sociais. Naquele ano, 2.600 pessoas morreram no Mar Mediterrâneo seguindo o mesmo roteiro de Aylan, tentando chegar à Europa em busca de salvação e reconstrução de suas vidas devastadas pela guerra.

Os curdos são uma nação sem território, espalhados pela Síria, Iraque e Turquia, onde o governo os declarou inimigos do estado. Depois de terem lutado com bravura e vencido na Síria o Daesh, o Estado Islâmico, foram há pouco abandonados pelos Estados Unidos, seus aliados até então, da mesma maneira como têm sido abandonados por outras nações que lhe deveriam solidariedade.

Na mesma época da morte do menino Aylan o mundo também se mostrou indignado com a divulgação da foto em que a jornalista húngara Petra László, na fronteira com a Sérvia, chutava uma criança que procurava refúgio no seu país. Ela estava na fronteira designada como repórter para a cobertura jornalística das migrações. A Hungria, governada pelo radicalismo de direita, tentava fechar a passagem das ondas de refugiados com um muro ao longo das suas fronteiras com o Oriente. O mesmo modelo defendido por Trump na fronteira do México.

A nova crise

Em 2015 chegaram à Europa mais de um milhão de refugiados e para estes anos de 2019 e 2020, segundo o Ministro do Interior alemão, Horst Seehofer, uma nova crise se avizinha e talvez pior do que a de 2015. Só em finais de setembro passado, chegaram à Europa 46 mil pessoas que fugiam da explosiva situação na Síria, Iraque e vizinhanças.

A Turquia tem agido como um muro de contenção de refugiados e pretende criar uma “zona de segurança” de 32 quilômetros no Nordeste da Síria. É um território ocupado pelas YPG (Unidades de Proteção Popular), força curda ligada ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão, que luta pela independência e autonomia do seu povo. A Turquia os considera terroristas.

Cinegrafista húngara passa rasteira em imigrante no campo de Rosze, no sul da Hungria, perto da fronteira com a Sérvia (Reprodução/Facebook)

O radical presidente turco Recep Tayyip Erdogan avisou à Europa que já hospeda em seu território 3,6 milhões de pessoas, com as quais já gastou 40 bilhões de dólares. Pede indenização dos gastos, senão abrirá as fronteiras e deixará que aquelas populações partam para onde quiserem. Uma chantagem.

Há pouco foram deportados da Turquia e mandados de volta a seu país 316 mil sírios que lá estavam em busca de asilo. Foram obrigados a assinarem uma declaração em que atestavam que o faziam voluntariamente. A denúncia foi feita por Anna Shea, investigadora da Anistia Internacional em direitos dos refugiados e migrantes.

Uma crise humanitária

O roteiro seguido pelos fugitivos sírios é descrito por Mahmud, um universitário de 20 anos de Talmans, na província de Idlib, Sul do país. Uma área controlada pelo Al Qaeda. Mahmud tentava fugir de um conflito que já fizera 200 mil mortos. Vinte mil habitantes da sua aldeia já tinham empreendido a fuga. Alguns com sucesso, outros haviam se afogado na travessia do Mediterrâneo. Ele resolveu apostar na sorte e seguiu para a Turquia e de lá para a Argélia, onde pagou 300 dólares a traficantes para o levarem à Tunísia. Seguiu a pé por vários quilômetros até a fronteira com a Líbia, onde pagou mais 700 dólares a outros traficantes para o conduzirem a Zawara, no litoral. Nesta cidade, nova organização de traficantes exigiu mil dólares para o levarem até à Itália, pela perigosa travessia do Mar Mediterrâneo numa embarcação precária e superlotada. Lá, deveria procurar o seu destino. Mahmud chegou à Noruega, onde espera que lhe seja concedido asilo.

A marinha italiana resgatou requerentes de asilo que viajavam em um barco na costa da África, no Mediterrâneo, em junho de 2014 (Massimo Sestini/Polaris)

A crise migratória que tanto afeta a Europa tem suas origens na invasão do Iraque pelos Estados Unidos, sob pretexto de que aquele país detinha um estoque de armas químicas proibidas. Uma alegação que se revelou falsa. Seguiram-se a invasão do Afeganistão, o fortalecimento do Daesh-Estado Islâmico e a tentativa de desestabilização do governo da Síria. Um conjunto de fatores que vieram a produzir enormes danos nas populações civis e a fuga em massa para fugir da fome, da miséria e de todos os horrores da guerra. Como pano de fundo, a maldição do petróleo.

É uma enorme crise humanitária que tem alimentado e feito crescer os partidos políticos de extrema direita nos países europeus. A Comunidade Europeia foi fundada num continente cansado de guerras e com inspiração nos ideais de solidariedade e ajuda mútua. A chegada de levas de estrangeiros têm no entanto  assustado as populações locais. Há o medo do outro, do que não é tão bem conhecido, que veste-se de forma diferente, tem linguagem, hábitos, religião e cultura diferentes. E mais o receio da ocupação dos empregos e saturação dos serviços públicos.

O fascismo nutre-se dos medos e planta teses de um nacionalismo excludente e radical. Quase todos os países europeus têm hoje representação dessa ultra  direita em seus parlamentos, uma aurora fascista que acena com o renascimento do clima que levou a Europa às grandes tragédias do Século 20.

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